Saramaguiana
por Pilar del Río 5 Junho 2026
José Saramago é nomeado Doutor Honoris Causa pela Universidade de Brasília, em 2005 © Arquivo FJS

Democracia e Universidade
20 anos depois

Texto de Pilar del Río para a edição portuguesa de “Democracia e Universidade”, edição da U.Porto Press

Recuperar a intervenção de José Saramago na Universidade Complutense de Madrid, 20 anos depois, faz sentido: Universidade e Democracia são duas aspirações fundamentais para a sociedade ativa e consciente que queremos ser. Nenhuma sociedade poderá avançar sem o saber que emana da universidade, nem alcançará o grau de excelência sem a igualdade e a justiça que a democracia – governo do povo para o povo – exige, se é que não a reduzimos a um slogan desgastado. A sociedade vivificada precisa da universidade, altar-mor do conhecimento; a democracia promove o respeito e abre caminhos à sabedoria. Uma sem a outra seriam órgãos sem vida.

Assim pensava José Saramago, que respeitava a universidade – que nunca havia sido a sua casa – como se respeitam as melhores ideias ou os sonhos mais doces. Queria-a no centro da sua vida, por isso lia ensaios académicos, participava em congressos, assistia a conferências sobre temas nem sempre próximos, aceitava doutoramentos com a emoção da primeira vez, era feliz quando os estudantes o interpelavam com o fervor de quem enfrenta o mundo e as suas consequências. “Não perder tempo, não ter pressa”, repetia quando interpelado por um público académico. “Consciência, consciência, consciência”, insistia: “a razão e a consciência distinguem-nos dos outros seres vivos” – e acrescentava que as universidades são os campos de onde surgem os profissionais imprescindíveis e as ideias que aprofundam e alargam o humanismo, que nas universidades não há vitórias nem derrotas, apenas se abrem caminhos que podem ser infinitos.

Será assim para todos? Entra-se na universidade como se as faculdades fossem distribuidoras de diplomas para exercer profissões, ou pretende-se ensinar e aprender a arte de viver com conhecimento, responsabilidade e dignidade? A dignidade universal, conceito que abarca o tempo e as distâncias, que inclui todos os seres humanos, vivos e mortos, que nos permite levantar do chão ao mesmo tempo que o fertilizamos, para que seja uma acolhedora casa comum. Porque a universidade – as universidades – são sementeiras de decência, razão pela qual os ditadores do mundo as fecham ou lhes cortam o orçamento, como acontece atualmente nos Estados Unidos: um governo contra as instituições que fortaleceram a sociedade e que, por isso, fizeram o país grande.

Era Saramago um utópico por relacionar universidade com democracia? Era um sonhador? Posso dizer-vos que passear por claustros antigos o inquietava, ouvia discursos e conversas que as paredes de pedra lhe devolviam, sentia-se instalado num não-tempo que era todos os tempos, compreendia o grego clássico do pensamento e o inglês da alta tecnologia ao serviço da humanidade, escutava vozes históricas e jovens que falarão num futuro próximo – e que ele queria ouvir porque têm chaves que mais ninguém possui, mesmo que por vezes se sintam perdidos.

José Saramago respeitava tanto os jovens que seria errado terminar estas linhas sem o dizer: respeitava-os e confiava neles profundamente, por isso escreveu Ensaio sobre a Lucidez, onde homens e mulheres de pouca idade decidem, contra a verdade estabelecida, que a cegueira não seria o seu futuro.

Neste livro, a Universidade do Porto publica a conferência que José Saramago proferiu na Universidade Complutense de Madrid. Saramago aceitou o convite do Reitor Carlos Berzosa, avisando que improvisaria, pois escasseava-lhe o tempo e faltavam-lhe condições para escrever um ensaio à altura. Por isso, entrou na aula magna com perguntas nas mãos e um grande desejo de partilhar no coração. Foram momentos belos, de silêncios e interpelações, de respeito e de uma ambição desmedida: que a universidade ilumine, que seja a praça central da sociedade que somos, que todos ouçamos os cientistas que nos ajudam e os sábios que nos fazem crescer, que a universidade fale para os cidadãos e os seus representantes, que seja consciência cívica, que estimule o bem comum. É pedir muito? Saramago dizia que não dava nem pedia muito se podemos aspirar a tudo.

Tudo é o universo. E a responsabilidade de o cuidar e de nos cuidarmos.