Crítica Sara Figueiredo Costa

Um pícaro às voltas com a censura

O Processo Kissinger
Maurice Girodias
Montag
Tradução de Casimiro da Piedade

A história da edição de livros está cheia de episódios memoráveis, umas vezes heróicos, outras tantas trágicos. Alguns desses episódios pareceriam inverosímeis se os lêssemos num romance e só a descrição dos factos nos coloca no plano devido, o do registo histórico de uma actividade de muitos modos transversal e absolutamente essencial para entendermos tudo o resto – cultura, sociedade, acontecimentos históricos. O Processo Kissinger, pequeno livro que a Montag publicou no ano passado, é mais uma entrada possível no imenso labirinto narrativo de que se faz essa história.

Maurice Girodias foi o criador das Éditions du Chêne e, mais tarde da Olympia Press, editora que, em França e em língua inglesa, publicou autores como Samuel Beckett, William Burroughs ou Vladimir Nabokov. A esses autores e a vários outros que traduziu do francês, como Sade, Raymond Queneau ou Jean Genet, juntou uma série de romances eróticos de qualidade duvidosa, que terão ajudado a cimentar os casos de censura que foi coleccionando entre tribunais e acusações de prisão.

A história do editor Maurice Girodias é também a das casas editoras na segunda metade do século XX, das relações financeiras que mantinham e da importância que tantos livros assumiam na opinião pública.

No final dos anos 60, Girodias muda-se para Nova Iorque e ali desenvolve o trabalho da sua editora, agora na sucursal norte-americana. Inside Scientology, publicado em 1972, volta a trazer-lhe problemas com a justiça, desta vez pela exposição de certas relações promíscuas entre a estrutura da cientologia, a finança e o poder.

O percurso de Maurice Girodias contado pelo próprio é um deleite de leitura. O modo simultaneamente galvanizador e desencantado como se vê, a si ao seu percurso profissional, resultam num texto cujo narrador merecia, com toda a justiça literária, ser personagem principal num romance pícaro de contornos trágicos: «A ideia de uma segunda guerra mundial arrasou-o [referência ao pai, Jack Kahane, fundador da Obelisk Press], e suicidou-se bebendo uma garrafa de conhaque inteira a 3 de Setembro de 1939. Em 1941, tendo permanecido em Paris em condições quase impossíveis, fundei sem capital as Éditions du Chêne, cujo sucesso foi milagroso. Não tinha qualquer experiência, estava apaixonado, era vegetariano e acreditava na teosofia: tinha vinte e dois anos e vivia num sonho.» (pg.43)

Este texto começa, no entanto, pelo momento em que Maurice Girodias, instalado na sua banheira nova-iorquina, se lembra de criar um livro de ficção onde Henry Kissinger, Secretário de Estado e confidente de Richard Nixon, seria candidato à presidência dos Estados Unidos da América. E venceria. Quando a história se adentra no plano alucinado de publicar esse romance, torna-se clara a materialização de uma censura muito mais sofisticada do que aquela que se assume enquanto tal. Perseguido pela polícia com o pretexto de estar ilegalmente nos EUA (estava-o, de facto), rapidamente terá um cerco montado à sua volta, acabando por ser acusado de posse de droga (situação que terá sido encenada) e expulso do país, de regresso a França. O livro Presidente Kissinger, entretanto impresso e pronto a distribuir, ficará longe das livrarias, porque o cerco não se limitou a apanhar Girodias e cumpriu a sua missão de impedir a divulgação da sua ideia alucinada – e, aparentemente, sentida como perigosa por parte de certos poderes, mais ou menos institucionais – nascida na banheira.

Aquilo que se lê como uma operação de silenciamento que decorre em torno de uma figura talhada para a persistência, tanto como para as contradições e a desgraça, é também um registo muito relevante do funcionamento das casas editoras na segunda metade do século XX, das relações financeiras que mantinham, claramente ou não, com certas instituições ou patrocinadores, da importância que tantos livros de impressão barata assumiam no alimentar de um mercado pujante e do impacto que alguns desses livros tinham na chamada opinião pública. Ao texto principal assinado por Maurice Girodias junta-se nesta edição um texto de Joaquim Vital, o português que fundou em Paris as Éditions de La Différence, e que foi amigo e editor de Girodias, retirado do livro Adieu à quelques personnages. E como é habitual nos livros da Montag, inclui-se uma pequena lista bibliográfica e iconográfica muito útil para localizar os vários documentos disponíveis sobre este caso.