Crítica Sara Figueiredo Costa 26 Setembro 2023

Sem saída

Shy
Max Porter
Elsinore
Tradução de Manuel Alberto Vieira

Não há grandes esperanças no início deste romance. É de noite e há um rapaz com uma mochila cheia de pedras às costas, caminhando sozinho em direcção a um lago. Não é um Vergílio pronto para conduzir visitas seguras ao inferno, porque Shy há muito que vive abaixo dos círculos de onde ainda se pode sair e já não está interessado em procurar atalhos. Parte desse inferno chama-se Last Chance, o lar de acolhimento para crianças e jovens considerados problemáticos, e é lá que Shy vive, apesar de ter família. Deixando de lado a ironia do nome, o próprio Last Chance carrega a sua condenação, esperando que o avanço da especulação imobiliária em terras inglesas marque a data em que o edifício despejará os jovens para acolher gente abastada e desejosa de se instalar em apartamentos de charme, naturalmente renovados com os melhores acabamentos.

Resumir a trama diz pouco sobre o romance. Não é o lar, a especulação ou sequer a caminhada deste rapaz para o lago que lhe dão estrutura, mas antes uma espécie de devastação, material e emocional: dos residentes do Last Chance, da família de Shy, da terapeuta que o acompanha, das raparigas com quem se deita, dos colegas com quem dança e se droga, dos rufias em quem bate e de quem apanha, de si próprio, sem perceber que raio de lugar pode ocupar no mundo ou se isso é, sequer, algo concedido pela existência. Shy é uma narrativa dura – em bom rigor, é dolorosa e desconfortável –, que nos coloca no âmago de uma vida dominada por condicionantes sociais e familiares que comprovam não ter saída. Não é que não tenham saída em absoluto, mas os absolutos e as boas intenções sobre esperanças universais nunca redimiram ninguém. Falta a família, o Estado, a providência, talvez algum equilíbrio no mundo. Ao longo destas páginas, não sabemos se os abalos mentais que atingem a personagem são causa ou consequência do caos em que vive, mas suspeitamos. É pouco provável que alguém nasça com tanta raiva acumulada, tanto desespero, tanta decepção.

Shy é também o ritmo, rigorosamente medido como a taquicardia que anuncia o enfarte, mas com ecos da música dançável que o personagem escuta – nos auscultadores, enquanto olha para o lago escuro, ou sempre que precisa de escapar de si próprio. Max Porter domina ambos os ritmos e transfere-os de modo eficaz para a escrita, doseando aceleração e contemplação e esgrimindo impiedosamente essa capacidade rara de fazer ouvir o caos na cabeça de um adolescente, o eco da sua curta vida marcada pelo desalento: «Ele ouve-o com precisão, dentro da cabeça, o modo como um Amen break murmura como uma onda, como se encaixa dentro de si mesmo uma e outra vez, como lhe preenche o coração, a coisa de que mais gosta quando a sua velocidade é reduzida para metade, em desleixada preguiça, bazofiando, armas de encontro ao peito, e depois se levanta de súbito, explodindo pleno de vida e seiva, perfeição matemática, liberdade plena, feita por caixas de ritmo e samples, mas mais parecendo invenção divina. (…) É claro que ele nunca diz nada disto a Shaun ou a Benny, limita-se a dizer Brutal. Fixe. Iá. Foda-se, adora este som.»  (pg.56)

Se não há grandes esperanças no início desta narrativa, também não as encontraremos mais adiante, porque Shy não é um romance para finais felizes, tudo resolvido e enfim em paz. Ainda assim, há alguma redenção nesta história, mesmo que fique a desconfiança de que será coisa momentânea. «A memória é camuflada por outras merdas desprezíveis» (pg.20), escreve-se ainda perto do início. É uma linha que Porter vai puxando com mestria, encenando presentes à medida que a narrativa avança e fazendo deles passados que se afundam rapidamente. A redenção, às vezes, pode ser só o gesto que fazemos para evitar que um fundo movediço nos engula de vez. Não é a mensagem de optimismo que ajuda a vender histórias – e a fazê-las mais tontas, tantas vezes –, mas é o osso e a linfa de um romance grandioso, mesmo que seja, ou talvez porque é, um alçapão aonde nunca chegarão escadas, ainda que lá vá chegando alguma luz.

→ penguinlivros.pt