Casa da Andrea Andrea Zamorano
© Filip Mroz, unsplash

Vida de novela

Depois do trabalho, Carla preparava o jantar. Já não esperava o marido para comerem juntos embora servisse e guardasse o prato dele no micro-ondas todas as noites. Carla comia com os filhos. Os rapazes sendo rapazes implicavam um com outro à mesa, faziam troça de tudo e riam-se de coisa nenhuma. Carla pedia para aumentarem o volume da televisão, ia prestando atenção nas notícias enquanto perguntava sobre as dificuldades com os problemas de matemática. Os moços desviavam a conversa, falavam do professor de inglês que estava sempre a faltar e sobre a professora de português que perseguia o mais novo, o pobre não podia dizer nada, a professora caia matando, asseveravam os dois. Carla endossou as queixas dos rapazes, não estava certo. Assim que desse, pediria uma manhã ao patrão para ir conversar com a diretora da escola.

Enquanto arrumava a cozinha, colocou uma máquina de roupa para lavar, depois passou uma vassoura em tudo e deu um jeitinho na sala pois a novela estava prestes a começar. Os meninos trouxeram os cadernos e os livros, sentavam-se no chão e utilizavam a mesa de centro da sala para terminarem as tarefas. Ela montou a tábua de passar ali ao lado, colocou a roupa que acabara de recolher do varal na poltrona, encheu um borrifador com água e juntou uma colher de vinagre, amaciava e nem deixava cheiro, aprendeu com a sua mãe. A novela começou:

Gilberto tudo faria pelo amor de Juliana que julgou estar morta. Menosprezada pela família do belo e rico noivo, Juliana sempre acreditou ter sido abandonada por Gilberto sem saber que fora enganada pelos familiares dele. Rejeitada e grávida, criou o filho dos dois em segredo, privando-o dos seus direitos. Sim, o filho de Juliana tem direitos, Carla exclamava na sala ao vincar a manga da camisa do uniforme do marido.

Juliana estava prestes a ser confrontada com a crueldade da família de Gilberto quando a porta abriu-se. O marido de Carla chegou em casa. Os meninos recolheram os materiais escolares e foram para o quarto. Carla pousou o ferro, olhou para o esposo no sofá, ele esticou as pernas e apoiou os sapatos na mesa de centro onde pouco antes os filhos faziam os deveres. Mudou de canal, não tem nada de jeito na televisão, afirmou. Perguntou o que era jantar. Ela ligou o micro-ondas, esperava olhando para os números verdes no aparelho em contagem regressiva: 

00:52   — O mesmo de ontem! Exclamou ele, referindo-se à comida.

00:49   — O filho de uma colega adoeceu, ela saiu cedo. Fiz uma horinha a mais no caixa e cheguei em cima do jantar dos meninos, explicou Carla.

00:41   — E o que eu tenho a ver com isso? Retrucou o marido.

00:35   — Também não tem nada de mais aproveitar o que sobrou.

00:30   — Já comi essa merda ontem e vou repetir hoje?

00:20   — Não está satisfeito? Pode fazer um ovo estrelado.

Assim que disparou as palavras, a boca de Carla se contraiu, os lábios se colaram, desapareceram dentro do seu rosto empalidecido. O marido ergueu as pernas levantando-se do sofá num só movimento, deu um puxão no fio arrancando a tomada da parede, trouxe o ferro de passar ainda quente até à porta da cozinha e indagou Carla:  

00:05   — Faço o quê?

Carla foi preparar mais outro jantar para o marido que não comeriam juntos. Enquanto cozinhava, pensava em Juliana: Mesmo que Gilberto voltasse, coberto de ouro, ela que não o aceitasse. Exigisse os direitos do filho, os filhos têm de ser protegidos, mas continuasse o seu caminho pois a vida não se compadecia como numa novela de televisão.