
Legitimar a violência policial
Uma reflexão sobre a carga policial que rematou a manifestação da Greve Geral e sobre a legitimidade da violência, os argumentos que a constroem e as solidariedades selectivas.
Na página onde partilha textos e reflexões várias, o dinamizador comunitário António Brito Guterres escreve sobre a violência policial que marcou o fim da manifestação da Greve Geral, no passado dia 3 de Junho. A carga sobre os manifestantes passou em vários telejornais, tendo alguns apresentado os acontecimentos como uma “necessidade” e outros mostrado as imagens sem uma sequência cronológica que fosse clara quanto ao que se passou. Entretanto, várias vítimas das agressões policiais decidiram apresentar queixa, uma vez que foram agredidas sem nenhum motivo, apenas porque estava, na rua e a polícia tinha decidido que a rua era para limpar: «Governos que nos querem matar à fome. Povo, nas suas múltiplas apropriações: trabalhadores, desempregados, filiados e não filiados, sindicalizados e/ou subversivos; jovens, adultos e ainda mais adultos. Serpenteia-se a Calçada do Combro, dando densidade às massas que desaguam em frente ao parlamento. Quando acabam os discursos e os sindicatos fecham formalmente a manifestação, metade dos manifestantes ainda nem conseguiu vislumbrar o parlamento. A estes, últimos, milhares, é-lhes oferecida uma orfandade organizacional que permite às forças policiais ter uma liberdade de acção mais abstracta – até porque a manifestação já acabou mesmo que não se tenha acabado o percurso. Mas pior, retira o poder a milhares de pessoas: esfomeadas, revoltadas, precarizadas de fazer a sua encenação política, catarse e protesto junto à representação legislativa.
É aí que tem entrado a polícia, para limpar o largo do parlamento “libertando a circulação” e terminando com aquele convívio de “rufias”: o cota que ainda quer mandar uns impropérios em direcção ao parlamento, os militantes de vários grupos que ensaiam outras palavras de ordem, jovens que se acabaram de conhecer e partilham uma cerveja sentados no chão, os adolescentes que cantam em redor de uma coluna e os sozinhos, que não têm grupo mas sabem que têm de estar ali. Sim, é nesse momento que para o comandante operacional da PSP a manifestação tornou-se “violenta” que foram “encurralados e obrigados a”. A violência na verdade não é mais que a ocupação do espaço por pessoas não institucionalizadas – em especial em frente ao parlamento. Desafio-vos a a ver as imagens, de forma cronológica e sem os relatos da tv.»
Na resposta à carga policial, os responsáveis pela convocatória da manifestação que acompanhou a greve descartaram qualquer responsabilidade e, com isso, qualquer solidariedade e qualquer questionamento sobre por que motivo a polícia agride pessoas que estão na rua: «Os organizadores acotovelam-se para informar que o que se passou já não é da sua responsabilidade – foi pós-manifestação – e que o desfile organizado foi mais uma prova ordeira da força dos trabalhadores. (E os que ficaram são o quê?) Os partidos de esquerda ficam muito chateados porque as acções de uns poucos vândalos fez a acão da direita boicotando mediaticamente a greve geral (sim, como se houvesse uma cobertura digna da mesma e fossem estes media a fazerem-no). Uns e outros, pelo meio, ainda inventam movimentos extremistas não existentes. Alguns dos de cima, ainda aplaudem a acção da polícia, e até torcem pelo sofrimento dos detidos: ninguém lhes mandou estarem doentes de “esquerdismo ou algo que o valha”.»