
À espera dos Bárbaros
Olivier Tallec
Nuvem de Letras
Tradução de Ana Rita Mendes
O texto deste álbum ilustrado é uma adaptação livre de um dos mais conhecidos poemas de Konstandinos Kavafis. Numa cidade, espalha-se o boato de que os Bárbaros estão a chegar. A partir desta suposta informação, os habitantes tentam, em primeiro lugar, prever por onde chegarão os Bárbaros, para não serem apanhados de surpresa. Depois preparam a defesa, que vão engalanando enquanto esperam, cada vez mais ansiosos. E os Bárbaros não chegam. Ao contrário do poema grego, aqui há uma consequência visível para a frustração: o desânimo daquele que pode ser considerado o líder e a pergunta: “Mas, e agora? O que vamos fazer sem os Bárbaros?”. A ilustração da última página dupla responde.
O sentido do texto, associado à ilustração que acompanha a ação individual de quem pode ser o responsável pelo grupo, é amplo. Da desinformação à inércia, esta alegoria originalmente política chama a atenção para o perigo do medo. Os Bárbaros são o pretexto para que se mobilize toda a gente em defesa de algo supostamente comum, que mascara a ausência de um propósito coletivo independente de agentes externos. A proposta final do livro vai nesse sentido, o da procura por algo que nos faça felizes, que nos motive, dentro do que queremos e sem uma motivação externa. Ao contrário do poema de Kavafis, que é uma alegoria crítica e desesperançada, o álbum de Olivier Tallec explora o absurdo com ironia e humor, sobretudo através da personagem que até pode ser uma criança. Apesar de não ser essa a mensagem original do texto, este livro ainda pode ser lido à luz das expectativas goradas e de como nos sentimos quando colocamos todo o nosso entusiasmo ao serviço de alguém ou de algum momento que não se concretiza por responsabilidade alheia. Há várias camadas de leitura para esta narrativa e podem ser exploradas de acordo com as experiências e os contextos de cada leitor.