O que vem à rede Sara Figueiredo Costa 1 Julho 2026
© Fumaça

Escutar as vítimas, questionar o poder
Os casos de violência policial na esquadra de polícia do Rato, em Lisboa, ainda em investigação, sublinham a importância do debate sobre a violência policial, as regras e os limites do poder em democracia e o monopólio da violência.

Em Maio passado, os jornais noticiaram uma investigação policial em torno de um grupo de agentes da Polícia de Segurança Pública de Lisboa que, na Esquadra do Rato, agrediam imigrantes, pessoas toxicodependentes, pessoas sem-abrigo. Os relatos de cenas de violência eram aterradores, os factos que entretanto se apuraram também e a investigação continua a decorrer – soube-se, entretanto, que mais provas poderiam ter sido recolhidas se os agentes alegadamente envolvidos não tivessem sido avisados de que iriam acontecer buscas na esquadra por um outro agente, entretanto sujeito a um processo disciplinar.

Depois do impacto das primeiras notícias, o tema esfriou nas manchetes jornalísticas. Aguardam-se os resultados da investigação e as necessárias consequências. No site do Fumaça, o podcast de jornalismo de investigação, há uma entrevista com uma das pessoas agredidas – e também testemunha de outras agressões – que, naturalmente, utiliza um nome que não é o seu. Youssef fala do que lhe aconteceu, do modo como foi agredido, torturado e abusado de várias maneiras, deixando exposta esta imensa fractura no contrato social de que a democracia não poderia prescindir. A entrevista é dura, muito dura, mas importa que seja escutada (ou lida, uma vez que ambas as opções estão disponíveis), para que casos de violência policial como estes não continuem a alimentar uma estrutura quotidiana de relação entre cidadãos e poder. Um excerto:

«Youssef: Quando saímos do sítio, vimos um grupo de pessoas vestidas à civil. Estavam a bater em alguém. Eram umas cinco ou seis pessoas, a bater num homem de aparência africana. O meu amigo perguntou-me: “O que é que se está a passar? O que está a acontecer?” Eu disse: “Isto não é nada connosco. Não percebo, mas não quero de todo envolver-nos.” Ele achou ok. Nós tínhamos que contorná-los para seguir caminho — era a única passagem possível. Aí, um virou-se ao meu amigo e empurrou-o com muita força. O meu amigo quase caiu. Não percebeu o que é que estava a acontecer, levantou-se e ia na direção do homem para lhe perguntar o que se estava a passar. Nisto, eu vi que um deles tinha um rádio walkie-talkie, e outro tinha uma arma. Percebi imediatamente que eram polícias à paisana. […] Apanhei o meu amigo antes que ele fizesse alguma coisa. Disse-lhe ao ouvido: “É a polícia.” […] Quando o agarrei, já estavam em cima de nós — dois em cima dele, e três em mim. Ajoelhados nas nossas cabeças. Tiraram-nos as mochilas e os óculos. Encostaram-nos à parede. Algemaram-nos. Nós dizíamos: “Não estamos a resistir. Não sabíamos que eram polícias. Somos contra a violência. Estávamos só a regressar a casa”. Coisas desse género, mas eles não ouviam rigorosamente nada. Não queriam ouvir. […] Colocaram-me num carro da polícia, sentado atrás, com o homem de aparência africana. O meu amigo seguiu noutro. E fomos levados para a esquadra do Rato.»

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