Espelho Meu Andreia Brites

O destino de Fausto
Oliver Jeffers
Orfeu Negro
Tradução: Rui Lopes

Não há pacto nem diabo mas a referência impõe-se. Não só pelo título, que destaca o nome arquetípico do protagonista, como pelas suas próprias características.

Fausto é um homem arrogante, autoritário e ignorante. A conjugação perfeita para um perfil de ditador. Assim é. Sem qualquer intenção que não a do poder supremo, Fausto autodetermina-se dono de tudo. Parece aleatório, porém os pretensos objetos da sua posse têm em comum o facto de todos se integrarem na natureza, seja uma flor, uma ovelha, uma árvore ou uma montanha.

Porque acedem todos ao domínio imposto por Fausto? Ficará ao critério do leitor mas as parcas palavras dos diálogos e as expressões de fúria do homem denotam uma crescente resistência ao seu poder. Se a flor acede sem questionar, a ovelha acede com indiferença, a árvore já aparenta uma atitude de concessão. O lago, por seu turno, define uma estratégia que sai gorada perante a ira do ditador. Temor? Finalmente, é a montanha quem frontalmente resiste, embora acabe por sucumbir à imposição de Fausto.

Até aqui, o homem formalmente engalanado, de dedo em riste e postura altiva submete todos à sua vontade. O vazio substitui-se a justificações e a mancha branca que ocupa a quase totalidade das páginas de texto, ou onde se inscrevem apontamentos da ilustração deixa silêncio e tempo de respiração ao leitor. Para se interrogar, para se indignar, para reagir à leitura da forma como entender.

O clímax narrativo acontece em seguida quando Fausto tem a mesma pretensão com o mar. E, como acontece com todos os ditadores, há sempre um momento em que são derrotados pela inteligência de quem lhes resiste e pela sua própria prepotência.

Oliver Jeffers tem vindo a explorar temas políticos e ideológicos nos seus álbuns mais recentes e, apesar de não procurar um estilo gráfico distinto, consegue dotar os ambientes e as personagens da carga descritiva, irónica ou crítica que a mensagem implica. O minimalismo não é novo na sua obra mas tem neste caso vários elementos que se interligam: a dualidade terra-mar, com o castanho e o azul que tingem não só os ambientes como o próprio Fausto e o rosa que se transfere para a sua lapela quando arranca a flor e pontilha sempre, ora nas folhas da árvore, ora na marca imposta à ovelha, ora no sol e no seu reflexo, ora nos impropérios verbalizados pelo homem.

O destino de Fausto é, segundo o próprio Jeffers, uma fábula ilustrada. A ironia começa aí.

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