O que vem à rede Sara Figueiredo Costa 27 Outubro 2026
Gio Cattuco © DR

Reclamar a língua que nos dá forma
Um canal que ensina o kimbundo a quem o queira aprender, trazendo à boleia a cultura, as questões sociais e políticas e a necessidade de reconhecer que uma língua é também política, identidade, sociedade.

Nas redes sociais, Geovany Fernandes-Cattuco é conhecido como Gio Cattuco e a sua conta tem ensinado muita gente a falar kimbundo. Para além da aprendizagem da língua, este espaço é de conhecimento, cultura e debate, porque as línguas não são apenas um veículo de comunicação.

Geovany Fernandes-Cattuco nasceu e Luanda, no bairro do Cassenda, e na sua casa de infância, a avó falava kimbundo, mesmo que os netos lhe respondessem em português, como tantas vezes acontece em contextos multilingues. Aos nove anos, mudou-se para Portugal, onde o pai já vivia, e foi aí que começou o gradual apagamento do kimbundo na sua vida, até decidir, mais tarde, já nos vintes, e depois da morte da avó, que precisava de voltar a aprender e, de algum modo, resgatar a língua da sua infância. Daí à criação do canal de Youtube foi um movimento óbvio e hoje Geovany Fernandes-Cattuco tem milhares de seguidores a aprenderem o kimbundo.

Como se lê no Bantumen, a língua que falamos, o contexto em que o fazemos e o espaço social que essa língua ocupa são questões profundamente políticas: «Durante o colonialismo português, o domínio da língua portuguesa esteve ligado ao acesso a direitos, à educação e à mobilidade social. O Estatuto dos Indígenas, em vigor em Angola, Moçambique e na Guiné até 1961, exigia a quem pretendesse obter o estatuto de “assimilado” que falasse corretamente português, entre outras condições. Para muitas famílias, deixar de transmitir a língua africana aos filhos tornou-se uma forma de protegê-los, e o efeito prolongou-se por gerações. “Vemos várias famílias onde a avó fala uma língua nacional, os pais não falam, por vezes só entendem, e os netos nem falam nem entendem”, descreve. Considera que, depois da independência, o Estado angolano poderia ter feito muito mais para inverter a perda das línguas nacionais. Ainda assim, recusa esperar apenas pelas instituições e acredita que a recuperação pode começar nas famílias, nas comunidades, na internet e em cada pessoa que decida procurar aquilo que não lhe foi transmitido.»

→ bantumen.com

→ youtube.com