
M como o mar
Joanna Concejo
Orfeu Negro
Tradução de Ana Maria Pereirinha
M é um rapaz que está na praia, a observar o mar. Reflete, recorda, sente, questiona. O parco discurso que profere carrega angústia, nostalgia, espanto, alegria. Eventualmente, as dores de crescimento que revelam raivas contidas, evocam memórias de infância, denunciam conflitos com a mãe. E procuram outros que sejam descoberta ou espelho. A voz de M só convoca a sua subjetividade, pelo que não há espaço para contexto. A ilustração, que compõe a quase totalidade do álbum, adensa este silêncio narrativo e destaca um sentido poético que integra a personagem no espaço da praia e do mar.
Recorrendo ao grafite e ao lápis de cor, como é característico do seu trabalho, a polaca Joanna Concejo apresenta o mar na sua imensidão, em tons diversos. Intercala estes planos com molduras que remetem para fotografias nas quais se percorre um tempo outro, o da infância. Há igualmente elementos marítimos, como conchas, pedras, peixes, corais. E o movimento de M, nas fotografias e na praia. Quase no final, apresenta-se o que poderia ser uma cidade construída a partir do que existe no mar e na praia: corais, pedras, conchas, areia, paus e algas, é o pequeno dinossauro cor de laranja que M ali deixará enterrado, num passeio com o avô, quando ainda era uma criança.
Da observação da natureza nasce um universo onírico em que o tempo e o espaço se tornam fluídos, e em que o sentido do álbum se assume claramente sensorial e poético. M funde-se com o espaço, numa experiência de evasão, descoberta e reconhecimento.
Não se trata de um livro cujo leitor ideal seja uma criança. Trata-se de um álbum para todas as idades, que requer uma leitura contemplativa.