Editorial 3 Julho 2026

Emergência global


«As ondas de calor que atravessam a Europa são um ensaio geral para um futuro mais quente e exigente», alertou a OMS (Organização Mundial de Saúde) no último dia de junho. Desde o início deste verão, praticamente todos os países do continente europeu têm sofrido com ondas de calor que, em alguns deles, tiveram o seu início ainda na primavera.

Em Espanha, o Instituto de Saúde Carlos III calcula que 1028 pessoas terão morrido por causa do calor no mês de junho. No ano passado, no mesmo período, foram 407 as mortes atribuídas à mesma razão, de acordo com a mesma fonte. O primeiro semestre deste ano foi o mais quente deste país desde que há registo de medições, com temperaturas de cerca de 1,6 graus acima da média.

Em França, segundo dados do Ministério da Saúde, foram registadas pelo menos mil mortes a mais do que o expectável durante a onda de calor que assolou o país. As chamadas para os serviços de urgência aumentaram 50% e as funerárias ficaram sobrelotadas.

Especialistas alertam que as ondas de calor têm sido mais frequentes, mais longas e mais estremas, nos últimos anos. Não há nenhum motivo para imaginar que os próximos anos venham a ser diferentes.

A queima de combustíveis fósseis é uma das principais causas do aquecimento global, alertam os cientistas. Existem várias medidas que podem ser tomadas a curto prazo para mitigar os efeitos do calor, mas não há nenhuma maneira de “arrefecer” o Planeta. Há, isso sim, formas de tentar diminuir o avanço do aquecimento, mas isso dependeria de um pacto civilizacional entre os países. Um pacto civilizacional que muitos recusam por ir contra muitos interesses comerciais, contra a lógica do capitalismo.

Ailton Krenak conta no livro O amanhã não está à venda que, após uma tragédia ambiental de grandes proporções numa área habitada há muitos séculos por povos indígenas, teve uma conversa com funcionários da empresa responsável pela contaminação. «Quando engenheiros me disseram que iam usar a tecnologia para recuperar o rio Doce, perguntaram a minha opinião. Eu respondi: “A minha sugestão é muito difícil de colocar em prática. Pois teríamos de parar todas as atividades humanas que incidem sobre o corpo do rio, a cem quilómetros nas margens direita e esquerda, até que ele voltasse a ter vida”.» Krenak ouviu dos técnicos que a sua sugestão era impossível de ser realizada, porque «o mundo não podia parar». Na verdade, a resposta do burocrata significava que o capitalismo não permitia que fossem dados ao rio tempo e paz para que ele se recuperasse das violências que sofreu.

No rio que o planeta também é, a morte afigura-se como uma realidade a uma velocidade avassaladora, com o lucro, a ganância e o desprezo pela vida a continuarem a ditar regras.