O que vem à rede Sara Figueiredo Costa

Lutar Contra O Racismo
«É importante perceber que essa violência é histórica, estrutural e cíclica, de um sistema que se adapta mas nunca muda.»

O jornal Mapa publicou, na sua edição impressa, um conjunto de depoimentos de quem vive o racismo no dia a dia em Portugal, sabendo-o estrutural e sistémico. Entre os assassinatos de George Floyd pela polícia norte-americana e de Bruno Candé por um homem que sobre ele disparou balas e insultos racistas, é imprescindível escutar quem denuncia um quotidiano histórica e permanentemente marcado pelo preconceito racial. Dois exemplos:
«Maria Fernandes: Tal como muitas outras pessoas negras, africanas e afrodescendentes em Portugal, senti a necessidade de sair à rua e manifestar-me contra o racismo. O George Floyd foi a última vítima, mas nos EUA existem assassinatos constantes de afro-americanos pela polícia. É importante perceber que essa violência é histórica, estrutural e cíclica, de um sistema que se adapta mas nunca muda. Com o fim da escravatura surge outra forma de supressão, como as leis de Jim Crow, o encarceramento em massa, e por aí adiante, com o objetivo principal de classificar a comunidade afro como inferior.» (Maria Fernandes)

«É o movimento que se gera sempre depois da morte de cada um de nós. Não é como dantes que se matavam mil George Floyds e ninguém sabia, a não ser os familiares. Hoje em dia todos temos conhecimento porque as redes sociais no-lo permitem. E logo a manifestação ser mais global. Esse movimento é importante e necessário, cada vez mais. Para quem está do lado de fora da luta, quem nunca teve a necessidade de sair à rua e gritar por alguém que foi morto pela polícia ou por esse sistema racista e homofóbico, parece mais um show de carnaval. Como se as pessoas fossem a uma parada e depois voltam a casa e as suas vidas continuam. Mas para quem está dentro da luta, levamos para casa a insegurança, o medo e o pesadelo de que amanhã podemos ser nós, podem ser os nossos irmãos, pode ser outra pessoa que a gente conhece, ou não – mas vai ser mais uma pessoa negra. Essas manifestações são espaços de pôr a nossa dor em exposição, pôr a nossa dor pública, pedir empatia. Eu não acredito que essa justiça capitalista, a justiça na Terra, neste estado físico em que a gente vive, vá acontecer muito cedo. Mas estamos a pedir empatia. É algo muito difícil que essas pessoas detentoras do poder possam vir a ter para connosco, porque tão pouco nos veem como humanos. Não passamos de vítimas, de animais, de povo não civilizado. Isso é o que esse sistema alimenta sobre nós. Por isso é importante que a gente comece a pensar a justiça pelas nossas próprias mãos.» (Lolo)


Robert Fisk: a morte
de um grande repórter
«Fisk assumiu sempre o papel de testemunha que procurava olhar atentamente para o lado mais fraco – e menos escutado.»

Morreu Robert Fisk, o repórter que acompanhou quase todos os conflitos que marcaram a segunda metade do século XX e os primeiros anos do XXI. Pouco adepto da ideia de neutralidade total no trabalho jornalístico, Fisk assumiu sempre o papel de testemunha que procurava olhar atentamente para o lado mais fraco – e menos escutado. No diário El País, Rafa de Miguel assina o obituário do jornalista britânico: «Crítico con los compañeros de profesión que informaban u opinaban de la región más convulsa del planeta sin levantarse de sus mesas de redacción, Fisk fue testigo directo de la sangrienta guerra civil del Líbano, la revolución iraní de 1979, la invasión soviética de Afganistán y la lucha de los talibanes o el conflicto entre Irán e Irak. A media que profundizaba su conocimiento sobre la zona, sus opiniones sobre los gobiernos occidentales, y especialmente contra Estados Unidos e Israel, se volvían más ácidas y polémicas.» E, mais adiante, exemplifica um dos seus gestos comprometidos com a necessidade de compreender o mundo, contando-o: «Cuando viajó a Afganistán, después de los atentados contra las Torres Gemelas de Nueva York, fue atacado por un grupo de refugiados afganos en la frontera con Pakistán. Fisk convirtió el incidente en una noticia de primera página en la que analizó, de un modo despersonalizado, las causas de tanta rabia. “Me di cuenta de que todos ellos eran hombres y niños cuya brutalidad era completamente el producto de otros. De nosotros, que les armamos para combatir a los rusos pero ignoramos su sufrimiento y nos reímos de su guerra civil”, escribió.»


Ofício da tradução
«Quando estou a traduzir, quero que o leitor português leia aquele livro sem sentir que está a ler uma tradução, sem sentir a minha presença. É quase como se fosse uma ghost writer.»

Na revista Gerador, publica-se uma entrevista com Tânia Ganho sobre o labor da tradução literária. Tradutora há mais de duas décadas, a também escritora fala à jornalista Carolina Franco sobre as dificuldades e os rigores do seu ofício, partilhando algumas trocas de impressões com escritores cujas obras já traduziu: «Um exemplo de um autor que eu traduzi e com o qual não pude conversar, porque já cá não está, é o John Williams, que escreveu Stoner. Ao longo da tradução, naturalmente surgiram dúvidas, e o desafio é completamente diferente quando não temos o autor ao nosso dispor para nos responder.
É um trabalho talvez mais criativo, de interpretação, tem mais margem de manobra para seguir a intuição. E esse foi um livro que adorei traduzir. Mas ultimamente tenho traduzido só autores vivos, aos quais posso enviar e-mails — e sou muito, muito insistente, envio e-mails com as minhas dúvidas todas. Tem sido uma experiência muito enriquecedora, porque a maior parte dos autores, quando percebe a importância da tradução (e que uma má tradução destrói o livro original), são extremamente atenciosos, tiram-me todas as dúvidas. Isto aconteceu-me com a Rachel Cusk, como eu tinha contado; eu estava em Paris na altura, ela foi lá fazer o lançamento de um livro, fomos tomar um café, e depois disso já estivemos juntas num festival literário. O Allan Hollinghurst, que conheci cá em Lisboa, foi de uma simpatia enorme… até me enviou fotografias de coisas que eu tinha perguntado o que eram, por exemplo a fotografia do edifício que descrevia no livro. A Chimamanda [Adichie] também conheci em Paris, num festival literário, fui-lhe tirar as minhas dúvidas a 10 minutos de ela ir embora. Tem sido uma experiência muito boa! E é muito mais fácil traduzir quantos podemos tirar as dúvidas diretamente com os autores, porque há menos interpretação, menos risco.» Sobre a possibilidade de o trabalho de tradução ser igualmente um trabalho autoral, diz Tânia Ganho: «Eu acho que acaba por ser sempre um trabalho autoral. Enquanto autora e tradutora, quando estou a traduzir, acho que há muito de mim na tradução e que cada tradutor tem o seu estilo. Por muito que tente seguir o estilo do autor que está a traduzir, há sempre um cunho pessoal. Nesse sentido, sim, é um trabalho autoral, mas tento sempre ser o mais invisível possível. Quando estou a traduzir, quero que o leitor português leia aquele livro sem sentir que está a ler uma tradução, sem sentir a minha presença. É assumidamente um trabalho de bastidores. É quase como se fosse uma ghost writer. E por alguma razão há várias traduções do mesmo livro, feitas por diferentes tradutores, que por vezes são completamente diferentes. É um trabalho autoral que tem de ser discreto.»


Mia Couto em entrevista

O jornal brasileiro Nexo publica uma entrevista com Mia Couto, autor do recentemente lançado Mapeador de Ausências (Caminho). Língua, literatura e os efeitos devastadores do furacão Idai na região moçambicana da Beira são alguns dos temas abordados pelo escritor no vídeo que o Nexo disponibiliza no seu site.