Destaque Sara Figueiredo Costa 30 Abril 2026
© Henrique Matos, 1983

Cinco livros para assinalar Abril

Na recta final deste mês em que se celebram os 52 anos da Revolução dos Cravos, sugerimos uma mão cheia de livros sobre o 25 de Abril, o Processo Revolucionário em Curso, a resistência à ditadura, o colonialismo e a Constituição de 1976, esse documento fundador da nossa democracia.

Casa dos Mortos – A PIDE/DGS em Moçambique 1964-1974
Maria José Oliveira
Tinta da China

Um longo trabalho de investigação jornalística de Maria José Oliveira deu a conhecer no Público a actuação da PIDE/DGS em Moçambique, apesar dos esforços dos envolvidos na tentativa de fazer desaparecer os testemunhos dessa actuação. Agora, esse trabalho ganha novo fôlego em livro, sempre a partir da descoberta, em finais de 2024, de uma Comissão de Verdade cuja existência nunca fora tornada pública e cujo trabalho estava guardado numa dúzia de caixas no Arquivo PIDE/DGS, à guarda da Torre do Tombo.
Ficamos, então, a conhecer o trabalho de uma comissão de inquérito criminal formada por elementos do exército português em Moçambique que, entre Maio e Agosto de 1974, ouviu milhares de vítimas, testemunhas, funcionários da PIDE, da PSP e de vários órgãos da administração colonial sobre a violência exercida pela polícia política portuguesa contra civis na antiga colónia. Em Setembro desse ano, depois de instaurar vários processos-crime por homicídio e ofensas corporais, a Comissão foi encerrada e a documentação desapareceu. Até agora.
O que ficamos a conhecer sobre a actuação da PIDE/DGS em Moçambique é aterrador e, ainda que possa não surpreender quem tenha consciência da brutalidade do Estado português em tempos coloniais, a especificidade das perseguições, das conivências, do modus operandi e dos métodos de tortura, bem como da urgência em tudo esconder assim que se dá o 25 de Abril, são revelações que até agora estavam ocultadas pelo tempo e pelo pó dos arquivos. Não mais.

→ tintadachina.pt


O Povo É Quem Mais Ordena – Revolução dos Cravos 1974-1976
Victor Pereira
Fora de Jogo

O golpe de estado transformado em revolução popular, o derrube do regime fascista, o programa do Movimento das Forças Armadas, a abolição da censura ou o fim do império colonial português são factos históricos relativamente consensuais, pelo menos no seu registo ou no reconhecimento da sua existência, e são também momentos sobejamente conhecidos quando se fala do 25 de Abril de 1974.
Neste livro, Victor Pereira não foge desses momentos e factos, naturalmente, mas propõe uma digressão sobre os meses que se seguiram à Revolução dos Cravos olhando para a dinâmica quotidiana da revolução, com todas as suas tensões, debates e escolhas. Militares e partidos políticos, movimentos e grupos de cidadãos, lugares mais e menos activos no que toca ao fervor revolucionário, tudo isso anda pelas páginas deste livro, permitindo uma nova leitura sobre estes meses fundamentais.
O livro foi originalmente publicado em francês há dois anos e chega agora à edição portuguesa pela mão da Fora de Jogo. O trabalho de Victor Pereira foi inicialmente pensado para um público francês, que não conhecerá bem a história do 25 de Abril, mas a sua leitura é ampla e vem acrescentar um olhar importante sobre os meses que mudaram a nossa vida, mesmo que ainda não tivéssemos nascido em 1974.

→ foradejogo.org


A Fuga
Jorge Mateus e Paulo Caetano
Iguana

A mesma dupla que assinou uma banda desenhada narrando a história de uma caravela portuguesa que, no início do século XVII, naufragou ao largo de Lisboa, espalhando pimenta pelas águas, regressa agora com uma narrativa cuja acção decorre durante o governo do Estado Novo.
A Fuga descreve a extraordinária evasão de sete presos políticos detidos na prisão de Caxias, em 1961, na qual, ironia das ironias, foi utilizado como veículo de fuga um carro que pertencia a Salazar e que, ainda por cima, havia sido oferecido ao ditador português por Hitler. Esta é uma daquelas histórias em que a realidade supera qualquer ficção e a dupla que assina esta banda desenhada aproveita essa espectacularidade com a parcimónia devida, equilibrando contexto, antecedentes e acção de forma harmoniosa.
Da caracterização sócio-económica do país em tempos de ditadura, nesses anos 50 em que a fome andava pelas casas de tanta gente sem que dela se pudesse falar, a resistência organizava-se em várias frentes. Hoje, lembramos os gestos de coragem de quem sobreviveu à prisão e à tortura, por vezes esquecendo que quem sucumbiu não é menos merecedor de lembrança. Resistir à tortura sem delatar ninguém não era apenas uma questão de coragem, porque os torturadores sabiam bem como quebrar quem tinham à frente e talvez seja pouco justo apontar a dedo quem não consegui – nunca saberemos o quanto tentou. António Tereso, militante do Partido Comunista Português, foi um dos presos que a PIDE conseguiu dobrar e o peso na consciência que sentiu por ter dito o que não devia aos agentes da ditadura fê-lo aceitar uma missão absolutamente insensata, que o obrigará a viver sob uma identidade falsa durante dois anos e que acabará com a famosa fuga dos sete de Caxias. É uma história sobre a História, mas também sobre essa sobreposição de gestos, convicções e contradições que nos dá forma, independentemente da época que nos calha viver.

→ penguinlivros.pt


O Movimento das Forças Armadas e o 25 de Abril
Pedro Lauret
Âncora Editora

Em 2024, quando se celebraram os 50 anos da Revolução dos Cravos, a Gare Marítima de Alcântara, em Lisboa, acolheu uma exposição sobre o Movimento das Forças Armadas. Este livro é o catálogo dessa exposição, que passa agora a estar disponível para leitura independente.
Os textos e os documentos visuais que aqui se reúnem permitem acompanhar os antecedentes do Movimento das Forças Armadas, situando-os na Guerra Colonial, gatilho essencial para a revolução. Permitem igualmente conhecer a organização do MFA desde a sua formação e acompanhar o papel deste movimento no momento da viragem, em 25 de Abril de 1974, mas também em momentos posteriores, entre eles o processo de recenseamento eleitoral da população, sem o qual teriam sido impossíveis as primeiras eleições realmente livres em Portugal, em 1975.
O livro segue o percurso da exposição que lhe deu origem, respeitando igualmente o seu grafismo, da responsabilidade de Vítor Cardoso, e é um importante documento que regista a história do Movimento das Forças Armadas, o seu contributo para a revolução e o seu legado.

→ ancora-editora.pt


50 anos da Constituição da República Portuguesa (1976-2026)
Nuno Estêvão Ferreira (coord.)
Edições 70

Há 50 anos, feitos no dia 2 de Abril, promulgava-se a Constituição da República Portuguesa, documento fundacional na nossa democracia. Meio século depois, continua a ser este o ponto de partida do sistema político em que vivemos e o elemento que regista a garantia dos nossos direitos fundamentais.
Há várias edições da Constituição da República Portuguesa disponíveis para leitura e este volume tem outros propósitos para além de dar a ler esse texto essencial. Aqui, texto e imagem – muitas imagens – juntam-se em registo de álbum, contando a história da Constituição, os debates que lhe deram origem, o espírito com que foi construída e a sua capacidade de permanecer actual ao fim de cinco décadas.
Entre perspectivas históricas, jurídicas e políticas e alguns registos testemunhais, este livro tem coordenação de Nuno Estêvão Ferreira e contributos de dezassete autores, entre eles Helena Roseta, Jerónimo de Sousa, Alberto Arons de Carvalho ou Diogo Freitas do Amaral.

→ almedina.net