
A colecionadora
Mariana tinha o hábito de guardá-los debaixo da língua ou entre os dedos, dependia. No início eram leves, rechonchudinhos, cheiravam a criancinha acabada de sair do banho: Fofinha, Inocente, Risonha. Mariana gostava deles. Faziam-na brilhar. De noite, ela os juntava num montinho e os colocava para dormir ao seu lado, na beiradinha do travesseiro.
Os dentes de leite caíram, as suas pernas se esticaram, ela entrou para a escola. Começaram a lhe oferecer outros novos e ainda melhores: Inteligente, Desenvolta, Bem-comportada. Aos quatorze anos, a coleção de Mariana nem nos seus bolsos cabia. Foram necessárias caixinhas vazias de vários tamanhos e origens, desde sapato, perfume ou brinquedo, para acomodar as suas riquezas. Ocupavam todas as prateleiras de uma pequena estante no seu quarto. Da escrivaninha, ela contemplava as conquistas. Quando era menina, chegavam sem que precisasse fazer por merecê-los. Cedo, porém, compreendeu que nenhum era gratuito. Por isso, gostava de os manter à vista dos olhos.
De quando em quando, retirava um e brincava com ele. Mariana se alegrava com a maneira como reluzia entre os seus dedos. Em seguida, o dispunha em cima da mesa: Diligente. Não era habitual que uma adolescente envergasse um de tanta monta. Sentia-se um pouco adulta.
Na época do vestibular, mesmo estando focada na preparação para as provas, notou um silêncio. Só lhe chegavam: Gata, Linda, Deusa. Soltava um sorrisinho. Esses eram menores, porém carregavam uma intenção que a atraía e constrangia. Mariana não sabia bem como e onde encaixá-los. Foi nessa altura que saltaram aqueles que quase não precisavam ser ditos. Tornaram-se frequentes e insistentes quando caminhava pelas ruas, no transporte público, na faculdade. Acabou por descobrir que alguns eram ásperos e traziam um olhar capaz de a despir: Gostosa, Boazuda, Tesuda. Procurava refugiar-se em algum lugar onde pudesse enfiá-los rapidamente num saco plástico.
Mariana dedicou anos a organizar, reorganizar e voltar a organizar a coleção que já se espalhava não apenas pelo quarto mas por vários cômodos do seu primeiro apartamento. Trabalhava, então, numa daquelas corporações em que se usa um crachá pendurado no pescoço. E foi aí, junto com a sua identificação, que prendeu um que lhe haviam dado na entrevista de seleção: Promissora.
Por um tempo, tudo fluiu: Eficiente, Determinada, Competente. Mariana sentia-se confiante. E embora permanecesse a mesma, não demorou para que começassem a ter um gosto estranho. Foram se tornando amargos e se colavam ao céu da boca. Mariana empurrava-os com a língua para arrancá-los, se grudavam com força. Teve de puxá-los. Deixavam um resíduo nos dedos, como se tivessem sido tocados por muitas pessoas antes de chegarem até ela. Eram pesados. Foi necessário arranjar uma caixa robusta. Mas ela os mantinha bem preservados, afinal, era uma colecionadora.
Passou a trabalhar o dobro na intenção de receber os mais palatáveis: Mandona, Difícil, Calculista. Foi tudo o que conseguiu. O sabor era horrível. Mariana não sabia quanto tempo conseguiria mantê-los dentro da boca sem os cuspir. Ainda lhe restava uma tarde de trabalho antes de poder ir para casa e os despejar. Não, nesses ela não mexeria por um tempo. Ficariam jogados no fundo de uma caixa qualquer mesmo porque não mereciam a sua dedicação. Nenhum chegou diretamente, foram disparados à distância. Não tinham um rosto, um nome, nada. Machucavam como pedras e cheiravam a chulé. Intragáveis.
Autoritária, Controladora, Arrogante atingiram-na enquanto andava até a máquina de xerox. A boca se encheu de saliva, começou a suar frio, a pele foi ficando úmida, arrepiada, pálida. Apareceram as ânsias e não aguentou. Vomitou tudo no meio do escritório.
O jorro irrompeu cheio de pedaços, muitos vieram rachados ao meio ou apenas com uma sílaba. Nada fazia sentido. Esticou-se para alcançar a mesa do colega, que a olhava pasmado, agarrou a lixeirinha dele e a posicionou nos pés. Tirou um elástico do pulso, prendeu os cabelos para trás e vomitou outra vez. Junto com a bílis saíram inteiros: Dramática, Histérica, Mal-amada.
Mariana se ergueu menos abatida, sem intenção de se dirigir para o banheiro, agarrou um copo que estava numa mesa, bochechou a água para limpar o ácido dos dentes e cuspiu para a lixeira. Usou uma pasta da contabilidade para se abanar, recuperando o fôlego e caminhou de volta para a sua mesa.
Na sua infinita paciência, pensou em arrumar as coisas e ir para casa. Depois reconsiderou pois lembrou-se que também carregava um para lhes atirar: Covardes.
Trabalhou até o final do expediente como todos os dias.
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