Saramaguiana
por Kjell A Johansson

O Memorial do Convento, a estreia de José Saramago em sueco

Em 1988, o romance Memorial do Convento foi publicado na Suécia. O primeiro livro de José Saramago traduzido para o sueco recebeu ótimas críticas dos jornais e publicações literárias locais. Esta edição da Blimunda recupera uma delas, escrita por Kjell A Johansson e publicada no diário Dagens Nyeheter, de Estocolmo,no dia 6 de dezembro de 1988.
Dez anos depois dessa estreia em sueco, José Saramago passaria dias inesquecíveis no país escandinavo para receber o Prémio Nobel de literatura.

A loucura eterna do homem
por Kjell A Johansson

Quando Blimunda, durante um auto de fé em Lisboa, em 1711, vê a sua mãe ser levada para ser deportada para Angola, vai parar ao lado de Baltasar, que voltou duma guerra onde perdeu a mão esquerda. Sabe imediatamente que ficará ligada a ele para todo o sempre. A mãe de Blimunda, que pela primeira e última vez – e apenas à distância e por um instante – os vislumbra, também o sabe.

José Saramago, que utiliza o anacronismo como uma das ferramentas do seu estilo, não protestaria com certeza se se chamasse Baltasar e Blimunda um casal com radar. A sua vida quotidiana, que o leitor pode acompanhar durante algumas décadas, não se diferencia muito daquela de outras pessoas simples e pobres. Mas ao mesmo tempo movem-se num mundo que é totalmente seu.

Baltasar é muito destro com a sua única mão. A esquerda, substitui-a por um gancho ou pique de ferro. Ambas são extremamente úteis para a sobrevivência num mundo duro e inseguro. Em jejum, Blimunda tem a faculdade de ver o interior das pessoas.

O casal chega a conhecer um padre de pensamento inusitadamente livre, o Padre Bartolomeu de Gusmão, obcecado pela ideia de poder voar. Os três realizam o plano, cada um contribuindo com as suas faculdades. Esta atividade é de tal natureza que a Inquisição não deve ficar sabendo dela. Apenas uma quarta pessoa sabe do segredo: Domenico Scarlatti, que residiu em Lisboa durante a década de 1720. Foi regente de orquestra na corte de João V e professor de música da infanta Maria Bárbara, que mais tarde acompanhou para Espanha quando seria dada em casamento a Fernando das Astúrias, o futuro Fernando VI.

Scarlatti transporta um cravo para o lugar isolado onde se trabalha na construção do avião. As informações sobre os anos passados em Portugal por este compositor italiano têm até agora sido escassas. Graças a Saramago sabemos agora um pouco mais. Para a época contemporânea e, em certa medida, para a posteridade, Portugal é durante esta época principalmente conhecido pela enorme construção de um convento que, às ordens de D. João V, foi erguido entre 1717 e 1735 em Mafra, a cerca de trinta quilómetros de Lisboa.

O Rei tinha prometido aos franciscanos – e a Deus – que lhes edificaria um convento se obtivesse um herdeiro da coroa com a sua esposa austríaca Dona Maria Ana Josefa, que dois anos depois de casada ainda não ficara grávida. Deus rapidamente deu sinal verde. A Rainha deu à luz vários filhos em sequência.

D. João V estava empenhado em cumprir a sua parte da promessa, em especial porque o convento ficaria um monumento magnífico sobre ele próprio. Tornou-se o local de trabalho de Baltasar, que morava na vizinhança da construção. Passado algum tempo ficou patente que não bastariam os trabalhadores que voluntariamente se tinham dirigido a Mafra para realizar os planos grandiosos do Rei. Um extenso recrutamento de força teve de ser efectuado em todo o Portugal. Cinquenta mil trabalhadores encontraram-se simultaneamente na construção. Muito mais de mil faleceram em acidentes. O convento, com extensão de 250 metros de comprimento e 221 metros de largura, tem quase mil quartos e 4.500 janelas. O facto de não ser ainda maior deveu-se ao arquitecto responsável ter convencido o Rei de que, se assim fosse, não havia perspectivas plausíveis de que ele próprio o pudesse inaugurar – pelo menos se acreditarmos em José Saramago, o que há toda a razão para fazer, porque descreve o assunto de uma maneira absolutamente convincente.

Em Memorial do Convento [cujo título em sueco é Baltasar e Blimunda] o autor é o narrador omnisciente. Além disso, nunca faz segredo de que vive na década de 1980. De vez em quando pisca-nos o olho ou faz comentários intercalados aos seus leitores, para dizer, por exemplo: “Vocês sabem, naturalmente, o que aconteceu depois, mas, naquela altura, não o sabiam.” Longe de perturbar a leitura, esta maneira de escrever cria, pelo contrário, confiança no autor que declara nítida e honestamente que aquilo que escreve é ficção e não outra coisa – partindo de uma realidade determinada. Saramago domina o seu ofício de uma maneira soberana e mostra satisfação em contar e uma faculdade de iludir excepcional. Memorial é um livro que anima e que aumenta a alegria de viver.

Há nele uma história de amor bonita e muito pouco sentimental, simultânea a um relato sobre um país pobre que durante quinhentos anos pensava ser uma grande potência e esgotou os seus recursos em projectos loucos. Com o humor como arma, o autor critica a loucura infinita do homem. José Saramago contribuiu muito para a renovação da prosa portuguesa que se pôde verificar na década de 1980. Nasceu em 1922, mas só nos últimos dez anos se dedicou a escrever romances. O neo-realismo, muitas vezes com sinais comunistas, tem estado presente na literatura portuguesa, durante mais tempo e mais paralisador do que o realismo social em Espanha, durante o mesmo tempo – e ditadura. Saramago, que é um comunista convencido, começou como escritor de romances depois de ter abandonado o neo-realismo, encontrando um estilo próprio, perto de relatos verbais, mágicos, de contos de fadas, um estilo tão pessoal que se

fala num estilo especial de Saramago. José Saramago é agora publicado numa série de idiomas, tal como um par de outros – vinte anos mais novos – renovadores da prosa portuguesa: Almeida Faria e António Lobo Antunes, dos quais, até agora, dois livros de cada foram traduzidos para o sueco.

É um grande prazer ler estes autores nas traduções sempre cuidadosas, de estilo seguro e muito vivas de Marianne Eyre. As editoras têm ótimos motivos para continuarem a traduzir os portugueses.

Tradução Eva Hass