
Sem Limites, Sem Vergonha
May Ayim
Orfeu Negro
Tradução de Gilda Lopes Encarnação
Mai Ayim foi uma das figuras centrais do movimento negro na Alemanha e este livro, publicado já depois da sua morte, reúne os ensaios que escreveu, as entrevistas que deu e vários dos discursos que proferiu, compondo um importante percurso pela vida, pela obra e sobretudo pelo pensamento e a acção da sua autora. Por outro lado, Sem Limites, Sem Vergonha é também um retrato duro sobre o racismo e a exclusão na Alemanha pós-queda do muro e um registo muito relevante daquilo que foi o avanço no reconhecimento de certos direitos que não teria acontecido sem a acção de Ayim e de outras activistas. Um excerto:
«Esta clivagem entre pertencer ou não pertencer a algo ou a alguém, entre a minha pessoa e a «minha» família adoptiva, entre a minha pessoa e a minha «família» africana encontra-se também simbolicamente representada no paradoxo que é ser uma pessoa de pele escura e possuir, ao mesmo tempo, um passaporte alemão. Na realidade, não precisaríamos nem deveríamos dar nenhuma importância a aspectos meramente formais e exteriores. No entanto, foi somente durante o fim-de-semana do congresso que me dei realmente conta do significado que a aparente incompatibilidade entre cor de pele e nacionalidade transporta para o plano da descoberta da minha identidade, tendo eu crescido numa sociedade que dá a maior importância a aspectos exteriores que se destacam ou destoam: a minha socialização correspondeu à de uma jovem «alemã» num ambiente alemão (a minha família nunca teve, nem tem, contacto com pessoas estrangeiras). Possuo um nome alemão e, graças ao meu passaporte alemão, «desfruto» dos privilégios que uma alemã detém na qualidade de «cidadã nacional». Não falo nenhuma língua africana, nunca estive na terra natal do meu pai, em suma, não sou estrangeira. Não faz sentido, para mim, sublinhar a minha «identidade alemã». No entanto, não é essa a percepção que as pessoas têm quando me perguntam a nacionalidade – o que, de resto, sucede com frequência. Quando lhes respondo «Nasci e cresci na Alemanha…», não é raro seguir-se a observação «Ah, mas não parece nada “alemã”!» ou «E não pensa, apesar de tudo, regressar um dia ao seu país natal?». Ou ainda: «É impossível negar as nossas origens» e «Mas não acha que fazia muito mais falta no Gana com o desemprego que já existe na Alemanha?!» Sou também obrigada a ouvir lições de moral como a seguinte: «Pode dar graças a Deus por ter sido criada no seio de uma família alemã!» Ou então resignar-me com o facto de a mulher do padeiro da esquina insistir em falar comigo num «alemão para estrangeiros», apesar de eu não cometer a menor falha gramatical nas conversas que mantenho com ela.»