Espelho Meu Andreia Brites

Discórdia
Nani Brunini
Pato Lógico

Discórdia é palavra forte, que abre todo um campo entre uma simples divergência de opinião e um conflito que pode até chegar a vias de facto. Sendo condição dos livros da coleção «Imagens que contam» que apenas tenham uma palavra, a do título, a pista textual ganha um peso simbólico que potencia ainda mais as expectativas de leitura criadas nos leitores.

Posto isto, abra-se o livro para seguir ou procurar a imensa nuvem bicolor que se expande entre a capa e a contracapa com origem no diálogo entre duas personagens.

A surpresa chega quando se percebe que o início da narrativa, logo nas guardas, recua aos primórdios da discórdia. Uma pequena nuvem roxa posiciona-se que nem balão de fala, bem perto da mulher. Na folha seguinte, a resposta do homem, laranja, vem acompanhada do seu movimento corporal: ele estaca, enquanto ela caminha. Logo o leitor consegue reconhecer uma linguagem corporal que se dá à divergência, ao espanto, ao desagrado, enfim à discórdia.

E assim caminhamos de página dupla em página dupla, com novas personagens a surgir e a tomarem partido na discussão. Os balões de fala de ambas as cores ganham volume e misturam as suas linhas, como acontece com o som, quando várias vozes se tentam fazer ouvir em simultâneo. Da raiva ao desafio, da acusação à troça, vários são os momentos e os estados de espírito dos intervenientes que se acercam. O campo de batalha está bem definido e para isso o próprio objeto livro serve de elemento narrativo: a fronteira encontra-se a meio, precisamente entre a página da direita e da esquerda. Já a mancha não encontra barreiras. Invade ambas as páginas ao ponto de quase retirar espaço a quem discorda ou observa.

Deparamo-nos então com uma segunda surpresa, uma transformação que obrigará o grupo a unir esforços. A narrativa toma um novo rumo quando um elemento novo se acerca e põe todos em risco. Como tantas vezes acontece, há quem reaja e assuma a liderança para resolver o problema. A partir daqui muitas hipóteses de desenlace são possíveis. Conseguirá quem lidera o apoio e a confiança de todos? Encontrar-se-á uma solução para o problema? Se sim, contribuirá a experiência para uma alteração no comportamento de todos matando a discórdia?

Sendo um álbum sem texto, Discórdia leva o leitor pelos mesmos caminhos de outras narrativas textuais, criando suspense, alterando espaços e ambientes e dotando as personagens de identidades mais ou menos vincadas, de acordo com o contexto em que se encontram. A cor e a sua ausência, bem como o traço fino que de define as personagens relaciona o concreto dos seus corpos com o abstrato das emoções e assim produz um efeito simultaneamente descritivo e simbólico, bem ao jeito dos contos morais.

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