Saramaguiana
por António Costa Santos
Em Abril de 1981, algumas semanas depois da publicação de Viagem a Portugal, o Círculo de Leitores organizou uma viagem para que jornalistas e editores percorressem alguns dos lugares retratados por José Saramago no livro. E foi ele, o próprio autor, quem guiou o grupo por três dias. Nesta edição, a Blimunda recupera um texto do extinto O Diário, assinado por António Costa Santos, em que o jornalista conta sobre a experiência de ser guiado por um escritor para dentro do seu livro.

Percorrer Viagem a Portugal na companhia de José Saramago

Ao fim da tarde de 25 de Abril, o viajante Saramago iniciou, com cerca de trinta jornalistas e os editores, uma viagem de rotina, isto é, por caminhos já trilhados ou sabidos, mas não rotineira, porque, como diz o escritor, «nenhuma viagem é definitiva». «O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre».

MARIALVA, A VELHA

São oito os lugares propostos aos jornalistas pelo viajante Saramago e só um tem nome fácil, daqueles que se aprendem na escola e nos catálogos das agências de viagens – Belmonte. Os outros – Sortelha, Linhares, Cidadelhe, Álvaro, Oleiros, Marialva e Castelo Novo – são difíceis para viajantes que só conhecem de Portugal três torres (de Belém, da Cabra e dos Clérigos), dois mosteiros (da Batalha e dos Jerónimos), roteiros deste género.

Em Marialva, por exemplo, velha aldeia dotada de um castelo de «atmosfera perfeita», como escreve Saramago, o mais habitado de invisíveis presenças, o lugar bruxo, para dizer tudo em duas palavras, o jornalista fascina-se com os restos das casas, o tribunal, a cadeia, o largo da cisterna e do pelourinho, as sombras e as luzes, as ervas que muito pouca gente pisa entre as pedras, as ruas.

Dentro das muralhas é o fascínio. Mais tarde, na vila que rebola pelas encostas exteriores ao castelo, é a vez do espanto. Na porta da taberna onde bebemos uma ginjinha, um anúncio manuscrito convida os habitantes de Marialva a inscreverem-se numa excursão organizada por um homem de Longroiva.

Seiscentos escudos pagará quem quiser percorrer, nos próximos 12 e 13 de Maio, o itinerário estabelecido: Meda, Mangualde, Luso, Figueira, Batalha, Grutas, Fátima, Leiria, Mêda. Porque não visitarão os excursionistas Cidadelhe, ali tão perto? A proprietária da tendinha não sabe e diz que talvez falando com o senhor de Longroiva o mistério se resolva…

Só que não há tempo nem razão maior que nos faça lá ir, Marialva é a penúltima paragem do programa estabelecido por José Saramago e a última desse dia. Voltaríamos à Guarda para ver nevar, jantar e dormir, e já vínhamos de Belmonte, de Sortelha e Cidadelhe. No dia seguinte, o motorista Vinagre levar-nos-ia a Linhares, última escala, e daí para o Sul, com uma condução tão segura, tão precisa, tão hábil que o jornalista até pensou: «se tivesse amigos na NASA, recomendava o Vinagre para o Vai-Vem»,

Marialva está no vértice superior de um triângulo cuja base é limitada por Trancoso e Pinhel. Veja-se o mapa. Cidadelhe fica a nordeste, a caminho da Vila Nova de Foz Côa, 25 quilómetros depois de Pinhel.

BRIOS DE CIDADELHE

Como guia, os jornalistas tiveram nesta terra, além de José Saramago, José António Guerra, chefe de mesa num hotel da Guarda, natural da localidade. Fora também ele quem, na viagem primordial do escritor, mostrara a Saramago o Cidadão, o S. Sebastião, as pinturas do tecto da igreja matriz e o Pálio de 1707, religiosamente guardado em local só conhecido de três mulheres da aldeia.

O grande pano de veludo carmim, bordado a seda e ouro, «que nenhumas palavras podem descrever», é a glória da terra e as gentes de Cidadelhe ouviram dizer que os roubos de obras de arte assim tão belas são vulgares.

Outros brios tem o povo de Cidadelhe, a saber: o patrono laico da aldeia, chamado de «O Cidadão» (uma figura humana sem braços nem rosto, esculpida em alto-relevo numa pedra, encontrada há anos sem conta, na beira de um riacho); o bom queijo e requeijão que se oferece aos visitantes («pão com olhos, queijo sem olhos, vinho que salte aos olhos», segundo o ditado que Guerra conta a Saramago);e marcar as ovelhas na pele com tinta de anilina.

Os jornalistas assistiram, por acaso, à tosquia de um rebanho por mãos experientes que cortavam a lã sem ferir os animais. Horas depois, os ovinos passaram por trás da escola e ostentavam no lombo cor-de-rosa marcas vermelhas, faixas e rodelas pintadas. Pensou o jornalista, pela cor vermelha das primeiras marcas que viu: «mercurocromo». Cedo se desenganou, porém, ao ver as pinturas de guerra, em verde e azul, foi um habitante da Cidadelhe que lhe disse: «Pintam as ovelhas para se distinguirem depois de tosquiadas», Logo um outro contrariou aquele, acrescentando: «Um pastor bom distingue as suas ovelhas com lã ou sem lã… É mais um brio».

O orgulho dos cidadãos de Cidadelhe vai também para a sua igreja matriz que ajudaram a reconstruir em 1934, desviando para as obras de «alto a baixo» que o templo sofreu, o dinheiro que não gastaram a tapar frestas e brechas das paredes das casas todas feitas de pedra bruta.

O tecto da igreja, a precisar de restauro, tem pintada em caixotões uma imensa colecção de retratos de santos, elaborados por artista anónimo do Século XVIII. Outra obra de arte anónima encontra-se na Ermida de São Sebastião: é a figura do santo padroeiro, singular pelas orelhas de abano e pelo sorriso que exibe apesar das setas que lhe ferem o coração, o braço esquerdo e as pernas. Com as mãos atrás das costas, a perna esquerda ligeiramente flectida, o pé avançado, este São Sebastião das Orelhas Grandes», como Saramago lhe chamou no seu livro, parece posar para as máquinas fotográficas dos amigos fiéis.

MORDOMAS DO SANTINHO

«Grande é o poder da fé, se diante deste santo, em verdade patusco, o crente consegue conservar a seriedade» – diz o escritor em Viagem a Portugal.

Já antes de Cidadelhe, na Sortelha, à beira da Serra da Malcata, a dos linces, ainda no distrito da Guarda, os jornalistas toparam com uma manifestação religiosa assaz curiosa.

Muralhas enormes e espessas, ruas muito inclinadas, tão depressa escorregadias como difíceis de vencer, transportam-nos, em Sortelha, à Idade Média. Disso estavam os jornalistas avisados pela prévia leitura em viagem da Viagem a Portugal, José Saramago conta a imponência das muralhas que cercam o aglomerado e informa ir encontrar o viajante, «empoleirado sobre pedras gigantescas, a cidadela, último refúgio de sitiados», «castelinho que parece de brincar», se o compararmos com as «ciclópicas muralhas de fora».

De tudo isso fala o livro do viajante José Saramago e para o jornalista só foram surpresa os nomes das ruas. Saído da camioneta no último largo amplo da aldeia, a placa toponímica indica-lhe que está no Largo de S. Genésio, nome que lhe soa bem. Depois, as placas começam a brincar com quem as lê: a rua direita é «Rua Direita»; o caminho novo é «Rua do Caminho Novo»; a rua sem saída chama-se «Rua Sem Saída» e o largo da igreja é «Largo da Igreja». Uma toponímia realmente simples.

É neste último largo, o da Igreja, que o presente inesperado surge. Já se tinha comentado que, apesar de ser segunda-feira, toda a população se encontrava vestida de domingo, mas quem esperava que os viajantes chegariam a Sortelha no dia e à hora da sua procissão anual?!

Há vários andores, mas dois são transportados apenas por raparigas, enquanto que os outros seguem aos ombros de homens que se revezam. Feita a pergunta, sabe-se o «porquê»; «as meninas que levam o andor são as mordomas do santinho. Fizeram as quatro uma promessa durante o ano. Só quatro é que podem prometer, porque para se pagar a promessa é preciso levar o andor durante toda a procissão, sem arrear». Largo da Igreja, Rua Direita, Largo de S. Genésio…

BÊVOLUNTE BELMONTE

Os nomes das ruas de Sortelha estão directamente ligados às designações que o povo lhes atribui e que a Junta de Freguesia passou a escrito em pedra branca. As placas toponímicas de Belmonte, que visitámos no início do dia, são de lata, pouco bonitas, felizmente provisórias, garantem-nos, a aguardar substituição.

A terra de Pedro Álvares Cabral pode dar-se ao luxo de ter placas feias, como a que indica «Pr. dos B. Volunt.». Visite-se o castelo, visite-se a Igreja Matriz e as placas de lata serão quase esquecidas perante os locais onde Pedro Álvares terá brincado e a Pietá («guarde-a bem nos olhos e na memória, porque obras assim não as vê todos os dias»). E quando o viajante tem a sorte de ter como cicerone Alexandrina Campos Saraiva, guardadora das chaves dos monumentos, mulher idosa, muito bonita, que aponta as maravilhas descrevendo-as maravilhada e maravilhosamente; quando o viajante tem essa sorte esquece completamente o brilho metálico das placas que estraga nomes bonitos como o da Travessa do Forno do Gás, a celebrar o primeiro do seu género na vila de Pedro Álvares. A propósito de nomes: Alexandrina Campos Saraiva trata o homem que desembarcou em 1500 no Brasil de duas formas. Na cantilena do Castelo e da Igreja chama-lhe Pedr’Álvares. Quando o jornalista lhe pergunta a idade possível de um varandim, a guardadora de chaves responde-lhe: «Sou velha, mas não sou do tempo do Pedro». Cabral, «o Pedro», é um amigo, uma espécie de avô que não se chegou a conhecer mas de quem se sabem os feitos, as histórias transmitidas pela família.

HERÓIS DA TERRA

Américo não descobriu o Brasil para os europeus, mas é um herói para os seus que moram em Álvaro, aldeia à beira do Zêzere, à qual só se chega pelo lado de Oleiros; não sabem dizer o seu apelido aqueles dois velhos que falam com o jornalista.

«Estamos a construir aquela ponte» – apontam para dois pilares de betão, em cada margem do rio. «Faz muita falta, porque não há passagem para a Pampilhosa sem dar a volta à serra. Há um rapaz daqui que mora em Lisboa e tem ajudado muito. Como está lá, mexe-se melhor, é muito amigo da sua terra» – dizem os velhos com gratidão, já sem coragem, eles, para se mexerem em Lisboa. «Chama-se Américo, não sei se conhece…» – acrescentam, esperançados. Um Américo de Álvaro em Lisboa? O jornalista gostaria de conhecer esse herói, mas não lhe fornecem mais pormenores.

Pormenores também não dá a placa que no largo principal de Linhares diz em versos de pé quebrado: «Pela dedicação e tantos benefícios, Linhares agradece. A quem lá da América, A Terra Natal não esquece». Seria preciso falar longamente com Conceição Mimoso, uma jovem de 70 anos, que aos 63 emigrou para os Estados Unidos, «só para estar um tempo ao pé do filho». E regressou porque estava cansada de «viver feita fidalga». Os amigos de cá escreviam-lhe a dizer: «Vinde embora! Quem o Senhor não vê, o Diabo o leva».

Linhares, abaixo de Celorico da Beira, no mesmo paralelo da Guarda, foi a última paragem estabelecida no roteiro pelo viajante José Saramago. Ali, recordou o escritor, foram filmadas algumas cenas de «Manhã Submersa».

Dois locais ficaram para o fim do texto, mas não por razões especiais: Oleiros, entre a Serra de Alvelos e a Serra Vermelha, do qual se deve visitar a Igreja Matriz e a Misericórdia; e Castelo Novo, entre Alcains e o Fundão, «uma das mais comovedoras lembranças do viajante» Saramago, aldeia de pedra e pedra, onde todas as casas são harmoniosas, onde as ruas íngremes são atravessadas por um ribeirinho de vinte centímetros de largura e dois de profundidade que une a povoação, e onde todas as pessoas sorriem aos viajantes.

Em Castelo Novo, para abreviar, existe uma lagariça, tanque pouco profundo, «concha aberta a picão na rocha viva», onde em tempos muito antigos se pisava a uva. Ao centro da lagariça há um ralo com a sua utilidade: permitia escoar o sumo de uva para uma pia inferior, também ela escavada na base do barroco (como chamam nesta zona às descomunais pedras que mobilam a paisagem).

Em Oleiros, para abreviar, celebrava-se a missa de domingo de Pascoela e a igreja estava cheia de crentes e convidados para os baptizados tradicionais do dia. Em Oleiros não há cerimónia: um cão com guizos na coleira repousa dentro da igreja, embora não tenha alma; os chapéus dos homens, à falta de bengaleiro, penduram-se nas saliências das colunas do templo; e há uma taberna, que vende vinho e carvão, chamada de «Bar Santa Isabel».

Se há outra taberna assim no país, o jornalista não conhece, mas, tal como Saramago, acredita que sim: «ainda vem longe o dia em que saibamos tudo o que temos».

Direitos Reservados