por José Saramago
21 Abril 2026

“Escrevo para dilatar o espaço da vida”
Nos anos 90, o diário francês Libération perguntou a José Saramago sobre os motivos que o levavam a escrever. O autor de Memorial do Convento enviou ao jornal este texto que agora a Blimunda publica pela primeira vez na íntegra.
Há uns vinte anos, quadragenário já e em hora de crise a que não me atrevo a chamar existencial, por temor de tão grave palavra, escrevi um poema em que apareciam estes versos: “… quem se cala quanto me calei / não poderá morrer sem dizer tudo.” A ameaça era clara e teve seguimento em actos: deste então publiquei dezasseis livros. Vem agora Libération perguntar-me por que escrevo, e a resposta que me apeteceria dar seria esta, simples: porque estive calado durante muito tempo. Nada mais. Quanto à esperança de ser capaz de tudo dizer, fui perdendo-a um pouco mais em cada livro, vindo finalmente a compreender que tal ambição, alem de ser impossível humanamente, é também socialmente indesejável. Limito-me portanto a dizer o que posso.
No entanto, aquela promessa, colocada no liminar duma obra que já leva alguns milhares de páginas, continua a obsidiar-me. Hoje gosto de pensar que escrevo para fazer recuar a morte, para dilatar o espaço da vida, o que, evidentemente, não é original. Mas acrescentaria que esse movimento, no meu caso, se exercer em duas direcções opostas: uma para o passado, outra para o futuro. Tentarei explicar. Os livros que escrevemos aspiram, é sabido, a perdurar no tempo que está por vir, isto é, candidatam-se a uma certa forma de imortalidade, seja o que for que tal signifique. Sempre foi assim, por mais lições de modéstias e humildade que o tempo nos vá dando. Queremos dilatar o espaço natural da vida pelo artifício da obra, queremos, como demiurgos, povoar o mundo futuro de habitantes que neste nasceram, não de carne e osso, mas de papel, ou, mais rigorosamente, uma vez que o suporte clássico deixou de ser indispensável, de palavras. Em suma, não queremos morrer. Mas este autor, este que estas linhas escreve, vai mais longe na sua petulância: quer também entrar pelo passado dentro, quer, de uma certa maneira, corrigi-lo, e, ainda mais ambiciosamente, completá-lo. De um passado declarado morto desejaria fazer um passado vivo, a tal ponto que viesse a modificar-se a relação do homem com o tempo, todo o tempo, isto é, atingir um grau de compreensão histórica global que unificasse passado, presente e futuro como uma larga curva traçada sobre uma tela, contínua, ininterrupta e oferecida por inteiro ao olhar.
Provavelmente tarefa tão árdua serão mais para um filósofo do que para um romancista. Ora, como para filósofo me falta tudo, resta-me ser romancista. E é a altura de acrescentar: romancista português, em Portugal, neste final de século, depois de cinquenta anos de um regime repressivo e obscurantista. Direi que, por enquanto, não tenho tempo de ser europeu. Os romance que escrevo, os que espero vir a escrever, são e serão deste chão e desta raiz. Desejaria revolver as camadas profundas do nosso ser colectivo, trazer à superfície o que está oculto, exprimir aquilo que escondidamente somos, e, para tanto e tão grande, usar uma linguagem que transformasse em corpo inseparável o autor e o leitor, o narrador e o narratário, a ficção e a história.
Sim, a ficção e a história, mas não o romance histórico. Entendo que chegou o momento de deixar de escrever a história de Portugal para começar a escrever a história dos portugueses, e que o romance pode ser o primeiro rascunho do primeiro capítulo dessa nova história. É banal dizer-se que fora da história não há nada. Talvez que fora da ficção haja muito pouco.