Destaque Andreia Brites

Um quarto de século na vida da Tara Books

Em 1994 nasce a Tara Books, projecto artístico, social e cultural de duas mulheres, Gita Wolf e V. Geetha, que tinham como principal objetivo criar livros como objetos reveladores da arte, dos direitos humanos e das culturas ancestrais da Índia. Sediada na cidade de Chennai, a editora foi caminhando num percurso diverso do da globalização e neutralização das identidades regionais, geográficas, artísticas, línguísticas e sociais, valorizando temas como a identidade de género, os direitos das mulheres ou a ecologia e denunciando contextos de pobreza e discriminação. Pensando sempre no livro como composição artística e numa amplitude de públicos que não se esgotam nos leitores infantis. Numa entrevista à plataforma online Paper Planes em Maio do presente ano, Gita Wolf explica o sentido ético da editora e a sua imbricada relação com a estética: «Política não significa uma ideologia em particular – é mais uma consciência aguda de como o poder opera. Podemos fazê-lo de várias formas: podemos destacar ativamente pontos de vista que não são ouvidos ou evitar publicar livros que aprovem hierarquias de casta, classe ou género. Isso significa dar um contexto e um lugar à arte e à palavra. Também ter sempre presente as questões dos direitos humanos e da ecologia. Geralmente, quando chegamos a estes tópicos – perspectivas que se consideram estruturais – a estética é considerada frívola. Nós pensamos o oposto. A comunicação nem sempre precisa de ser feita de punho erguido. A beleza, o cuidado e a atenção que dedicamos a como um livro é folheado pelo leitor é igualmente importante.»

Atualmente a Tara Books conta com uma equipa de 12 pessoas entre escritores, ilustradores e designers que são igualmente donos da editora. O seu trabalho é essencialmente colaborativo e a grande maioria do catálogo nasce ali. Apesar da relação com alguns autores estrangeiros a importação de títulos é praticamente nula, se comparada com a produção interna. Todavia, muitos textos são reescritos a partir de recolhas de narrativas da tradição oral, quer na Índia quer noutros países asiáticos. Para além da equipa editorial, há ainda uma outra que integra 22 artesãos e artesãs que se dedicam à realização de workshops e à produção manual de alguns livros do catálogo. Uma das fortes apostas ideológicas da Tara Books assenta justamente na divulgação de técnicas artesanais e na formação de artesãos e artistas. Durante a pandemia, a editora partilhou sucessivamente na sua página de Instagram momentos de produção artesanal, pequenas apresentações e conversas com autores que deram uma perspectiva mais alargada da função artística e política deste coletivo.

Polifonia etnográfica

Dos títulos que vêm editando, cada vez com mais regularidade, duas marcas se destacam: a produção artesanal dos livros (da tipografia e da impressão à encadernação) e a natureza das ilustrações. A demanda por dar visibilidade a artesãos oriundos de diversas tradições e ver valorizadas as suas técnicas, a sua estética e o seu fundamento filosófico é facilmente reconhecível em grande parte do catálogo da editora. Um exemplo muito presente é o da arte Gond, proveniente de uma das maiores comunidades indianas, com uma história milenar. Apesar deste tipo de ilustração ter já sofrido alterações, a sua origem assenta numa cuidadosa representação das formas, que recorre a contornos interiores e exteriores e a modulações curvas que remetem para um movimento harmonioso. A paleta de cores é restrita mas vibrante tendo em conta que todas são compostas, originalmente, com pigmentos naturais que vão de tipos de terra ao hibisco, passando por folhas. Na tradição Gond, os motivos representados têm uma ligação muito próxima à natureza porque se acredita que esta é sagrada e que poder observá-la traz boa sorte. Assim, era frequente que se pintassem motivos e padrões inspirados na natureza no chão e nas paredes das casas como forma de respeito e devoção. No entanto, a arte Gond não se restringe à representação da natureza e também encontra no seu folclore e no quotidiano inspiração visual.

No catálogo da Tara Books encontram-se títulos cuja ilustração é criada por artesãos Gond e ainda cujas narrativas se recontam a partir do património oral desta imensa comunidade que tem, na sua dimensão, diversas cambiantes.

Mas o método de trabalho e a lógica da editora superam a criação individual. Mais importante é encontrar vozes, quer ao nível narrativo, quer ao nível da ilustração. Vozes oriundas de diversas culturas indígenas, que integram a equipa durante mais ou menos tempo e em conjunto criam o livro do princípio ao fim. Aconteceu, por exemplo, com Sultana’s Dream, editado em 2014 pela Tara Books. O texto data do início do séc. XX e foi escrito pela ativista e educadora Begum Rokeya Sakhawat Hossain, referência feminista para as gerações seguintes. Agora, o texto foi proposto à ilustradora Gond Durga Bai. A ilustradora tinha já um portefólio de desenhos de mulheres a praticar atividades pouco comuns na Índia, como jogar futebol ou subir a árvores. O desafio implicou a tradução do texto e a sua apropriação pela ilustradora que o recontou visualmente de acordo com a sua própria matriz identitária. Outro exemplo é o de A Village is a busy place! que junta uma ilustradora Patua com uma escritora e ativista Tamil para criarem um livro de atividades sobre o quotidiano da comunidade Santhal. Em Do faz-se acompanhar cada verbo por um quadro descritivo, seguindo o estilo da tribo Warli e em Mangoes & Bananas dá-se a ler um conto indonésio ilustrado com o estilo Kalamkari.

Diversidade de técnicas

Um outro elemento basilar na identidade do catálogo reside
na concepção do livro enquanto objeto. Neste sentido, o formato, o papel, a encadernação contam tanto quanto as narrativas. Os artistas que ilustram alguns dos livros estão igualmente implicados no processo de reprodução de texto e imagem, seja ela serigrafia, gravura ou outro modelo de impressão, e na escolha e produção do formato. Isso pode implicar técnicas de corte de papel, dobragem e costura. Mas todos os aspectos são pensados em conjunto de acordo com um propósito que deve ser coerente. A arquitetura do livro desafia o leitor a experienciá-lo de uma determinada maneira ampliando o sentido do peritexto. Nesse desafio encontram-se surpresas, estranhezas, representações que dialogam com a intenção da mensagem textual e visual. Um exemplo paradigmático é o do livro An Indian Beach: By Day and Night. A sua estrutura circular com o mar a ocupar toda a largura no topo de cada página dá-nos a referência do espaço que se mantém e ao mesmo tempo permite-nos assistir às mudanças que vão ocorrendo ao longo do dia. Igualmente interessante é notar que a sua autora é a francesa Joelle Jolivet e que o livro foi impresso em off-set, o que significa que neste caso o processo artesanal não foi prioritário. Pode parecer um contra-senso mas não é: reitera a filosofia na Tara Books que não se restringe a um único universo, um modelo singular, uma estrutura fixa. A identidade da editora não se centra nas identidades indianas em exclusivo e por isso as parcerias com autores e programadores japoneses leva alguns anos, com exposições de ilustradores da editora no Japão, a integração de autores japoneses nas colecções da Tara Books e a participação em Feiras no país nipónico. Aí
Gita Wolf e a sua equipa realizam workshops e palestras sobre técnicas, metodologias e o funcionamento da editora, partilhando experiências diversas. Mais recentemente, a equipa esteve na Austrália em contacto com grupos indígenas para recolher e partilhar narrativas e estéticas que poderão vir a ser plasmadas para futuros livros. Outros casos bem distintos são o de The Cloth of the Mother Goddess, um livro em pano, desenhado e pintado que narra precisamente a origem do ritual a que o título faz referência. Serigrafia, risografia, papel feito à mão, livros em rolo, livros circulares, livros de pano, encadernações cozidas manualmente, há um pouco de tudo no catálogo da Tara Books.

Um lugar no mundo

Logo após o seu 25o aniversário, a editora independente
mais prestigiada da Índia é também ela fortemente abalada pela pandemia da covid 19. Como pode uma relação criativa orgânica, que flui no quotidiano e é estimulada pelo convívio entre a equipa e entre a equipa e o público pode agora alimentar-se à distância e com horários pré-definidos? Num testemunho assinado no site Scroll.in no dia 1 de dezembro, Gita Wolf passa em revista todas as fases e todas as ações que a equipa levou a cabo, destacando, tal como outras editoras independentes, a perda de volume de vendas devido ao fecho das livrarias, a quase inexistência de venda de direitos internacionais, em grande parte pelo cancelamento das Feiras Internacionais mas igualmente pela retração das editoras a nível mundial e as dificuldades de colaboradores artesãos e autores que viram as suas fontes de rendimento profundamente abaladas. A aposta numa comunicação continuada, a oferta de workshops, sessões com autores e leituras, o desenvolvimento do site, o fortalecimento da presença nas redes sociais e várias campanhas de descontos e outras promoções ajudaram significativamente a Tara Books a manter-se viva. Provavelmente, a visibilidade deste coletivo editorial ganhou novos públicos, dentro e fora da Índia e o reconhecimento por parte dos mercados do livro na Europa, na Ásia e na Oceania sedimentou-se ainda mais. Em Portugal, desde há anos que existem livros da Tara Books. No entanto, eram muito menos do que hoje e em muito menos livrarias. As livrarias independentes especializadas em álbum ilustrado importam livros desta editora e divulgam-nos nas suas próprias redes sociais. Mas os seus títulos ainda não chegam através da compra por editoras portuguesas que os traduzam. Excepção feita a Capitão Coco & o Caso das Bananas Desaparecidas publicado pela Orfeu Negro e que nos dá uma ideia mais ampla da diversidade do catálogo da Tara Books. Se o exotismo da ilustração em álbuns como Waterlife ou The Night Life of Trees os transformaram em ícones que imediatamente se associa à editora indiana, a verdade é que a oferta quer de criações artísticas quer de temas explorados é muito mais vasta e por vezes bastante menos exuberante. Este tempo de aproximação virtual terá provavelmente contribuído para que a cristalização estética que existia em torno do projeto tenha começado a ser perfurada por uma visão mais consentânea com a real identidade da editora que é tudo menos monotemática e monocromática. A diversidade em que a Tara Books investe há um quarto de século também tem de chegar ao leitor nesses moldes e não apenas através de belos livros-objeto isolados que parecem representar um todo e apenas, e bem, se representam a si mesmos.