
Os portugueses amam os brasileiros, mas algo está mudando
É verdade que, na sua grande maioria, os portugueses amam os brasileiros. Amam a alegria, o sotaque, a criatividade e a leveza. Um amor repleto de certa admiração e um quêzinho de orgulho herdado. Mas tropeçam quando se deparam com o brasileiro real, que é complexo, crítico, ferido, contraditório, por vezes, mais lúcido sobre Portugal e os portugueses do que o contrário.
Durante os mais de trinta anos que vivo aqui, vi esse amor mudar de tom várias vezes. Já foi fascínio, já foi condescendência, entusiasmo e até desconfiança. Mas nunca morreu. E nem deixou de ser ambíguo.
A relação entre Brasil e Portugal jamais foi simples. Somos atravessados por afetos, histórias, culturas e interesses que ora nos aproximam ora nos afastam. Parte dessa confusão vem da ideia persistente de que somos “países-irmãos”. Essa irmandade não nasceu espontaneamente, surgiu das afinidades políticas e ideológicas durante os regimes do Estado Novo nos dois países. Os nossos ditadores de serviço, Salazar e Vargas, partilharam a mesma obsessão de reinventar as suas nações com base na autoridade e numa reescrita conveniente do passado.
Na década de 1940, Portugal promoveu uma forte campanha de propaganda em toda a América, com especial ênfase no Brasil. O Brasil, por sua vez, também deu a Portugal um tratamento privilegiado. Dessa aproximação nasceram iniciativas culturais e educacionais e, com elas, consolidou-se a ideia de “país-irmão”, oficializada no Tratado de Amizade e Consulta entre Brasil e Portugal, em 1953, que exaltava a “perfeita amizade entre dois povos irmãos”.
Mas o que acontece quando essa dita irmandade nasce menos da vivência e mais da propaganda?
É evidente que partilhamos características culturais profundas, sendo a língua — que é a mesma sem ser a mesma — o aspecto mais proeminente. Ponto de união e fonte de desencontros, a língua não existe dissociada da cultura e não há cultura sem língua, nem identidade sem ambas. E o português, que poderia ser ponte, transforma-se também em terreno de disputa. Quem é dono do quê? “O meu português é mais antigo que o teu!” “Nós somos 240 milhões de falantes!” São provocações meio em tom de brincadeira, meio em tom de verdade, que revelam o quanto identidade, linguagem e poder continuam entrelaçados no nosso imaginário coletivo.
No nosso caso em particular, as tensões aumentam justamente porque falamos a mesma língua. Enquanto em outros contextos o idioma funciona como fator de diferenciação, entre nós produz um excesso de atrito alimentado pela retórica da irmandade e por disputas de identidade que, em vez de valorizar a pluralidade, tentam neutralizar as diferenças.
Nossa relação sempre foi porosa. Ao longo dos séculos, os fluxos migratórios entre os dois países criaram uma teia afetiva difícil de desfazer. Em Portugal, quase toda a gente tem, ou conhece alguém que tenha, família no Brasil. No Brasil, é comum encontrar quem tenha um bisavô, uma avó portuguesa ou algum parente distante na árvore genealógica. Isso cria laços, mas também mais confusão. O vínculo de sangue não elimina as tensões; pode, inclusive, intensificá-las. Porque o outro nunca é completamente estrangeiro, mas também nunca é totalmente “nosso”.
Há ainda uma construção de imagens idealizadas de parte a parte. Nas últimas décadas, desde a adesão de Portugal à União Europeia, a percepção portuguesa no imaginário brasileiro transformou-se. Portugal passou a ser visto como uma Europa possível — uma “terra prometida”, associada a qualidade de vida, estabilidade e oportunidade. Migrantes brasileiros fomentam esse imaginário por meio de relatos e canais no YouTube que repetem “vem para cá, aqui é ótimo”.
Ao mesmo tempo, a imigração se intensificou. Hoje, Portugal abriga mais de um milhão e meio de estrangeiros — cerca de seiscentos mil brasileiros, número que não inclui aqueles que, como eu, vivem entre dupla nacionalidade e identidades sobrepostas.
Esse crescimento, somado à crise habitacional, ao aumento do custo de vida, às consequências da pandemia, às guerras recentes e à ascensão da extrema-direita na Europa, tem alimentado novas ondas de xenofobia. Naturalmente, elas atingem com especial força a comunidade brasileira — o maior grupo de residentes estrangeiros, sendo um dos mais visíveis e com mais voz ativa na sociedade portuguesa.
No imaginário português, um brasileiro não ocupa o mesmo lugar simbólico que outros imigrantes. E um brasileiro tampouco se enxerga numa condição de subalternidade. Existe uma proximidade linguística, histórica e cultural que torna tudo mais identificável e também mais sensível, revelando o quanto as identidades continuam entrelaçadas.
Vivemos hoje uma fase de maior fricção, causada por várias crises. Mas reduzir a relação entre brasileiros e portugueses a esse momento seria ignorar a profundidade histórica e afetiva que nos liga.
Não é de hoje que nos amamos e nos irritamos. Aproximamo-nos e desconfiamos. Espelhamo-nos e nem sempre gostamos do reflexo. Ao mesmo tempo, partilhamos nossas culturas e uma língua tão elástica que nos permite dividir o mesmo senso de humor — e haverá prova de afinidade mais íntima do que rir das mesmas coisas, reconhecer no outro a mesma ironia ou o mesmo gosto pelo absurdo?
Temos um talento comum para sobreviver ao caos e transformar precariedade em invenção: enquanto os portugueses são desenrascados, os brasileiros são desenrolados. Duas palavras diferentes para a mesma arte de improvisar quando a vida insiste em não colaborar. Nos une ainda uma recusa em ser inteiramente rígidos, uma tendência para humanizar as regras, negociar com a realidade, lidar com o tempo, com a família e com a saudade. Temos uma relação intensa com a memória, mesmo que a organizemos de formas distintas.
As tensões atuais estão mudando a maneira como nos relacionamos mas apesar de tudo, e em nenhuma medida, apagam o que nos liga; antes revelam o quanto esta ligação é viva, disputada e ainda em transformação. O desafio atual não é negar o problema, é impedir que ele se transforme em ressentimento ou amnésia histórica.
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