Crítica Sara Figueiredo Costa 28 Abril 2026

No Coração da Tempestade

O Vento que Arrasa
Selva Almada
Dom Quixote
Tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra

Da América Latina têm chegado, nos últimos anos, largas mãos cheias de escritoras cujos livros parecem alimentar entre si um diálogo subterrâneo. Os temas e o modo de os abordar não é semelhante, nem as vozes que cada uma delas vai construindo se confundem, mas parece haver uma certa crueza no modo de olhar e registar, uma disponibilidade para continuar a construir alguma coisa mesmo assumindo que tudo parece perto da derrocada – cenários, sim, países, mas também as relações afectivas, as memórias, o mundo. Selva Almada é uma dessas escritoras, oriunda da Argentina, e este O Vento Que Arrasa é o seu primeiro romance, originalmente publicado em 2012 e agora traduzido por Cristina Rodriguez e Artur Guerra para a Dom Quixote.

O texto que assoma nas primeiras páginas é uma espécie de road movie romanesco, com um pregador e a sua jovem filha a bordo de um carro demasiado velho para tantos quilómetros percorridos, mas a sua evolução acabará por levar a prosa para outros modos narrativos. Antes disso, é a viagem que se impõe, retratando estas duas personagens e os equívocos que as vão unindo num núcleo familiar: «(…) ela não tinha paraísos perdidos aonde voltar. Havia deixado há muito pouco tempo a infância, mas a sua memória estava vazia. Graças ao pai, o Reverendo Pearson, e à sua missão bendita, as recordações que ela tinha eram o interior daquele mesmo carro, os quartos miseráveis de centenas de hotéis todos iguais, o rosto de dezenas de crianças com quem não chegava a conviver o tempo suficiente para ter saudades delas ao partir, uma mãe cuja cara quase não recordava.» (pg.15)

Mais do que a viagem que abre e depois fechará livro, O Vento Que Arrasa é a história de uma mudança, aquele pequeníssimo momento em que o mundo que conhecemos se desmorona para sempre, ainda que seja para se reconstruir de outro modo, revelando, agora uma configuração onde tudo o que anteriormente parecia imutável é outra coisa. É isso que acontece nesta narrativa, com a passagem do reverendo e da sua filha por uma oficina de mecânica perdida no meio de uma árida paisagem do interior argentino, na região do Chaco. Boa parte da narrativa centra-se nessa paragem forçada, motivada por uma avaria no velho carro. Na oficina, junto a uma bomba de gasolina desactivada, entram em cena Gringo Brauer, o mecânico e dono da oficina, e Tapioca, seu ajudante, que se revelará algo mais ao longo do texto. São estas quatro personagens o coração da narrativa, elas e a paisagem, duríssima, seca, mesmo que visitada pontualmente por chuvadas bíblicas que, ainda assim, não chegam a encharcar a terra.

O mundo do mecânico e do seu ajudante serão sacudidos pela chegada dos visitantes e também o mundo do reverendo e da sua filha mudarão profundamente com esta paragem imprevista que forçará diálogos e criará pontes improváveis, umas vezes a partir do conflito entre fé e razão, outras a partir da genuína vontade de chegar até ao outro. Essa mudança é corporizada por uma enorme tempestade, que obrigará as quatro personagens a um recolhimento forçado nas modestas instalações do mecânico, mas de um certo modo a chuvada que se abate sobre aquele lugar é uma espécie de prodígio que vem confirmar o que a narrativa havia burilado com mestria, uma ameaça latente, um suspense que anunciava mudanças, ora porque a jovem filha do reverendo e o jovem ajudante do mecânico enfrentavam essa idade em que o corpo passa a ser domínio selvagem, revelando-se a sua indivisibilidade relativamente ao que chamamos mente, ora porque os segredos que se guardam por décadas criam demasiada pressão para que possam manter-se ocultos ou funcionais na sua missão de manter o mundo inalterado. É nesta permanente aproximação do abismo que se joga a linguagem com que Selva Almada constrói a sua narrativa, uma sequência onde um mínimo de acção revela várias vidas, vários conflitos, uma sucessão de não-ditos e de equívocos e uma série de desejos pouco claros e dificilmente verbalizáveis que apontam na direcção da fuga, da mudança, da partida sem olhar para trás. O Vento Que Arrasa tem muito de road movie, sim, mas é sobretudo uma suspensão do tempo e da deslocação, um mergulho no vórtice que pode engolir uma vida assente em segredos e silêncios e a confirmação de que as tempestades são, por vezes, bem-vindas.

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