Crítica Sara Figueiredo Costa

Sonhar o futuro a oriente

Cidades do Sol
Paulo Moura
Objectiva

As utopias, tal como as conhecemos, foram moldadas pelos ideais renascentistas do Ocidente e acrescentadas, ao longo dos séculos, pelas novas ideias buriladas pelo tempo. Thomas Morus ou Tommaso Campanella foram beber a Platão parte do desenho mental e físico das utopias que criaram e os seus sucessores mantiveram a tradição em movimento, actualizando-a à medida das aspirações de cada época e de cada geografia. Hoje, encerrado o século XX que viu as propostas utópicas e os seus reversos práticos estatelarem-se sem amparo, parece difícil falar em utopia quando enfrentamos o futuro, mas talvez não seja ainda tempo de dizer que não há espaço para tais projectos. Sobretudo, talvez possamos mudar de geografia e procurar os mesmos gestos de esperança no futuro noutros espaços, construídos sobre aquilo que parece ser uma ideia – ou várias – de comunidade e da sua organização urbanística, política e económica.

Movido pela curiosidade sobre que tipo de utopias estarão a crescer nas grandes metrópoles asiáticas, o repórter Paulo Moura esteve em várias cidades orientais, procurando sonhos e projectos de futuro entre o crescimento urbanístico, a afirmação de uma nova classe média e uma mudança que parece sem retorno do campo para a cidade. O resultado dessas viagens é este Cidades do Sol, um roteiro feito de vários percursos por espaços, heranças históricas e visões de futuro muito diferentes.

O ponto de partida era a constatação do surgimento de uma nova classe média na Ásia, formada por centenas de milhões de pessoas que passaram a ter poder de compra não apenas para assegurar as suas necessidades básicas, mas igualmente para consumir outros produtos e para pagar o usufruto de manifestações culturais, viagens, lazer.

Com a cidade claramente assumida e vivida como símbolo de um novo modo de existir, Paulo Moura queria descobrir com que sonha essa classe média que habita as enormes áreas urbanas, os arranha-céus, os centros comerciais que mimetizam a própria cidade onde se erguem, aparentemente oferecendo entre as suas quatro paredes tudo aquilo que a urbe poderia oferecer.

Será em Manila, nas Filipinas, que o repórter enfrentará uma reflexão sobre a classe média que não se compadece com a ideia de utopia tal como a entendemos de modo imediato, quando o sociólogo Randy David afirma que essa classe «é a base social de todos os fascismos», explicando que Rodrigo Duterte, primeiro-ministro filipino, foi eleito pela maioria da população e continua a ter o seu apoio apesar de todas as medidas que tem tomado. Nessa conversa com David, Paulo Moura registará o seguinte: «Tudo o que as classes médias emergentes querem dos políticos é paz, estabilidade, segurança e alguma (mesmo que fingida) repressão das elites. Querem fazer com que a sua vida cresça sem obstáculos e não perder tempo com mais nada. Duterte personifica tudo isso e, nesse sentido, foi um percursor de fenómenos como Trump e Bolsonaro.» (pg.110)

Antes de Manila, o repórter passa por Bangalore, Jacarta e Saigão, sempre atento às particularidades de cada cidade e ao contexto histórico e cultural em que esses espaços se desenvolveram. Seguem-se Seul, um périplo por quatro cidades da China continental (Shenzhen, Pequim, Shanghai e Chongqing) e Hong Kong. Não há generalizações em Cidades do Sol e mesmo a procura da utopia, dos sonhos e das características da classe média emergente, impulsos para a viagem e para a escrita, assumem sem resistir que cada cidade tem a sua própria identidade. Todavia, não deixa de haver alguns traços comuns que distinguirão o processo de expansão urbanístico a Oriente, por comparação com o Ocidente:

«Na Ásia, as cidades simplesmente crescem. É verdade que nascem novos bairros, para os ricos, ou novas zonas de comércio e serviços. Mas dificilmente o crescimento fica circunscrito ou obedece a directivas. Acontece por todo o lado. Não há áreas poupadas ou sequer proibidas. As cidades alargam e incham, enchem-se de gente, de carros, de fumo e de barulho.» (pg. 34)

O modo como se habitam esses espaços em constante crescimento, esse vai mudando de cidade para cidade, bem como os conceitos de classe média, ascensão social ou pobreza – em Bangalore, quando Paulo Moura entrevista o rapper Brodha V, explica a dada altura que o termo classe média baixa, na Índia, designa os pobres que não são miseráveis. Percebe-se que parte desta classe em ascensão trabalha em call-centers de grandes empresas multinacionais, ou em fábricas das mesmas empresas, mas é difícil generalizar conceitos que descrevam a realidade social quando essa mesma realidade diverge tanto de país para país, e até dentro das regiões de um mesmo país.

É nesta pluralidade de contextos que o repórter vai encontrando, ao longo da viagem, alguns assomos de utopias que parecem partilhar características, pelo menos no modo de se enunciarem. Em Jacarta, o professor Ferry Hidayat fala-lhe da Filosofia Indonésia, «mistura de sabedoria tradicional das ilhas indonésias com budismo, hinduísmo, sufismo persa, Islão e cultura ocidental» (pg.70). Em Seul, Seok-Hyun Hong, presidente do maior grupo de media da Coreia do Sul, desvenda os contornos da Onda Coreana, uma espécie de ideologia baseada na tradição budista e confucionista e profundamente marcada pelas peculiaridades da etiqueta social e do modo de relacionamento praticado pelos coreanos, tudo harmoniosamente vocacionado para cruzar empreendedorismo, justiça e igualdade. Já na China, o Chinese Dream apregoado pelo presidente Xi Jingping, que convoca um conceito de harmonia suficientemente vago para se aplicar a quase tudo e que assenta na ideia de ascensão social a partir do trabalho, cumpre o desígnio utópico de um modo mais impositivo, espalhando-se como propaganda em todas as apresentações públicas de empreendimentos governamentais chineses. E se as propostas indonésia e coreana se colocam no espaço da filosofia, apresentando-se como conjuntos de valores potencialmente aplicáveis em qualquer geografia, o Chinese Dream é um exclusivo chinês, como explica o repórter depois de o comparar ao American Dream:

«Só está disponível para os chineses. Ninguém pode abraçar um determinado estilo de vida e, por isso, tornar-se chinês. Nós não podemos sonhar o Chinese Dream.» (pg.161)

Cidades do Sol é um livro de viagens, no sentido em que regista um percurso, ou vários percursos – o físico, certamente, entre ruas, transportes, edifícios, mas também as perguntas e a curiosidade que o antecederam e os pensamentos que o vão acompanhando, nascendo de cada novo espaço visitado, de cada conversa com habitantes das cidades, de todos os momentos solitários que permitem experimentar a metrópole como quem nela vive, ainda que por pouco tempo. É precisamente com essa postura que Paulo Moura encerra o livro e chega a Hong Kong, cidade que nunca antes tinha visitado, embatendo com a realidade de um domingo nas ruas da grande cidade, povoadas, neste dia de folga, pelos milhares de empregadas domésticas com origem Indonésia ou Filipina que asseguram – quase sempre a troco de muito pouco dinheiro, nenhuns direitos laborais e demasiadas horas de trabalho – os sonhos individuais da classe média alta local. Depois de falar com algumas dessas mulheres e de deambular por outros espaços da enorme metrópole, ela própria uma sobreposição de contextos, urbanismos e modos de existência muito diferentes (alguns deles referidos neste livro), afirma a sua pertença àquele lugar:

«A partir de agora, eu vivia em Hong Kong. A partir do momento em que visitamos uma cidade, de alguma forma, elegemo-la, passamos a habitá-la. Não é preciso permanecer. A cidade passa a integrar o nosso mundo, formado por várias cidades, ou pedaços delas, lugares que amamos por alguma razão.» (pg.257)

Apesar da claustrofobia que descreve em relação ao território, cercado de água e fechado, a norte, pela fronteira com a China continental, e apesar das muitas complexidades políticas e sociais que aborda neste capítulo, das manifestações dos últimos anos (ainda não as mais recentes, posteriores ao livro) ao desaparecimento de algumas marcas identitárias da cidade e dos seus espaços, o repórter parece ter encontrado em Hong Kong um lugar que espelha, de modo desorganizado e em milhares de pequenas refracções, cada qual com a sua própria realidade física – e talvez metafísica –, a sobreposição de múltiplas realidades naquilo a que chamamos Ásia. Mesmo que fiquemos pelas cidades, um continente não deixa de ser um mundo, muitos mundos. Nestas Cidades do Sol, é a vontade de conhecer e perceber esses mundos que se afirma, afinal, como herança comum da velha pólis grega que nos deu uma certa ideia de cidade e que alimentou muitas utopias. Que essa ideia tenha crescido em direcções tão diferentes, acrescentada de outras ideias, modos de viver e de definir o espaço, heranças históricas, e que agora se expanda, por vezes de modo descontrolado, do outro lado do mundo, é um episódio da nossa história comum a que temos o privilégio de assistir.