Destaque Carlos Reis

Cadernos do Centenário

José Saramago: os primeiros cem anos (1922-2022)

A partir deste mês e até ao final das celebrações do Centenário de José Saramago, a Blimunda terá uma secção especial dedicada ao assunto. Estreia este espaço o Comissário para o Centenário, Carlos Reis, num texto sobre o trabalho que está a ser desenvolvido por ele e pela Fundação como preparação para as comemorações dos cem anos de Saramago. 

Assinala-se a 16 de novembro de 2022 o centenário do nascimento de José Saramago. Tal como em circunstâncias semelhantes acontece com outros grandes vultos, esta será uma oportunidade privilegiada para a consolidação da presença do escritor na história cultural e literária, em Portugal e no estrangeiro, ao mesmo tempo que será prestada homenagem à sua figura como cidadão.

O que fica dito não foge ao que é usual afirmar-se a propósito de qualquer personalidade destacada, logo que está em causa uma efeméride. Foi a isso que pudemos assistir, quando, em Espanha e recentemente, ocorreu o centenário da morte de Benito Pérez Galdós ou quando, em Portugal, passaram os duzentos anos do nascimento de Almeida Garrett (em 1999) ou os cem anos da morte de Eça de Queirós (em 2000).

Sendo assim, vale a pena perguntar: para que serve, de facto, a celebração de uma efeméride e que legitimidade reconhecemos nesse gesto? Com alguma frequência, o discurso da efeméride encerra uma dimensão apologética que, se for dominante, corre o risco de produzir resultados inversos do que se deseja. Ou seja: ao ser imposto de forma agressiva, o legado de um escritor (fixo-me no campo literário) pode induzir atitudes de rejeição ou, pelo menos, de algum fastio perante aquilo – textos, imagens, episódios biográficos, etc. – que é trazido à cena cultural, como património de uma existência literária. No termo desse processo está a institucionalização do escritor, no sentido mais conservador da expressão, lembrando aquela síndrome da “literatura oficial” de que Antero de Quental falou, no célebre folheto Bom Senso e Bom Gosto.

Não é isso que se pretende, quando comemoramos José Saramago, a propósito do centenário do seu nascimento. Convém sublinhar o sentido primordial de comemorar: lembrar em conjunto, pondo em comum a memória de alguém. A partir desta aceção primeira e tendo presente o que ela significa, um centenário pode e deve ser muitas coisas, sempre ajustadas aos grandes sentidos que atravessam a obra de quem é evocado: lembrança festiva e tempo de reflexão, renovação de uma mensagem e afirmação da sua atualidade, debate de ideias e reinterpretação da literatura, noutras artes e linguagens. Por exemplo, no cinema, no teatro, na música, na dança, na banda desenhada ou na pintura.

Tudo isso e antes de mais o que é fundamental: a leitura. Na escola ou nas reuniões académicas, na simples fruição privada ou no ensaio interpretativo, na intimidade ou no espaço público, em regime individual ou em grupo, é através da leitura e da releitura que verdadeiramente se consegue que um escritor, ao mesmo tempo, permaneça e se renove; que seja a figura relevante que já conhecemos e também um outro que vamos descobrindo, para agora e sobretudo para o futuro. Como quem diz: por forma a que ele seja celebrado, de novo, dentro de cem anos.

O centenário de José Saramago motivará, por certo, a revisitação de uma atividade literária e cívica que marcou a cena nacional e internacional durante décadas. A par disso, o centenário de Saramago permitirá reafirmar um pensamento social, político e ético com ressonâncias audíveis no nosso presente e para além dele. Para isso contribuiu a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, em 1998, sendo certo, contudo, que não foi esse o início da projeção nacional e internacional de Saramago, mas tão-só a sua confirmação como “escritor do mundo”.

Os princípios que ficaram referidos serão impulso e justificação para a celebração do centenário de José Saramago, convocando entidades muito diversas, em Portugal e noutras partes do mundo. A Fundação José Saramago assumirá, nesse contexto, um papel central, respeitando, contudo, a autonomia dos atores e das instituições que venham a dar contributos próprios ao centenário. Para isso, está neste momento a ser preparado um programa que se propõe assinalar a efeméride, com incidência em quatro grandes eixos: o eixo da biografia, tendo em vista o trajeto biográfico, formativo e cívico de José Saramago, em relação com a sua produção literária; o eixo da leitura,  em escolas, em bibliotecas ou em reuniões académicas, bem como no debate sobre o pensamento de  Saramago, com ligação à Carta dos Deveres e das Obrigações dos Seres Humanos; o eixo das  publicações, em reedições da obra saramaguiana, mas também  em publicações evocativas, de divulgação, de extensão transliterária ou provindas de trabalhos de investigação;  o eixo das reuniões científicas, por ser  José Saramago um escritor com forte presença na academia, em Portugal e no estrangeiro, no quadro de uma “geografia” muito ampla e diversificada.

Repete-se: o centenário saramaguiano não será um exclusivo da Fundação José Saramago. O papel central que, na sua conceção e execução, ela certamente desempenhará há de ser complementado por outros atores e entidades públicas e privadas, eventualmente em regime de parceria com a Fundação José Saramago. Em tempos difíceis como os que vivemos, a leitura e a releitura de José Saramago, o estudo e a divulgação da sua obra são respostas ao imperativo cultural e cívico de lembrar um grande escritor, mas são igualmente a reafirmação de que os seus textos muito dizem e dirão acerca da nossa condição humana e do mundo imperfeito que ela habita.

É disso que se trata, nas páginas dos livros de José Saramago, sempre que nelas reencontramos aquilo que nos fascina e desafia: a união cúmplice de Baltasar e de Blimunda; o sofrimento que custa a construção de um convento ou a travessia de uma cidade reduzida à cegueira; o amor de uma mulher chamada Maria Madalena; a violência a que resiste a família Mau-Tempo; os diálogos de um poeta morto com a sua criatura reaparecida; a deriva de uma jangada de pedra em busca de um mundo novo. Com José Saramago, um dia talvez cheguemos lá; e teremos memória dele, pelo menos, por mais cem anos.

Carlos Reis
Comissário para o Centenário de José Saramago