Destaque Andreia Brites

2020: seis livrarias infanto-juvenis em balanço

Com a pandemia, o confinamento, a interrupção das aulas presenciais entre março e o final do ano lectivo e a crise económica, o setor do livro fez notar as suas dificuldades. A abrir 2021 e com o regresso do confinamento a Blimunda pediu a seis livreiros de livrarias infanto-juvenis independentes que fizessem um balanço.

Do seu testemunho ressalta a aposta no online com resultados surpreendentes, uma resiliência e criatividade na forma de chegar ao público, as desigualdades do mercado e ainda a afirmação de catálogos diversos e esteticamente desafiantes. Quanto à geografia, pouco importa: seja em Santarém, em Aveiro, em Sintra, Lisboa ou Coimbra, nestas livrarias cruzam-se comunidades locais e globais.

Aqui há Gato

A livraria Aqui há Gato abriu portas em Santarém, em 2007. É, das seis livrarias que contactámos, a mais antiga. Sofia Vieira contextualiza o espaço numa história anterior à pandemia provocada pela COVID 19: “Até Março de 2020 o Aqui Há Gato foi um espaço cultural em Santarém, uma livraria infantil e independente (mais outra grande luta neste país) onde as crianças eram convidadas a despertar para a literatura, imaginação e arte, onde foram criativas, curiosas e confiantes! Com uma programação anual na livraria, aos Sábados realizava-se a Hora do Conto ou Teatro às 11h30, e as oficinas de Arte às 12h00. Também os bebés não eram esquecidos. Realizávamos sessões de pintura ou de música, e histórias destinadas a eles. Mas o Aqui Há Gato queria espalhar mais magia e levava sessões temáticas e artísticas a escolas, bibliotecas, teatros.” A livraria alimentava-se de uma estreita relação com o público que a frequentava, das atividades que promovia e de uma oferta criteriosa de títulos.

“Foi sempre difícil, desde o primeiro dia em que abrimos portas. Foi sempre uma luta para viver/sobreviver com a venda do livro presencial e por isso era fundamental procurar sempre livros diferentes, únicos, especiais… livros com autores e ilustradores que merecem ser conhecidos, divulgados e acarinhados pelas livrarias que recebem e cuidam do seu tesouro. Livros que são apresentados ao cliente com o valor que merecem, despertando para novas ilustrações, novos conteúdos.”

A venda online não era uma aposta e tudo dependia das relações de proximidade, nomeadamente com as famílias que participavam na programação regular e que se tornaram clientes fiéis em busca de qualidade e de conselhos. Com a pandemia e o fechar de portas a livraria teve de repensar o seu modo de chegar a esse público e de manter uma relação tão próxima quanto possível, apesar dos profundos constrangimentos. Aconteceu então o que era inevitável e que resultou no caminho trilhado por quase todos os livreiros com quem a Blimunda falou: era imperativo apostar no online. E o resultado foi surpreendente.

“No dia 14 de Março, quando todos ficaram em casa, o Aqui Há Gato ficou com a sala das histórias vazia, a sala da oficina vazia e a livraria com muitos livros nas prateleiras à espera de serem abertos para ganharem vida… e assim foi. Sabíamos que era importante dar o melhor de nós, e se o melhor de nós era contar histórias, assim fizemos, todos os dias nas redes sociais, até junho! Estávamos sozinhos perante dois telemóveis, mas rapidamente percebemos que havia muitos olhos a brilhar do outro lado, ansiosos por ouvir histórias que aquecessem o coração…

Além de quererem ouvir as histórias, as pessoas também queriam que o livro estivesse na sua casa, e as vendas online foram-nos sustentando durante meses a fio. Se alguém dissesse que era possível nós éramos os primeiros a duvidar! Foi um pequeno grande milagre que vivemos. Atualmente, continuamos com as nossas sessões presenciais (histórias, teatros, oficinas) canceladas, mas a nível digital (facebook, instagram, youtube, loja online) muito ativos! Falta-nos ver ao vivo a alegria das crianças nas nossas oficinas de arte, mas isso por agora não é possível. Tentamos reinventar-nos, sempre, a toda a hora.”

O retorno foi mensurável não apenas pela sustentabilidade (periclitante) da livraria, mas muito pelo número de pessoas que aderiram às propostas online e que passaram a seguir a livraria nas redes sociais. O seu alcance cresceu e foi possível verificá-lo quando se reabriram portas, no final do primeiro confinamento e o público regressou para comprar livros e visitar o espaço. Principalmente durante os meses de verão acorreram ali pessoas de vários pontos do país e até do estrangeiro que tinham tomado contacto com o projecto através do instagram, do facebook ou do youtube. “Apesar de tudo, o público que já nos conhecia e o público que nos descobriu recentemente e nos segue nas redes sociais tem sido muito generoso, muito companheiro e muito curioso para conhecer livros novos.”

A aposta para 2021 é continuar sem desanimar. Continuar a mostrar online tudo o que o Aqui Há Gato tem para oferecer, quer ao nível de novidades, de fundos ou de programação: estreitar laços, alimentar a relação com o público e vender livros, defende a livreira Sofia Vieira.


Gigões e anantes

Francisco Vaz da Silva, fundador e livreiro da Gigões e Anantes em Aveiro, está muito apreensivo com a situação em que se encontra o sector e, em particular, com o tremendo abalo que a sua livraria tem vindo a sofrer desde que a pandemia se instalou. “Quando abrimos a Gigões & Anantes, no ano de 2012, vivia-se em Portugal uma crise social e económica tremenda. Muita gente nos perguntou se não seria demasiado arriscado abrir uma livraria com uma crise como aquela que na altura vivíamos, mas a verdade é que correu bem e fomos sempre crescendo e conseguindo levar a cabo os objectivos que nos propunhamos ano após ano e assim se passaram oito anos.”

A dinâmica da livraria funcionava dentro e fora de portas e era reconhecida por muitos como uma referência. Sempre foi cara a autores, professores, especialistas de literatura infantojuvenil, mediadores que, por a valorizarem, muitas vezes ali se encontravam em apresentações, conversas, oficinas. “Grande parte das nossas atividades e participações em eventos foram canceladas. Nós vivíamos do contacto físico/visual com os livros, das sessões que fazíamos aos domingos de manhã, workshops, apresentação de livros, contacto com os autores e os leitores, na participação em Encontros como as “Palavras Andarilhas” em Beja ou os “Caminhos de Leitura” em Pombal. Éramos visitados por pessoas de todo o país e muitos estrangeiros e tudo isso terminou em Março de 2020.”

Apesar de ter começado a vender livros online, a livraria não dispõe, até agora, de uma loja virtual e a sua programação não se transferiu para as redes sociais. “Passámos a vender livros através da internet, respondemos a telefonemas dos leitores, mas decididamente não estávamos preparados para esta realidade “covidiana”! E nada, mesmo nada, substitui um bom livreiro e uma boa livraria.”, desabafa Francisco Vaz da Silva. Inevitavelmente já está em preparação a loja online, uma necessidade premente para tentar garantir a sobrevivência do projecto. O espaço não diminuiu a oferta diversificada e de qualidade nem deixou de apostar em títulos pouco ou nada comerciais, do álbum ilustrado à banda-desenhada, do livro em português ao importado noutras línguas. São cerca de sete mil os títulos disponíveis nas prateleiras da livraria que se desejam nas mãos dos leitores, seja qual for o meio como tal acontece.

“Por isso,” deseja Francisco Vaz da Silva, “para 2021 alimenta-nos a ideia de que as coisas poderão melhorar, ainda que muito lentamente, e de que os livros e os leitores não podem morrer…”


Hipopómatos na Lua

Nazaré de Sousa é uma entusiasta. Basta seguir a página de facebook dos Hipopómatos na Lua para se perceber o dinamismo que incute aos leitores e visitantes da sua livraria e casa de chá. Nascida em 2015 nos jardins da Biblioteca Municipal de Sintra leva o nome do blogue que a sua fundadora já alimentava vorazmente com divulgação e apreciação de livros ilustrados. “Os Hipopómatos na Lua não são apenas uma livraria. Antes, uma casa onde coabitam uma pequena livraria, a nossa biblioteca privada ao serviço da comunidade, uma pequena casa de chá e uma sala de exposições, workshops e múltiplas atividades que atravessam as várias áreas artísticas. Com uma programação cultural mensal para um público alvo composto maioritariamente por famílias, é, sobretudo aos fins de semana, que estas nos visitam em maior número. Esses são, indiscutivelmente, os dias de maior volume de vendas na nossa livraria.”

Com a chegada do confinamento em Março, tudo se interrompeu. Sem público e programação presencial, os Hipopómatos reinventaram-se através das redes sociais. Assinalaram o centenário de Gianni Rodari oferecendo histórias ao telefone diariamente a quem telefonasse para o espaço. “Convidámos escritores, ilustradores, contadores de histórias, professores e famílias para gravarem a leitura de um dos contos. Assim, estivemos em casa de muitas famílias, mas também em lares, juntas de freguesia…fizemos outros workshops sobre a vida e a obra do autor.”

Nazaré de Sousa acrescenta iniciativas, como A Volta ao Mundo em 80 Casas-Livro em que se desafiaram as famílias a construir, a partir do livro Toc Toc Toc, de Anne Herbauts, o livro de sua casa para assinalar, a 2 de Abril, o Dia Internacional do Livro Infantil. Por esta via a livreira recebeu livros de famílias dos dois hemisférios, de Portugal à Argentina, de Espanha aos Estados Unidos da América. Também as oficinas de ilustração e arte por zoom realizadas por António Jorge Gonçalves, Paula Delecave, Rachel Caiano e Renata Bueno no âmbito do projeto Socorro! Tenho um artista em casa. chegaram a geografias próximas e distantes.

O público aderiu às iniciativas e manifestou o seu interesse e apoio. “«Não queremos que os Hipopómatos fechem!», esta foi uma das frases que mais ouvimos às nossas famílias e amigos de sempre. E foi graças a eles que as nossas encomendas online conheceram um significativo aumento, que as nossas vendas de postigo (neste caso, porta) subiram, que as entregas ao domicílio na área de Sintra aconteceram de forma surpreendente. Iniciativas como Adote Uma Livraria, levada a cabo pela editora Orfeu Negro, serviram igualmente para perceber os laços que nos ligam às pessoas que nos elegem como uma das suas livrarias preferidas. Independentemente do lugar físico e da distância.” A livreira destaca ainda que, durante o primeiro confinamento, se apercebeu que houve mais famílias a comprar livros, algumas um por semana e que o livro passou a ser mais valorizado.

Com a abertura, no Verão, a Hipopómatos voltou a receber os seus leitores fiéis e, tal como aconteceu com a Aqui Há Gato, novos visitantes chegaram. E tudo continuou com a normalidade possível até ao fim de 2020. O período do Natal levou mais pessoas à Hipopómatos com o desejo de comprar presentes no comércio de proximidade. Nazaré de Sousa considera que o mais positivo desta fase foi justamente “uma maior consciencialização por parte de algum público da situação difícil que as livrarias independentes atravessam e das desleais campanhas promocionais dos grandes grupos. Comprar no local é ajudar aqueles que estão todo o ano disponíveis para nos oferecer uma programação cultural que não encontramos noutros lados. Maior, mas não suficiente, refira-se.”

O balanço de 2020 não é terrífico, apesar de tudo. “Se tivéssemos de balancear 2020, em termos de volume de vendas, diríamos que não foi um ano tão negro quanto os primeiros meses indiciavam, mas ficou longe de ser um grande ano. É urgente pensar soluções para que as livrarias independentes possam atravessar o que se avizinha sem fechar portas. Esperamos que a RELI possa chamar a si um maior protagonismo, podendo personificar algo de bastante positivo nascido desta pandemia.” Também no que concerne a oferta editorial, Nazaré de Sousa congratula-se com a qualidade de muitos títulos lançados em 2020 e mantém um fundo diverso que privilegia projetos e objetos artísticos, estéticos e literários, portugueses e estrangeiros, que agradam a crianças e adultos.

Sobre as suas perspectivas para 2021, a livreira deixa um manifesto: “Gostaria de afirmar que as minhas perspetivas para 2021 são bem positivas, mas avizinha-se outro ano bem duro em que os livreiros têm de se reinventar. Sozinhos?

Que apoios governamentais se perfilam quando as casas de livros não parecem ser tratadas como agentes culturais? Ainda temos presente o indigno apoio atribuído pelo Ministério da Cultura durante o primeiro confinamento. Anunciado num primeiro momento como uma verba de 5000€, viria a ser apenas de 2000, dos quais apenas cerca de 40% são para as Livrarias. Sem um programa de apoios específicos, sem uma lei de preço fixo que seja efetivamente cumprida, corremos o risco de chegar ao final de 2021 e muitas livrarias terem fechado portas.

No tempo diferente que vivemos, é ainda mais importante mostrar ao nosso público que a disponibilidade e o carinho com que os recebemos são imutáveis. Não podemos pedir às pessoas que comprem livros todos os dias, mas podemos estar junto delas e falar-lhes de livros todos os dias. Essa é, também, a nossa missão. As sugestões, dar a conhecer livros de dentro e de fora, fazer as pessoas sentirem os livros e quererem viver dentro deles, o carinho, um chá, um café, os biscoitos… são as pequenas grandes coisas que nos fazem sentir em casa. E a livraria que frequentamos tem de ser um pouco a nossa casa, um prolongamento dela. Esta não é uma estratégia em tempo de pandemia. É o nosso lema de todos os dias que nos proporciona já cinco anos muito gratificantes.”


Baobá

A Baobá, no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, nasceu em 2016 como parte do projeto da editora Orfeu Negro. Ali, para além dos livros da editora, encontram-se títulos de qualidade, maioritariamente álbuns e livros ilustrados, quer em português, quer importados noutras línguas. A sua livreira, Ana Rita Fernandes, aconselha, sugere e ouve o seu público que, ao longo de quatro anos, se tornou cada vez mais fiel. Como acontece noutros espaços semelhantes, a programação destinada aos mais novos atraiu famílias que frequentam a livraria com regularidade. Esta nunca apostou num site nem numa loja online, as vendas virtuais aconteciam via facebook ou instagram.

Quando aconteceu o confinamento de março a livraria fechou portas. Não repôs fundos até ao desconfinamento, em Março e apostou sobretudo nas vendas e na presença online. “Intensificamos a nossa presença nas redes sociais, com dois posts diários sobre livros, insistindo sempre na possibilidade da entrega em casa, na zona da Livraria – Campo de Ourique – ou no envio por correio. Como os grandes grupos editoriais nacionais estavam na sua maioria a fazer, a partir dos seus sites, descontos extremamente agressivos, optámos por postar livros fora dos grandes grupos quando possível e livros de importação.

Intensificamos igualmente o aconselhamento de livros via redes sociais e por email, o que permite um melhor serviço porque podemos enviar imagens, sinopses, etc. Também a newsletter serviu para manter o contacto com os clientes e disponibilizar pequenas actividades.” explica Ana Rita. Com o desconfinamento, a Baobá voltou rapidamente ao normal. Repuseram-se títulos e acrescentaram-se as novidades que o mercado editorial começava a lançar em Setembro. “Pudemos voltar a ter o que procurávamos na livraria. Isto é igualmente válido para as importações.” O público também regressou, com novas caras de fora de Lisboa, mas nem por isso as vendas online e as encomendas caíram para os valores pré-confinamento. O online chegara para ficar.

No Natal a afluência à Baobá aumentou como sempre acontece, mas a livreira denota uma alteração de comportamento das pessoas: “Houve novos clientes e apercebi-me (mas creio que é transversal a todo o comércio) de uma procura deliberada de lojas de rua.” O ano cumpriu-se, mas não foi bom. Para 2021, Ana Rita partilha a estratégia definida pela equipa: “Vamos intensificar todo o trabalho que fizemos, quer a presença online, por e-mail e envios por correio, etc. E tentaremos criar eventos ou momentos em que a livraria, via redes sociais, possa estar em contacto com os clientes ou pôr os autores em contacto com o público de uma forma segura para todos.” Para a livreira, conhecer e não defraudar os seus interlocutores é o mais importante: “Há uma insistência geral na qualidade por parte do nosso público. Dito isto, nota-se uma procura por conforto, por uma história que produza bem-estar quando o público é infantil e que mude algo para o público juvenil/adulto, com uma possível saída da zona de conforto e com o contacto com temas difíceis.”


It’s a book

Joana Silva não tem uma visão catastrófica do ano 2020, no que à sua livraria diz respeito. Situada num bairro antigo de Lisboa, junto a uma das artérias mais heterogéneas da capital, a It’s a Book é um espaço pequeno, onde as paredes expõem capas de livros em várias línguas e formatos. Tudo acontece à volta da mesa que ocupa grande parte da área: das oficinas ao folhear dos livros. Apesar do confinamento, a livreira garante que os prejuízos não foram tão penosos como se supunha e, à imagem de outros livreiros, assume que o online, mais do que o negócio, salvou o espírito da It’s a Book.

“No nosso caso, o grande impacto foi essencialmente na programação da livraria. Habituados a ter casa cheia, quase todos os fins de semana, com Oficinas e eventos tivemos que repensar o formato da programação. Ao repensar a programação encontrámos algumas soluções interessantes, que se calhar antes não teríamos experimentado, como a entrevista live que fizemos com o ilustrador Bernardo P. Carvalho, no contexto da Mostra Making Of do livro Desvio, ou a Oficina Portátil dinamizada pela ilustradora Maria Remédio.”

A presença nas redes sociais, nomeadamente no facebook e no instagram, assim como o incremento da loja online, contribuiu largamente para que se mantivesse uma estreita relação com o público durante o confinamento. “As vendas online aumentaram, muitos clientes procuraram a nossa loja não só para encomendar livros, como também para fazer pré-selecções antes de visitar a livraria. As visitas à livraria foram retomadas, progressivamente, com o tempo. E mesmo sem programação a livraria voltou a ser um local de passagem e uma “sala de estar” para as pessoas do bairro.” Para isso terá contribuído a oferta diversificada de qualidade, os livros objeto, os livros jogo, os álbuns ilustrados em português e importados que a It’s a Book continuou a disponibilizar na sua loja e a partilhar nas redes sociais, mesmo num período em que o mercado editorial estava praticamente parado, na primavera de 2020.

Joana Silva traça uma cronologia do comportamento do público ao longo do ano: “Houve diferentes momentos. No primeiro confinamento, houve uma procura de livros mais interactivos e de actividades. Para ajudar os pais a criar diferentes estímulos aos filhos enquanto estavam fechados em casa. Nesse momento, para além dos clientes habituais, chegámos a um novo público que ficou mais atento ao online. Nos meses seguintes foi um misto. A procura foi muito variada, como sempre foi, não houve mudanças nesse sentido. O que sentimos muito, de um modo geral, foi a sensibilização do público para o apoio a projectos de que gosta e também a preferência por negócios mais pequenos em alternativa às grandes superfícies. Foi muito bom sentir esse carinho por parte dos clientes e amigos.”

Por isso, para 2021 a livreira deseja continuar o projeto nos mesmos moldes com que o vem alimentando desde o seu nascimento, em dezembro de 2016: “Queremos continuar a fazer aquilo de que mais gostamos, trabalhar com livros! Dar a conhecê-los a cada vez mais crianças e adultos. Continuar a descobri-los, a pensar sobre eles, numa constante aprendizagem e adaptação aos tempos que vivemos.”


Faz de Conto

Há montras e montras e uma montra pode ser valiosa. Na Faz de Conto, o vidro que separa a livraria do Parque Verde do Mondego, ao abrigo do Exploratório de Ciência Viva, convida a ver e a explorar, em plena coerência com o meio envolvente. Aberta há três anos, esta livraria especializada em álbuns ilustrados e livros de recepção infanto-juvenil, tem vindo a desenvolver um estreito trabalho de comunicação com o público que ali vai acorrendo, sem nunca ter desmerecido o contacto com o potencial leitor que chega aos livros e à programação da livraria através do online.

Sofia Correia explica à Blimunda que “a Faz de Conto sempre deu muita importância ao meio digital. Desde o início, em novembro de 2017, que apostamos nas redes sociais para divulgar os livros que selecionamos e os eventos que dinamizamos. Em 2020, necessitamos investir ainda mais da nossa energia na divulgação e nas vendas online. Antes de 2020, as vendas online eram realizadas principalmente através do Facebook e do Instagram. No ano que passou, desenvolvemos uma livraria online, que permitiu criar uma plataforma para os fãs da Faz de Conto terem os livros mais fácil e rapidamente.”

Essa foi uma das principais estratégias para contrariar o confinamento, em Março de 2020, e a quebra do volume de vendas no local. A livreira acrescenta que as Bibliotecas Públicas também estiveram grande parte do ano sem comprar livros para os seus catálogos. Quando o fizeram, no último terço de 2020, os volumes de encomendas ficaram aquém de anos anteriores, o que resultou num emagrecimento ainda maior de receitas da livraria. Era preciso ser criativo: “A pandemia proporcionou a oportunidade de nos reinventarmos e de apresentarmos os livros e o trabalho da Faz de Conto de forma diferente. Para ultrapassar a impossibilidade de as pessoas nos visitarem na livraria física para escolherem os livros, criámos uma estratégia de comunicação através do Instagram, Facebook e Youtube, onde, para além de divulgarmos títulos e autores, contamos histórias, conversamos e fizemos visitas virtuais à livraria.”

Aproveitando o facto da Faz de Conto se encontrar num jardim, recebendo mais pessoas a fazer passeios higiénicos e exercício, fizemos uma vitrine temática na livraria, na montra virada para a rua, que promovia a compra através dos nossos meios online e a entrega gratuita ao domicílio, em Coimbra. A meio do ano, lançamos a livraria online com os livros mais procurados da nossa seleção, dando mais espaço a autores portugueses e pequenas editoras.

Para além dos livros, focamo-nos também em um novo serviço – “Faz de conta que sou livreiro”, inédito em Portugal, no qual oferecemos a oportunidade de experienciar como é o dia-a-dia numa livraria independente e tornar-se num livreiro faz-de-conta por um dia.”

Apesar de algumas dificuldades criadas com a paralisação de editoras e outros fornecedores durante o confinamento, a Faz de Conto continuou a apostar na diversidade do catálogo e na procura por livros de autor e de pequenas editoras portuguesas. Assim, a sua oferta ia ao encontro não apenas de famílias como de adultos colecionadores que se mantiveram fiéis ao projecto depois do confinamento, como explica a livreira: “Na livraria física, o público principal continuou a ser famílias de Coimbra com filhos pequenos, apesar de termos recebido muitas visitas de fora, de propósito para conhecer a livraria, principalmente durante o período do verão. No espaço online, para além do número de famílias, cresceu também o número de colecionadores de livros ilustrados e mecânicos.”

Por isso, a aposta no online continuará durante 2021, em que se prevê que a Faz de Conto inicie a produção de conteúdos na plataforma Patreon e mantenha a comunicação nas redes sociais que alimentam essa rede de proximidade com leitores de geografias muito distintas. Sem nunca descurar a relação com a comunidade local que frequenta a livraria e lhe devolverá uma vida física, quando for possível.


Títulos

Aqui há Gato

Foram vários os títulos que marcaram o ano 2020, mas salientamos a coleção «Não Abras este Livro», «Vamos à caça do urso», «Posso espreitar a tua fralda?»… mas faltam tantos outros… e no futuro virão mais!

Gigões

Os livros mais vendidos na nossa livraria são sempre aqueles que são diferentes e que sobressaem daquilo que é a oferta habitual da maior parte das livrarias que trabalham na área do livro ilustrado.

Hipopómatos

«Espera, Miyuki», «O que Vamos Construir», «Grandes Amigos», «És Importante», «Endireita-te», da editora Orfeu Negro.

«Oliver Buttom é Uma Menina», «O Bolero de Ravel», «Um Bolo Para o Lanche», «Caça-Olhares», «Contos ao Telefone», «Era Duas Vezes o Barão Lambert», da editora Kalandraka.

«Desvio», «Menino, Menina», «Gosto, Logo Existo», da editora Planeta Tangerina.

«Pergunta ao Teu Pai», «Gatálogo», da editora Bruaá.

«A Alma Perdida», «Os Vizinhos», «Jaime é Uma Sereia», «Olá Farol», da editora Fábula.

«Eu Vou Ser», «1º Direito», da editora Pato Lógico.

«Coração de Pássaro», «Debaixo das Pedras», «A Praia dos Inúteis», da Akiara editora.

«O Menino», «A Toupeira, a Raposa e o Cavalo», da Suma de Letras.

«O Muro no Meio do Livro», da Nuvem de Letras.

Baobá

Aqui Estamos Nós do Oliver Jeffers, Orfeu Negro.

Os Vizinhos da Einat Tsarfati, Fábula.

A colecção Akiparla da editora Akiara.

Nas importações, além dos livros da Tara Books este:

Migrants, da Issa Watanabe. Este é um livro muito bonito, mas nunca esperei vender o que vendi.

It’s a book

Os livros mais vendidos tendem a ser as novidades. Uma das novidades mais vendidas, que podemos destacar foi o livro Gosto, Logo Existo da Editora Planeta Tangerina, que num ano onde o online ganhou ainda mais espaço nas nossas vidas, questiona o papel das redes sociais assim como as fontes de informação daquilo que consumimos. Não havia ano melhor para acolher este livro e ficamos muito contentes que tenha tido tanta adesão por parte dos jovens e adultos. 

Não sabemos se teve relação direta com a situação actual mas houve também uma maior procura por livros noutras línguas e também por livros mais invulgares, diferentes do habitual livro infantil. O que nos agradou.

Faz de Conto

Em casa, edição de autor de Casa Nic e Inês.

Era uma vez um cão, da editora Tcharan, com texto de Adélia Carvalho e ilustração de João Vaz de Carvalho.

Abelha, da editora Orfeu mini, com texto de Kirsten Hall e ilustração de Isabelle Arsenault.