Espelho Meu Andreia Brites 30 Julho 2026

O assalto na escola
Joana Estrela
Planeta Tangerina 

A literatura infantojuvenil portuguesa carece de uma nova geração de escritores. Ao invés do que aconteceu com o boom da ilustração na viragem do milénio, que trouxe qualidade e reconhecimento à edição portuguesa, e que tem alimentado novas gerações de ilustradores de grande nível, faltam mais vozes novas a escrever para o público infantojuvenil. Vozes que desenvolvam uma identidade própria, perspectivas originais, personagens icónicas, humor contemporâneo. 

Joana Estrela tem-se afirmado como uma das poucas novas vozes que arriscam uma linguagem própria, no seu caso em formatos distintos. O que se passa com esta autora, e que agora se confirma, é que tem um pensamento narrativo, uma intenção diegética. Pode concretizá-los através da ilustração, do texto ou da relação entre ambos (sobretudo em banda-desenhada). É o domínio da arte de contar que faz com que o consiga tão bem recorrendo quer ao discurso visual quer ao textual.

O que acontece com o presente livro é mais uma experiência que confirma o seu percurso. Trata-se de livro de texto com um mistério que segue a fórmula de aventuras: três amigos tentam descobrir quem assaltou a escola, como o título indica. Mas a narrativa desvia-se da previsibilidade: não há riscos desmesurados nem heróis adolescentes, tudo o que acontece poderia passar-se na vida de qualquer leitor. Ainda, a resolução do mistério é bastante improvável e o caminho tem diversas pistas falsas. Por outro lado, há algumas subtilezas que no final sustentam toda a lógica dos acontecimentos. Para além do mistério principal – o assalto na escola – há conversas e atitudes que se transformam noutros mistérios à medida que vão deixando de encaixar nas hipóteses iniciais. 

Do ponto de vista da estrutura, Joana Estrela cumpre com rigor os preceitos do género, e ainda lhe acrescenta pelo menos duas personagens problemáticas (Augusto e Zé Pequeno) cuja biografia poderá ser explorada noutros volumes (se estivermos perante o primeiro título de uma coleção). Também a densidade dos protagonistas tem margem para ser aprofundada. A estes elementos, a autora acrescenta humor na linguagem, com algumas marcas discursivas típicas dos pré-adolescentes, mas sem entrar no excesso de gírias forçadas que desvinculam os textos de uma condição literária. Logo pelo índice se identificam as marcas de humor deste desafio, não apenas pelos títulos dos capítulos mas sobretudo pelo caminho que o leitor tem de fazer, seguindo as setas que os ligam. 

Destinado a crianças e pré-adolescentes (entre os 8 e os 11), este livro contribui para colmatar uma falha significativa de oferta de literatura portuguesa para este público. É muito bem-vindo.

→ planetatangerina.com