O que vem à rede Sara Figueiredo Costa 22 Junho 2026
Mundial Argentina, 1978 @ Getty Images

Futebol e política em dias de Mundial
Muitos jogos só se vêem em canais pagos, os salários de boa parte dos atletas são obscenos para a maioria da humanidade e o negócio em torno do jogo tem muitas vezes as mãos manchadas, mas o futebol ainda é um desporto popular, por mais que tentem fazer dele outra coisa, e o campeonato do mundo, masculino – outra luta em curso – ainda é um momento unificador.

Em 1978, a Argentina organizava o campeonato do mundo de futebol masculino. Estava-se em plena ditadura, como nos conta o site Papelitos, que vale a pena recuperar agora que estamos outra vez em pleno campeonato do mundo, desta vez com a organização repartida entre os Estados Unidos da América, o Canadá e o México – e com gente detida por vir de países que o governo de um dos países organizadores não aprecia, com preços de bilhetes absolutamente proibitivos a confirmarem que este futebol há muito deixou de ser um desporto popular, com a polícia pronta para intervir ao mínimo sinal de desordem (sendo que desordem, no contexto norte-americano actual, pode ser uma bandeira da Palestina desfraldada na bancada):

«“¡Tiren papelitos, muchachos!”, arengaba Clemente, la caricatura de Caloi, desde la contratapa de Clarín. La invitación a festejar de ese modo, nacida en pleno Mundial de Fútbol 78, discutía con la propuesta que promovía la última dictadura y motorizaban los medios masivos: la de mostrarle al mundo lo educados que somos los argentinos. “Señor espectador: el país también juega en la tribuna”, advertía la dictadura a través de los diarios. Y Clemente respondía: “Hay que erradicar los papelitos por el Mundial ¿Qué va a ser de nosotros cuando termine el Mundial, se vaya el último turista y nos quedemos solos?” Cuarenta años atrás, Argentina organizó y ganó un mundial de fútbol mientras el país sucumbía bajo el terrorismo de Estado. Los festejos ganaron las calles a pesar del Estado de sitio. Las Madres se manifestaron cada jueves en la Plaza de Mayo ante la prensa extranjera. Los medios locales, en su mayoría, obviaban su reclamo. Los goles se gritaron en los centros clandestinos, donde los gritos de euforia se confundían con los alaridos de la tortura. La fiesta y el horror.»

Aqui se reúne um conjunto de histórias sobre esse mundial de 1978, confirmando que o futebol não se joga apenas entre as quatro linhas que demarcam o campo, nem sequer apenas no estádio, e que entre os negócios milionários, a corrupção o aproveitamento político também há espaços conquistados à solidariedade entre os povos, à luta por um mundo mais justo, à crítica. Passaram quase cinco décadas sobre o Mundial de 78, mas as histórias que aqui podem ler-se não perderam actualidade. Até porque os regimes políticos pouco recomendáveis que organizam provas desportivas para limpar a sua imagem não acabaram, os negócios pouco limpos em torno do futebol espectáculo também não e a ideia de política e futebol serem dois mundos à parte só faz sentido para quem prefere a creditar que a política é missão reservada a uns poucos escolhidos e não a todas as pessoas.

→ papelitos.com