Casa da Andrea Andrea Zamorano

Um paquiderme prostrado

Amontoados no fundo do cesto. Salpico um deles com água e coloco na torradeira só um pouco, não esperava que ficasse duro outra vez.

Não quero sair de casa. Nem no quintal estou indo esses dias, a roupa seca se acumula no estendal e no cesto por lavar. Da máquina de louça retiro apenas um copo, um prato, uma faca para passar manteiga no pão duro. Às vezes parto um pedaço do próprio pão e passo direto na manteiga, depois pego na parte besuntada e esfrego na outra metade para não ter de me abaixar e abrir a porta da máquina. Limpo com um guardanapo a faca que deveria ter usado, olho para o talher que vou gerindo sem responder aos emails. Não tenho mais pão. Vou comer as bolachas de água e sal enquanto as houver. Tamanha abnegação renderia uma foto. Não faço posts em redes sociais, não comento posts. Todo mundo tem opinião sobre tudo. Eu não tenho. Já tive apetência por discussões e coragem para comer acelga e seitan, assisto à distância os cíclopes atirando calhaus numa praia que não frequento.

Não estou deprimida. Desengano-me às nove da manhã. Acordei, estive duas horas na cama, sem me levantar. Para quê? Não tenho nada, não quero nada. Um conjunto inteiro vazio da matemática onde o nada são dois colchetes com um espaço por preencher ou é um zero riscado ao meio. No meio está o vazio e se é vazio por que precisa ser atravessado por uma linha? O vazio é ao mesmo tempo que não é. Traz algo. O nada não existe. E é proporcionalmente inverso ao infinito. E o nada apetece-me infinitamente.

Se o nada fosse um objeto palpável, ou que em si mesmo é uma impossibilidade, um objeto que não se possa tocar, o nada seria um copo cheio de ar. Pois o nada é subversivo e desarruma o espaço quando nada faço. Basta olhar para a minha pia de louças, para o meu cesto da roupa, para as minhas gavetas vazias. Tenho os pés gelados, reviro o cesto à procura de meias.

Meias inteiras, meio sujas, meio usadas, meio copo cheio de nada. Se eu tivesse ânimo tomaria um banho para aquecer os meus pés-frios. Fico horas a olhar imagens no computador, vídeos sucessivos dos dias aparentemente felizes de pessoas que não conheço. Não tenho tenacidade para pensar, os movimentos deles ocupam o espaço vazio no lugar da minha não existência.

Um chá verde enche o copo, acalentando em mim uma esperança amarelada, irritante e inútil. Bebo o Gorreana, uma amiga me trouxe do Açores quando ainda abria a porta. Nunca fui aos Açores. Talvez as plantações de sabor amargo me fossem aprazíveis. Um banho quente também seria reconfortante se depois bebesse um chá acompanhado com duas ou três bolachas Cream Crackers, se tivesse roupas limpas para vestir em seguida. Meu cabelo poroso leva uma eternidade para secar. Melhor não lavar a essas horas. Visto um robe sintético de poliéster cor de rosa. Um robe de seda seria mais bonito também mais frio. Penso no Japão, no chá verde e no horror que os gregos sentiam pelo nada, pela desnecessidade. Esse encadeamento é pouco lógico, caótico, até anti-estético diria se eu fosse uma pessoa do Classicismo. Talvez lavasse os meus cabelos com chá de camomila para ter fios dourados como ambicionavam na Antiguidade se eu os quisesse. Mas não quero, não quero nada em absoluto, quiçá apenas não-existir.

O zero era um deus para os Maias. O deus da morte. Mas eu não quero morrer, nem hoje, nem nunca. Se eu pudesse, não morreria, veria os meus filhos, os meus netos, e os “lhos dos meus netos e outros que me viriam visitar. De tempos em tempos apareceriam para ver a velha encarquilhada que existia desde que o mundo não era uma elipse em forma de olho como nos tempos do Maias. O olho do nada. E eu iria vê-los e sorrir para eles o sorriso mais minúsculo que houvesse na menor lâmina de microscópio porque ainda nessa altura, talvez, não sei, digo-o por mera especulação, talvez, quem sabe talvez, a minha abstração me representasse ainda como ausência e nesse tempo do futuro pós-tudo, eu ainda estivesse sem paciência alguma.

Enrosco os meus pés frios na cadela que se deitou na beira do sofá. Uma vez quase me apaixonei por uma menina chamada Clarisse. O mais perto que estive do que dizem amor. Clarisse lia Clarice, falava francês e nadava muito bem. Me esperava na saída do treino, fumávamos um cigarro juntas. Eu não fumava nessa altura mas era bom estar com Clarisse, sentia. A nicotina me deixava zonza e a menina ainda mais interessante.

E as pessoas têm essa mania, uma bobagem na verdade, de querer entender. Não há o que entender, entender é um não sentir. Eu sinto-me nada e isso esvazia-me e me preenche também numa dialéctica louca de uma carta de Tarot. Eu sou o Louco do Tarot, a única carta dos arcanjos que não é numerada, tanto soma, multiplica como anula o valor das coisas. Não tenho nada a esconder, não quero mostrar nada. Quem sabe faça um cachorro-quente e o coma com bolachas, quero ver o filme outra vez sentada na minha sala e esperar pelo novíssimo Capitão América. Ele pode nos salvar a todos, se quiser. Para mim basta poder errar livremente e ficar parada. Um paquiderme prostrado na forma de um repousa-pés comprado na loja chinesa do bairro, sem vontade nenhuma de me mover. Existindo na minha não existência, meias usadas aquecem a cadela. Talvez ligue a máquina de lavar loiça mais tarde. Talvez não.