Casa da Andrea Andréa Zamorano 29 Abril 2026
© Barbara Bugess

Uma mera quarta-feira

            A morte rondou-o desde a infância. Ele foi enganando a maldita.

            Às vezes se escondia atrás do tanque, no quintal da casa da vovó. Outras  desviava-se correndo o mais rápido até entrar e se encolher entre a quina da parede e a poltrona.

            Um dia, era rapazinho, estava deitado no seu quarto à noite e viu uma mão, que nunca tinha visto antes pela casa, se esgueirar pela fresta entreaberta e desligar o interruptor ao lado da porta. A luz se apagou. Acreditou que aquela seria a sua derradeira noite. Ela decidiu poupá-lo ou então não o viu tão encolhido estava debaixo das cobertas. Nunca mais dormiu sem tapar a cabeça por medo de que ela o encontrasse.

            Ela o perseguia. Já ele andava pelas madrugadas dirigindo o táxi, tal e qual o seu pai conduzira antes (também fugindo da desdita) e certa ocasião dois homens entraram. Disseram o destino e ele se encaminhou para a rota. Uma bruma fininha, fria, escorregou vindo da parte de trás, dos passageiros, por baixo do banco e foi se enroscando pelas suas canelas. Ele procurava um itinerário mais curto. Pressentia a chegada dela. O frio foi indo pelas suas pernas acima até se materializar na ponta do cano gelado de uma arma encostada no seu pescoço.

            Eles obrigaram-no a continuar em frente entre gritos, ameaças e o frio até um ermo. Lá do alto, viu a cidade iluminada, as casinhas com as suas luzes amarelas amontoadas. Convenceu-se de novo que aquela seria a sua última visão, a sua última noite. Puseram-no de joelhos. Ele implorou em nome dos filhos pequenos, da esposa, pela sua mãe, pelo trabalho, pela sua vida. E tanto suplicou que ao cabo de umas horas, ela se cansou. Pensou que a tivesse convencido com os seus argumentos de que a sua hora não houvera chegado. Só levara o pai aos quarenta e sete e o combinado era que ele não iria antes.

            Mas ela parecia ter gosto nessas tentativas de antecipação.

            A morte é estranhamente sádica. Se pensarmos bem, ninguém precisaria sofrer numa cama de hospital com uma doença terminal por meses, ou mendigar até se esvair de inanição numa calçada da cidade, ou cortar os pulsos numa banheira e sangrar por horas afundando-se na água. Bastava que ela apontasse a sua ceifa numa direção e a pessoa tombaria. Sem dor, sem alarde, sem lentidão. Simplesmente acabou. Não é assim que ela opera. Deleita-se com a esperança.

            E foi envenenando o moço desde miudinho. Começou pela alma ao fazê-lo desacreditar, a sorte estava traçada: seria motorista, como o pai. Nem músico de soul, nem saxofonista, nem bailarino — era a maior atração nas rodas de amigos quando dançava — e menos ainda ator. Disse um rotundo não quando o convidaram para a  emissora de televisão mais famosa do país. Não estava talhado para o sucesso, a morte sussurrou-lhe.

            Nunca compreendeu que o pai fora motorista porque antes de tudo, queria ser boémio. E nada além. Não ele. Era um artista. Queria ter sido bailarino, ator, músico, ela não permitiu. Logo cedo, impregnou-o com a semente do fracasso.

            Em seguida, foi a vez do corpo. Aqui fê-lo percorrer o mesmo caminho antes feito pelo pai, levou-o para noites onde mergulhava de cabeça por pensar que sendo o filho, em algum momento, chegaria ao pai. E ela foi bebendo a vida dele em tragos de cerveja, depois em vinho. Não adiantava dormir com a cabeça tapada.

            A bem da verdade, ela cumpriu o trato. Aos quarenta e sete ameaçou levá-lo por puro acinte. Esteve internado três semanas, saiu quarenta quilos mais magro, parecendo uma caveira. Daí a zombaria. Deixou-o sair parecendo com ela. Patife!

            Faltando poucos meses, fiou-se que completaria os cinquenta. Até se imaginou a reunir os amigos e parentes numa festa. Aquela idade era maior quinhão que pudera alcançar. Ela não lhe faria o gosto.

            Ele resistiu o que pôde, lutou por duas semanas entubado numa cama nos tratamentos intensivos, ligado aos aparelhos, em coma induzido, ouvia as vozes da mãe, dos filhos, dos irmãos que imploraram para que regressasse.

            Ela levou-o numa mera quarta-feira. As quartas-feiras não são inícios nem fins de nada. Não se deve esperar muito de uma quarta, é um dia a meio da semana, uma obrigação a cumprir. Ele esqueceu-se disso. Ela não.