
Escutar as vítimas, questionar o poder
Os casos de violência policial na esquadra de polícia do Rato, em Lisboa, ainda em investigação, sublinham a importância do debate sobre a violência policial, as regras e os limites do poder em democracia e o monopólio da violência.
Em Maio passado, os jornais noticiaram uma investigação policial em torno de um grupo de agentes da Polícia de Segurança Pública de Lisboa que, na Esquadra do Rato, agrediam imigrantes, pessoas toxicodependentes, pessoas sem-abrigo. Os relatos de cenas de violência eram aterradores, os factos que entretanto se apuraram também e a investigação continua a decorrer – soube-se, entretanto, que mais provas poderiam ter sido recolhidas se os agentes alegadamente envolvidos não tivessem sido avisados de que iriam acontecer buscas na esquadra por um outro agente, entretanto sujeito a um processo disciplinar.
Depois do impacto das primeiras notícias, o tema esfriou nas manchetes jornalísticas. Aguardam-se os resultados da investigação e as necessárias consequências. No site do Fumaça, o podcast de jornalismo de investigação, há uma entrevista com uma das pessoas agredidas – e também testemunha de outras agressões – que, naturalmente, utiliza um nome que não é o seu. Youssef fala do que lhe aconteceu, do modo como foi agredido, torturado e abusado de várias maneiras, deixando exposta esta imensa fractura no contrato social de que a democracia não poderia prescindir. A entrevista é dura, muito dura, mas importa que seja escutada (ou lida, uma vez que ambas as opções estão disponíveis), para que casos de violência policial como estes não continuem a alimentar uma estrutura quotidiana de relação entre cidadãos e poder. Um excerto: