O que vem à rede Sara Figueiredo Costa 31 Julho 2026

No arquivo de García Márquez
Passar os olhos ou percorrer atentamente cada elemento do espólio de um escritor é uma das coisas boas permitidas pela internet.

Os livros que lemos chegam-nos às mãos devidamente polidos, sem erros ou correcções – se a revisão foi bem feita – e sem qualquer vestígio das muitas emendas, acrescentos e dúvidas que quem os escreveu foi registando ao longo do processo. A possibilidade de nos adentrarmos nesse labirinto de emendas e dúvidas é pouco frequente: mesmo os escritores que conservam todos os seus papéis tendem a mantê-los privados durante a sua vida; por outro lado, a existência de papéis e blocos de notas é, com a vulgarização dos computadores, discos rígidos e internet, cada vez mais rara.

É por isso de saudar que haja tantos arquivos de escritores e escritoras já digitalizados e disponíveis na internet. Um deles é o de Gabriel García Márquez, que junta os milhares de documentos em papel à existência virtual que a internet garante e permite que, em qualquer parte do mundo, possamos aceder à sua realidade. São mais de 27 mil imagens de textos, folhas soltas, fotografias, correspondência e anotações em cadernos e blocos. Entre as fotografias, cerca de 300, há registos do autor na companhia de figuras como Fidel Castro, mas também dezenas de instantâneos captados na infância, com a família, em viagens, locais de trabalho e em casa. Os manuscritos e dactiloscritos incluem, para gáudio dos estudiosos da obra, várias versões anteriores dos romances que tantos milhões de leitores conhecem apenas na sua forma final e publicada. Para além de um sistema de pesquisa por tema, tipo de documento e data, o arquivo de García Márquez tem também uma ferramenta que permite cotejar diferentes versões dos textos e compreender os avanços e recuos do escritor à medida que escrevia e revia o seu trabalho. Por exemplo, o seu último livro, En Agosto nos Vemos, tem no arquivo uma dezena de versões diferentes, sendo que o autor nunca considerou nenhuma delas apta para publicação.

O arquivo de García Márquez chegou ao Harry Ransom Center, na Universidade do Texas, em 2014, depois de acordo com a família do escritor. A sua organização e classificação há muito que estavam feitas, sendo o arquivo físico consultado por especialistas, estudantes e outros curiosos. Desde 2021 que o espólio do autor de Cem Anos de Solidão está ao alcance de todos e à distância de um ecrã ligado à internet.

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