
Da Terra sem Amos ao Cruzeiro do Sul – a Caminho e o vasto mundo que o “ocidente” ignora
Com chancela da Caminho, uma nova colecção de livros traz para as livrarias portuguesas autores e autoras desse imenso Sul global, geografia tantas vezes ignorada por um mercado editorial e livreiro predominantemente europeu e anglo-saxónico que se crê no centro do mundo.
É ainda na década de 1970, naturalmente já depois da Revolução dos Cravos, que a então Editorial Caminho lança a colecção Uma Terra Sem Amos. A abrir, Alex La Guma, da África do Sul, com A Luz que Rompe das Trevas, Ferdinand Oyono, dos Camarões, com O Velho Preto e a Medalha, Jacques Roumain, do Haiti, com Os Governadores de Orvalho, Ousmane Sembéne, do Senegal, com Os Pedaços da Madeira de Deus e Manuel Cofiño López, de Cuba, com A Última Mulher e o Próximo Combate. Registam-se os títulos e a autoria por uma questão de memória, e porque os tantos feitos e histórias que compõem a edição portuguesa andam espalhados, guardados pelos editores e por outros agentes, mas a pedirem reunião e organização para memória futura. Pelas páginas dos livros desta colecção, que foram tendo designs diferentes e sempre muito reconhecíveis, passaram vários outros autores, dando a ler aos leitores portugueses uma série de textos oriundos de geografias habitualmente ausentes dos escaparates das livrarias. Para além do título da colecção, um verso de «A Internacional», também o catálogo que a foi formando no início reflectia o ar do tempo, esses anos pós-revolução onde a vontade de mundo se associava à urgência de escutar as vozes de outras opressões, de outras lutas pela liberdade em coordenadas espalhadas pelo globo.

Avançando os anos, a colecção estendeu-se, acolheu novos autores, trouxe nomes como o de Mia Couto, por exemplo, ao convívio regular com leitores portugueses e acabou por desaguar noutras colecções da Caminho, como a Outras Margens ou O Campo da Palavra. Uma Terra Sem Amos ficou, no entanto, como marco inolvidável da edição portuguesa em geral, e do trabalho da Caminho e do seu editor de sempre, Zeferino Coelho, em particular, pelo que faz sentido lembrá-la quando a notícia é uma nova colecção da Caminho, partilhando alguns pontos de partida com esta colecção já encerrada. Cruzeiro do Sul, assim se chama, anuncia-se como um espaço de divulgação de literaturas oriundas de países desse imenso Sul Global aonde os países mais ricos – e seguros de estarem no centro do mundo, apesar de este ser esférico e só admitir países à superfície – foram buscar recursos até ao limite da exploração, e mesmo para além dele, esquecendo que também aí há cultura, escrita, literatura e, portanto, histórias para serem contadas.
Nos últimos anos, a Caminho tem dedicado a sua publicação de ficção à língua portuguesa, deixando de fora muitas geografias. Como explicou Zeferino Coelho à Blimunda, esse foi um dos pontos de partida para esta nova colecção: «Nós, Caminho, de há vários anos a esta parte, fazemos apenas literatura de língua portuguesa e não temos saído daí. Ora, isso é um bocado estreito. Não somos nós ou a língua que somos estreitos, a ideia é que é estreita, porque o mundo é muito grande e diverso! Então, invocámos uma tradição rica que a Caminho tem, que é a de publicar ficção traduzida, e tivemos essa colecção que foi um grande êxito, chamada Uma Terra Sem Amos, em que publicámos muitos livros. E interrogámo-nos: porque não ressuscitar essa tradição? Claro que o tempo passou, mas a ideia como a formulámos agora é a de dar a conhecer alguma coisa do que se faz naquela parte do mundo que fica a Sul, e daí o nome desta colecção, Cruzeiro do Sul. Vamos procurar aí coisas que possam ser pouco conhecidas ou desconhecidas entre os leitores portugueses, mas que são coisas de muita qualidade e que nós queremos revelar. A ideia essencial é esta. »
Essas outras geografias onde coisas interessantes estão – sempre estiveram – a acontecer incluem, portanto, os países do Sul, território de fronteira vasta e que inclui uma tremenda diversidade a todos os níveis, mas onde o editor da Caminho reconhece uma série de elementos relevantes: «Aí se passam muitas coisas que ficam para trás por causa desse domínio quase absoluto do anglo-saxónico, do europeu; parece que o resto não existe. Ora, isso não é verdade, está a acontecer muita coisa extremamente interessante na literatura desses países do Sul e é por esse caminho que queremos ir.» Um caminho guiado pela constelação que dá nome à colecção, esse conjunto de estrelas que é referência essencial para que ninguém se perca abaixo da linha do Equador.
A abrir este Cruzeiro do Sul, já chegaram às livrarias os dois primeiros títulos: Em Busca, do egípcio Naguib Mahfouz, com tradução de Estefânia Vicente Duarte, e Um Grão de Trigo, do queniano Ngũgĩ wa Thiong’o, traduzido por Francisco Agarez. Mahfouz já havia integrado a colecção Uma Terra Sem Amos com este mesmo título, há muito arredado das livrarias, pelo que o seu regresso se faz com a aura de “novidade” para boa parte dos leitores que se cingem à língua portuguesa (ou que preferem ler neste idioma).

Em Busca cruza a urgência de compreender a própria identidade com uma reflexão acidentada sobre a moral, as escolhas, a responsabilidade. A história do jovem Saber, contada com recurso abundante aos diálogos e à linguagem da oralidade, navega nessas águas ora turvas, ora agitadas, raras vezes límpidas, do percurso de uma vida e da dúvida permanente sobre o peso do livre arbítrio e o do acaso.

Curiosamente, também Um Grão de Trigo é atravessado por uma reflexão sobre a responsabilidade e as escolhas que vamos fazendo. Num cenário naturalmente muito diferente, o do Quénia nos momentos imediatamente anteriores e posteriores à sua independência, Ngũgĩ wa Thiong’o entrelaça vários episódios do quotidiano e da política, essas escolhas diárias sobre o modo como nos organizamos e vivemos, aqui ampliadas pelas escolhas – possíveis, primeiro, depois conquistadas – sobre como resistir a uma potência ocupante, colonizadora, com episódios que nos fazem mergulhar na consciência de alguns protagonistas, acompanhando os seus dilemas morais.
Sobre estes dois primeiros livros da colecção, o editor diz o seguinte: «O do [Nagib] Mahfouz, que foi prémio Nobel, é um livro extraordinário, onde lemos sobre a vida quotidiana de egípcios comuns, digamos assim, algo a que habitualmente não temos acesso. Um Grão de Trigo é um romance que trata o ambiente da luta dos quenianos pela independência, contra a ocupação inglesa, mas é também sobre a traição, e sobre a responsabilidade, portanto, é um livro extremamente rico.»
Próximos títulos
Quisemos saber por que caminhos se vai ampliar este Cruzeiro do Sul nos próximos tempos. O editor da Caminho confirmou que o título que se segue virá da Nigéria, já em Setembro ou Outubro: «Será Os Pescadores, do nigeriano Chigozie Obioma, com descrições riquíssimas dos ambientes locais e com uma auto-crítica muito forte… depois poderão ler. Na Primavera continuamos com mais dois ou três livros, portanto, as passadas que estamos a dar são cautelosas, porque queremos que isto funcione. Nessa altura, posso confirmar que sairá um livro de Tsitsi Dangarembga, escritora do Zimbabwe, intitulado Condições Nervosas.»
A ideia não é inundar o mercado com livros novos, mas ir construindo um catálogo de forma ponderada, permitindo que os leitores acompanhem a chegada dos vários títulos às livrarias. E se o que sabíamos até agora colocava o Cruzeiro do Sul muito centrado no continente africano, Zeferino Coelho confirmou que a geografia será muito mais ampla, mesmo que ainda não possa adiantar outros nomes e títulos: «Temos mais livros já planeados e em execução, mas vou ter de ser um bocadinho mais discreto. Ainda estamos a negociar direitos, mas posso dizer que vamos ter livros de escritores oriundos da Argélia, Irão, Sri Lanka, Congo, Marrocos, Paraguai, México, Argentina, Brasil, Martinica… são muitos países. Ao fim de dois anos ou três, vamos ter aqui um panorama muito rico.»
Quanto às traduções, elas serão feitas preferencialmente a partir do original. Ainda assim, o livro de Naguib Mahfouz que já está disponível teve tradução a partir da versão inglesa, e sobre isso Zeferino Coelho disse que «o que queremos é que os livros saiam com boas traduções, bem legíveis e fiéis ao original. Às vezes, há problemas difíceis de resolver e neste caso tivemos de optar por esta solução.» Diga-se que a opção teve um bom resultado, uma vez que a leitura da versão portuguesa é fluida e nela não faltam os aspectos particulares, os pequenos detalhes de tom e familiaridade que reconhecemos de outros livros de Nagib Mahfouz. Quanto ao romance de Ngũgĩ wa Thiong’o, foi originalmente escrito em inglês, e traduzido a partir do original, como acontece com vários livros que estão ou podem vir a estar na Cruzeiro do Sul: «Muitos destes livros que vamos publicar estão escritos originalmente em inglês, francês ou espanhol, o que torna as coisas mais fáceis. Mas temos aqui dois que estamos a tentar resolver o problema… um, do Sri Lanka, é escrito em tamil, e outro, do Irão, em persa, pelo que vamos ver se conseguimos ter tradutores que dominem estas duas línguas e que possam traduzir bem.»
Os leitores que os aguardem, então, vindos do Sri Lanka, do Irão e das múltiplas geografias que o Cruzeiro do Sul ilumina. A terra ainda não escorraçou os seus amos, mas o mundo continua vasto, capaz de existir longe dos radares de quem se julga seu dono e, sobretudo, de manter viva a sua imensa riqueza cultural, pese embora as vontades múltiplas de uniformização e terraplanagem mental que se vão espalhando como uma praga.