Crítica Sara Figueiredo Costa 5 Junho 2026

A vida alucinante de Gilles Bertin

Trinta Anos a Monte – A minha vida punk
Gilles Bertin
Chili Com Carne/Thisco
Tradução de António Pedro Marques

Nos anos 90 do século passado, quem andava pelo centro de Lisboa ou usava a Linha de Sintra terá passado muitas vezes pela Torpedo, uma loja de discos situada no interior da estação de caminhos de ferro do Rossio, nessa altura, um mini-centro comercial. Quem gostava de música, sobretudo de música que fugia aos circuitos mais comerciais e amenos e se aventurava pelo rock mais pesado, pelo punk, pelos primeiros sons do grunge e outras experiências que iam despontando nessas décadas, não se limitava a passar à porta: entrava, ouvia, comprava discos quando tal era possível e, com sorte, discutia o conteúdo de alguns discos com o casal que conduzia a loja, Cecília e Gilles, também conhecido por Jim. É ele, Gilles Bertin, que assina este texto na primeira pessoa, uma longa e honesta digressão sobre as décadas mais intensas da sua vida entre França, Espanha e Portugal.

Quando o relato começa, Gilles é o vocalista da banda Camera Silens, um pequeno cometa que atravessou o punk francês cruzando concertos e ensaios com uma cena que, mais do que musical, era política, marginal, sempre a pisar a linha de uma certa ideia de honestidade – entendendo-se esta ideia como uma vida organizada em torno do trabalho, da família, das dívidas que seria necessário contrair para se aspirar a ser o proprietário respeitável de, pelo menos, uma casa e um carro –  e a estraçalhar essa fronteira entre copos, drogas, deambulações por lugares onde a honestidade era, claramente, outra coisa, menos conforme aos preceitos liberais, mas mais crua no que toca à possibilidade de sabermos com o que contamos. Entre concertos, discussões sobre os teóricos anarquistas e a validade do lema no future como forma de descrever o mundo naquela altura e essa “vida malvada” que Bertin e os companheiros levavam, surgiu a ideia de um assalto. Era um modo de arranjar dinheiro, claro, mas também de retirar à respeitável sociedade aquilo que ela mais prezava – valor material e serenidade de espírito, tudo de uma vez. Foi assim que, em 1998, a Brink de Toulouse foi assaltada e que Bertin e companhia saíram de lá com 12 milhões de francos (mais de 2 milhões de euros, se convertermos o valor). Cada um foi para seu lado e Gilles Bertin foi andando por diferentes lugares de Espanha, acabando por se mudar para Lisboa com Cecilia, sua companheira de então. Para trás ficou uma outra vida, mas também a identidade, os documentos, a possibilidade de circular sem estar sempre a olhar por cima do ombro… Bom pretexto para reflectir sobre liberdade e as suas múltiplas declinações, coisa que o texto também faz, por vezes à bruta, mas sempre de modo honesto.

Em Portugal, Bertin passa quase sempre despercebido (há apenas um episódio em que um cliente o reconhece, mas como ainda estávamos longe da internet e desta permanente identificação de tudo e todos, não houve consequências de maior). Entretanto, descobre que a epidemia do fim de século o apanhou e inicia os tratamentos então possíveis para a sida através do Serviço Nacional de Saúde português, que não quer saber se o homem tem documentos ou não, porque é o SNS, não é a polícia de fronteiras. Quem diria que um anarco-punk sem esperança no futuro haveria de fazer o elogio do SNS criado no contexto de uma revolução que inscreveu o socialismo na Constituição… A doença cobre o seu peso na decisão de Gilles regressar à França e entregar-se as autoridades, é verdade, bem como o envelhecimento, uma certa desilusão, o facto de já não pertencer à juventude enfurecida que procurava construir alguma coisa à margem dessa sociedade neo-liberal que se espalhava pela Europa e pelo mundo. De qualquer modo, o que verdadeiramente define a decisão de Gilles é o nascimento do seu filho, um dos vários momentos que marcam esta catadupa de acontecimentos que são os anos pós assalto. O nascimento e o crescimento desse filho, a constatação de que agora há um ser vivo que depende de Gilles, mesmo que este queira assumir que talvez dependa mais da mãe.

O arco narrativo de Trinta Anos a Monte é este, com o texto a começar com o regresso do autor a França, para se entregar às autoridades, e a recuar, depois, para tudo o que aconteceu nas décadas anteriores a esse momento. Ao texto de Gilles Bertin junta-se, nesta edição da Chili Com Carne (onde apenas se lamenta o pouco cuidado na revisão, que poderia ter poupado alguns deslizes linguísticos),  um conjunto de documentos visuais, sobretudo fotografias, e uma extraordinária narrativa de José Smith Vargas em banda desenhada que é uma homenagem merecida à Torpedo, mas também um modo de puxar a sua herança e as práticas de escuta, discussão e partilha que a rodeavam para o nosso presente comum. O tanto que atravessa este texto cruza o crescimento de um ser humano –  consciente de se ir formando na companhia de quem o rodeia, pelos afectos que escolhe, pelas lutas que trava, pelo que decide aprender e pelo que aprende quer queira quer não – com a história que se lhe atravessa no caminho, às vezes sob a forma de música, entre o neo-liberalismo abençoado por Margaret Thatcher que logo encontrou acólitos e os movimentos armados que pretendiam apanhar, sem sucesso, os estilhaços de utopias passadas. Este texto é também o retrato de vários últimos estertores, entre eles o de um tempo em que ainda seria possível escapar ao radar das autoridades e, ainda assim, atravessar fronteiras. Foi pouco antes de estarmos todos fichados, com as retinas fotografadas e devidamente inseridas nas bases de dados que fazem de todos os nossos passos possível objecto de interesse. Agora, aqui estamos, no futuro do no future, sem sabermos muito bem a quantas andamos. E, ainda assim, a ternura de um punk que foi ladrão, fugitivo e descrente na humanidade não deixa de nos comover e de apontar caminhos possíveis.

→ tigredepapel.pt