Espelho Meu Andreia Brites

Noa
Susana Cardoso Ferreira
Raquel Costa
Oficina do Livro

No início, a morte é apresentada sem ser nomeada. É entendimento tácito, ausência e dor. Silêncio.

Noa, uma criança sem idade definida (rondará os seis, sete anos, eventualmente), perde os pais quando estes estão no mar, pescando na traineira que o avô lhes tinha dado. Fica a viver com o avô, numa casa isolada e dedica-se a estreitar relação com a natureza no jardim da casa, em particular com um corvo que a visita diariamente.

A narrativa desenrola-se com um mote a cada novo momento, em tom de capítulo. A espaços, uma página negra com pequenas inscrições revela as emoções do luto de Noa. Nada se altera desde o início da história: a elipse permanece. Tudo vai sucedendo mas ao leitor parece sempre faltar algo, uma informação, um diálogo, uma reação. Não que a leitura seja verdadeiramente incómoda, mas há um peso associado ao que não se diz e que parece limitar a empatia com ambas as personagens, a menina e o avô. É o luto.

Porém, desengane-se quem pense que só de episódios constrangedores é feito este tempo: Noa gosta e dedica-se ao seu amigo corvo, gosta da professora Henriqueta Pia e de ter aulas em casa, de explorar as árvores, os arbustos e os insectos no jardim. Não gosta de outras crianças, não gosta da escola, não gosta de ver gente.

O volte face dá-se com a chegada de Paz, a neta emprestada de Pia, que transforma a lentidão do discurso numa torrente infinita de monólogos. E o leitor tem de se ajustar, com Noa, a esta nova realidade, tantas vezes excessiva na explicação, tantas vezes intrusiva no comentário.

Entre estes dois polos se desvela uma história de luto muito bem tecida, com singeleza e exagero, metafórica, imagética, densa na composição do silêncio que sempre se impõe, quer quando não há interlocutor, quer quando não há resposta. O efeito da dor da perda, da saudade e do alheamento estão muito bem plasmados no texto, sem nunca serem diretamente explorados ou aprofundados. Neste contexto, a dinâmica da outra personagem, Paz, promove junto do leitor a dicotomia entre a necessidade de dizer e os limites necessários do discurso.

Susana Cardoso Ferreira tem uma obra discreta mas pauta-a, desde o primeiro livro, pelo poder do diálogo, pelo humor de situação e pela fantasia. Também aqui, apesar de não se afastar do universo mais realista, é notória uma perspectiva um tanto humorada através de Paz e um cuidado com o simbólico e o aforístico igualmente presentes noutros textos.