
Palestina: ler e não esquecer
Uma mão cheia de livros para clarificar o que se passa na Palestina, da história de um conflito que começou com as ocupações de terras no século XIX ao genocídio de um povo que acontece sem que as instituições com poder para o travar façam o que lhes compete.
No dia 7 de Outubro de 2023, o Hamas levou a cabo uma série de atentados em Israel, deixando um rasto de centenas de mortos e sequestrando várias pessoas. Depois disso, parte dos media internacionais passaram a acompanhar os acontecimentos nos territórios palestinianos como se o cenário de guerra tivesse começado naquele momento. Por outro lado, a cobertura dos ataques do exército israelita sobre os territórios palestinianos, intensificada a partir desse dia, nunca esteve assegurada, uma vez que os jornalistas foram impedidos de entrar nesses territórios. O número de mortes foi escalando, de acordo com números da ONU e de várias agências e instituições humanitárias e o termo genocídio começou a ser usado, ainda que com a rejeição de muitos governos, que preferiram falar cm conflito quando de um lado havia um exército armado com a mais recente tecnologia bélica e do outro uma população à mercê das bombas e a tentar sobreviver por entre os escombros.
Três anos depois desse dia fatídico, muitos anos depois da ocupação dos territórios palestinianos por colonatos patrocinados pelo governo israelita, à revelia de todos os acordos internacionais assinados, sugerimos cinco livros para não perder de vista o que se passa na Palestina. São textos que permitem compreender o contexto e a história de um lugar que há muito se vê atravessado por uma situação insustentável no que toca aos direitos humanos e onde os bombardeamentos, as destruições de casas e infra-estruturas, as detenções aleatórias não começaram no dia 7 de Outubro de 2023. Cada um destes livros permite conhecer esse contexto histórico de modo particular, ampliando a reflexão sobre a Palestina e a ocupação dos seus territórios por parte do governo de Israel para o momento actual em que um povo foi transformado em alvo permanente sem que as instituições internacionais que deveriam assegurar os direitos humanos em todo o mundo (ou, pelo menos, tentar de forma explícita) intervenham de modo inequívoco. O contexto tem muitas linhas que se cruzam na cronologia, nos diferentes ciclos políticos, nos vários cenários diplomáticos internacionais, mas tem um elemento em permanente destaque, o de estarmos a assistir a um genocídio sem que haja um gesto real, intencional e eficaz para o travar.

Gaza Perante a História
Enzo Traverso
Antígona
Tradução de Pedro Morais
Enzo Traverso escreve este ensaio pouco depois do 7 de Outubro de 2023, quando se torna óbvio que os ataques do exército israelita sobre Gaza vão decorrer sem qualquer travão diplomático e sem que o direito internacional prevaleça:
«Além das declarações rituais sobre o direito de Israel à autodefesa, ninguém menciona o direito dos palestinianos a resistir a uma agressão que dura há décadas porque ninguém reconhece que eles têm uma história.» pg.30
Gaza Perante a História reflecte sobre esse presente (que é já um passado com quase três anos, sem que grande coisa tenha mudado) e desconstrói a narrativa que apresenta Israel como vítima e, sobretudo, como Estado detentor do direito incondicional de fazer o que bem entender, mostrando as muitas raízes de uma situação que não começou agora, nem em 2023. Relacionando a ocupação israelita dos territórios palestinianos com a história do colonialismo e do imperialismo ocidentais, Traverso apresenta os seus argumentos para uma oposição frontal à política expansionista e genocida israelita, que terá de ser também, na sua leitura, uma oposição aos apoios prestados à política israelita pelo mundo dito “civilizado”, esse mundo que distingue os mortos em função da sua origem:
«O terrorismo do Hamas é apenas o reverso dialéctico do terrorismo de Estado israelita. (…) Os terroristas que matam crianças num kibutz são odiosos; os atiradores que matam crianças na rua ou fazem explodir uma caravana são igualmente odiosos; ambos devem ser condenados. Mas isto não significa que podemos equiparar a violência de um movimento de libertação nacional à de um exército de ocupação. A legitimidade de ambos não é igual. Os crimes do primeiro resultam do uso de meios ilegítimos; os do segundo, do próprio objectivo que prosseguem.» (pg.81-82)

Israel vs Palestina – A mais breve história do conflito
Ilan Pappé
Ideias de Ler
Tradução de Ana Rooney-Magalhães
Ilan Pappé nasceu em Israel, filho de pais judeus alemães que fugiram do regime nazi. É uma das vozes académicas do movimento israelita de Novos Historiadores, que desafiam de algum modo a narrativa mais clássica sobre a fundação do estado de Israel e a nakba. Será, portanto, uma voz insuspeita no que toca ao argumento de anti-semitismo que os apoiantes do governo de Israel lançam sempre que alguém se opõe de alguma forma, por leve que seja, ao que está acontecer na Palestina. Como tantos outros judeus pelo mundo fora, Ilan Pappé opõe-se à ocupação e à guerra permanente lançada pelo governo israelita sobre os palestinianos. E, neste livro, torna claro que o projecto sionista não nasceu assim tão longe desse anti-semitismo que anda na boca de tanta gente:
«O sionismo chegou como uma importação estrangeira. No século XVI, começou por ser um projecto evangélico-cristão na Europa. Um número significativo de cristãos protestantes acreditava que o regresso do povo judeu a “Sião” cumpriria as promessas de Deus aos judeus no Antigo Testamento. Isto seria um prenúncio do Segundo Advento de Cristo, marcando o início do fim do mundo – um processo que muitos evangelistas querem acelerar. Foram os primeiros a considerar os judeus membros de uma nação ou raça, em vez de como praticantes ou crentes numa fé. (…) O que os motivou? Certamente, não era solidariedade com o povo judeu. Alguns deles eram abertamente antissemitas e viam a Palestina como uma lixeira para onde atirar os judeus dos EUA, Grã-Bretanha e Europa, uma vez que nunca os aceitaram como membros iguais das suas respetivas nações.» (pg.11)
Este é um livro de divulgação, claramente pensado para um público generalista, coisa que o seu subtítulo, A mais breve história do conflito, permite perceber imediatamente. É um livro que traça um percurso cronológico pela história do território e que faz recuar aquilo a que chamamos conflito israelo-palestiniano a 1882, quando os primeiros colonos sionistas se instalaram na então Palestina otomana. Daí, prossegue até aos dias de hoje, analisando os principais momentos desta história complexa, os cenários que poderiam ter tido outros desfechos e as esperanças de paz e igualdade que nunca se cumpriram:
«(…) entre o final de 2006 e o final de 2008 havia alguma esperança num futuro diferente. Estes foram os últimos dois anos do Governo de Ehud Olmert (…). Olmert, tal como Sharon, e tal como todos os antecessores israelitas, independentemente de quão progressistas fossem, não era capaz de tolerar um Estado palestiniano independente e soberano a existir ao lado de Israel. Israel queria um Estado-marioneta, um que não pudesse, de repente, tornar-se num vizinho hostil.» (pg.140)
E aqui estamos, em 2026, com um território feito em escombros, milhares e milhares de mortos e um direito internacional à procura, sem sucesso, da sua credibilidade.

Um Dia, Sempre Teremos Sido Todos Contra Isto
Omar El Akkad
Tinta da China
Tradução de Guilherme Pires
O escritor e jornalista Omar El Akkad assina neste livro uma profunda reflexão sobre o modo como parte do mundo, através das suas instituições mais poderosas e das suas instâncias de representação, tem reagido ao que se passa na Palestina, por um lado, persistindo em desvalorizar um genocídio que decorre à vista de toda a gente, por outro, encenando por todos os meios possíveis uma narrativa que pretende afirmar que, antes de 2023 e do bárbaro ataque do Hamas em Israel, nada de estranho, grave ou minimamente bélico acontecia nos territórios ocupados da Palestina… O título do livro é, aliás, muito claro quanto ao desprezo que essas instituições de poder têm votado ao assunto, mas igualmente claro quanto à inevitabilidade de uma mudança de atitude, porque é muito difícil esconder um genocídio e será, no futuro, muito difícil encontrar desculpas para reagir com um encolher de ombros à visão de milhares de crianças assassinadas enquanto tentavam ir buscar água ou caminhar para um lugar onde pudessem brincar.
«Durante meses, vi presidentes e primeiros-ministros hesitarem em apelar a um cessar-fogo que a maior parte do seu eleitorado apoia, por receio de que tentar pôr fim a um genocídio se possa revelar, de alguma forma, politicamente desvantajoso. Durante meses, observei este vazio moral absoluto, que, de forma tão clara a indisfarçada, parece muitas vezes muito mais insidioso do que o apoio activo a este horror.» (pg.138)
O argumento do Hamas – da violência do seu ataque em Outubro de 2023 e de outros ataques anteriores – vai sendo apresentado pelo governo de Benjamin Netanyahu e pelos seus apoiantes nacionais e internacionais como justificação para tudo, mas é cada vez mais difícil aceitar de forma honesta que um atentado terrorista levado a cabo por um grupo seja justificação para todos os actos igualmente terroristas, e a uma escala infinitamente superior em termos de impacto e destruição, com a agravante de estes serem perpetrados por um governo, que se seguiram por parte do exército israelita. E, como explica Omar El Akkad, esse argumento perde efeito quando olhamos para a cronologia e a única forma de perceber o seu uso é confirmar que uma discriminação profunda sustenta a ideia de que as vidas palestinianas valem menos do que todas as outras:
«É de certa forma inútil notar que a maioria dos habitantes de Gaza é demasiado jovem para ter votado no Hamas nas eleições mais recentes, ou que punição colectiva de uma população civil pelas suas escolhas eleitorais seria sujeita a um padrão de escrutínio muito mais elevado se essa população não fosse um contingente de pessoas de pele escura politicamente impotente, ou que o mesmo grupo terrorista recebeu durante muito tempo apoio do governo israelita (…). Inútil porque tais actos pressupõem uma conversa ancorada em factos ou na razão, ou mesmo no mais ténue pressuposto de que as pessoas que estão a ser mortas, como as que foram mortas a 7 de Outubro, são seres humanos, e que a sua perda é uma condenação absoluta dos sistemas, dos líderes e do mundo que a permitiram.» (pg. 53)

Oriente Próximo
Alexandra Lucas Coelho
Caminho
Foi em 2007 que Oriente Próximo chegou às livrarias, reunindo histórias, observações e muito material de reportagem que Alexandra Lucas Coelho escreveu nos dois anos anteriores, em várias incursões à Palestina e a Israel. Há dois anos, depois de ter mudado tanto do que ali se regista (não sabemos se para sempre), a autora voltou a esse seu primeiro livro, devolvendo-o aos leitores e leitoras depois de uma profunda revisão e de alguns acrescentos.
Entre o tanto que mudou, uma das alterações profundas verificadas nos territórios palestinianos desde 2023 é a impossibilidade da presença de jornalistas, pelo que o que vamos sabendo sobre os ataques do exército israelita e o seu impacto diário na vida de quem ainda sobrevive está dependente dos poucos jornalistas palestinianos que permaneceram e dos actos de reportagem levados a cabo por cidadãos palestinianos que, através das redes sociais, vão registando e contando o que vêem acontecer à sua volta. Quando Oriente Próximo foi escrito, na sua primeira versão, ainda era possível a imprensa internacional entrar nesse território ocupado e agora praticamente dizimado. Sobre esta nova edição, escreve a autora:
«Termino a revisão ao voltar de um mês de reportagem na Cisjordânia Ocupada, no Estado de Israel e em Jerusalém. A Faixa de Gaza continua interdita a jornalistas de fora (com excepção dos inseridos nas forças israelitas, mediante censura), após mais de 100 dias de bombardeamentos que mataram dezenas de repórteres palestinianos. Mais de dois milhões de pessoas estão a morrer à fome, no meio de destroços e doença (incluindo cerca de 130 reféns israelitas). E o mundo continua incapaz de impôr o cessar‐fogo. Uma tragédia sem precedentes. Em Israel/Palestina, mas também para o jornalismo, para as convenções e organizações de Direitos Humanos. Para a Europa, de que estas fronteiras são filhas. Para o que significa estar vivo em conjunto. O verso de Tom Waits que em 2007 escolhi para epígrafe parece fazer mais sentido do que nunca: Maybe God himself he needs all of our help.»

Quando o Mundo Dorme
Francesca Albanese
Antígona
Tradução de Pedro Morais
O nome de Francesca Albanese não será estranho para quem tem acompanhado as notícias dos últimos anos sobre a devastação da Palestina e o genocídio que ali decorre. A relatora especial da ONU para os territórios palestinianos ocupados, cargo que desempenha desde 2022, reúne neste livro – com o subtítulo Histórias, palavras e feridas da Palestina – uma série de textos que cruzam histórias das várias pessoas que acompanhou no seu trabalho, descrições do que se passa na Palestina e reflexões sobre este processo longo a que alguns chamam conflito:
«Um conflito requer duas partes vagamente comparáveis. Israel e a Palestina não o são: um é o ocupante, a outra, a ocupada; um é o colonizador, a outra, a colonizada, posta numa condição de subalternidade estrutural e vítima de um sistema de controlo e segregação. Não, não é um conflito: no máximo, pode ser visto como um conflito contra a Humanidade.» (pg.77)
Uma das pessoas a quem Albanese dá voz é o médico palestiniano, naturalizado britânico, Ghassan Abu-Sittah, que esteve em Gaza no primeiro mês desta nova ofensiva israelita, entre Outubro e Novembro de 2023. Ghassan descreve o que acontece em Gaza como um genocídio, em sombra para dúvidas, e defende que o governo israelita é uma parte desse processo, mas não a totalidade: «Israel é apenas a ponta visível, mas o resto do icebergue – que de Gaza não se vê tão claramente – é todo o aparelho que possibilita o genocídio: a BBC, a CNN, o Washington Post, o Wall Street Journal, as organizações que o apoiam.» (pg.156) Falando de um projecto imperialista na região do Médio Oriente, onde várias potências ocidentais têm interesses económicos a proteger, o médico descreve assim o cenário internacional no que toca à Palestina: