Lobos, abismos e gambozinos

O Progresso da Humanidade
João Sequeira e Rui Cardoso Martins
Polvo
É já a terceira parceria de João Sequeira e Rui Cardoso Martins a resultar num livro de banda desenhada. Depois de Espelho de Água e Estômago Animal, O Progresso da Humanidade volta a ter como ponto de partida um conto de Cardoso Martins, mas o que se espalha pelas pranchas a preto e branco estruturadas e desenhadas por João Sequeira não é uma mera adaptação do texto original. Tal como acontecia nos livros anteriores, o que lemos é uma outra obra, uma narrativa onde texto e imagem são uma só respiração a marcar o caminho que podemos ir fazendo e a deixar abertas outras sendas, não necessariamente seguras no que toca às descobertas que por lá faremos, mas nem por isso menos recomendáveis.
O traço de João Sequeira, fino, nodoso, a tirar partido do preto e branco para criar uma paleta de contrastes que se engrandece nas representações da natureza, casa bem com a prosa de Rui Cardoso Martins, atenta aos pequenos gestos do quotidiano, às armadilhas da linguagem, mas sobretudo sempre metida dentro dos abismos da experiência humana. No centro desta história, há uma morte que demanda explicação, a de Oliveira, cujo corpo aparece nos altos da serra sem que os indícios disponíveis ofereçam resposta segura. Não é de um policial que se trata, mas os mecanismos que passam por questionar, investigar e tentar perceber estão todos aqui, só que não é apenas, nem principalmente, ao inspector-investigador que cabe o trabalho, mas a nós, leitoras e leitores.
Oliveira é uma daquelas personagens aparentemente sem história digna de registo, um tipo que podia ser o nosso vizinho ensimesmado, o residente habitual na mesa de café do bairro, aquele colega de escola que não vemos há décadas e que parece não ter nada para contar. Rui Cardoso Martins é mestre em iluminar a vida de personagens destas, inventando-as ou colhendo-as por aí, no quotidiano, mas sobretudo confirmando-lhes a grandeza narrativa. No traço de João Sequeira, este Oliveira ganha corpo e movimento, transformando-se o seu desconforto existencial em caminho esperado para uma desgraça qualquer. Incapaz de se relacionar de forma saudável com os seus impulsos, dominado sabe-se lá por que recalcamentos, Oliveira acaba num ginásio a encher os músculos e a afogar os neurónios em proteínas ou derivados. Daí ao acampamento de extrema-direita é um pulinho, seguido da intensificação das manias, das teorias conspirativas e da admiração por Salazar, com o inevitável desprezo pela democracia que se seguiu (a «glória de nove séculos de império interrompida pelos traidores da pátria», segundo Oliveira).
João Sequeira vai espalhando a falsa quietude da acção pelas pranchas, cruzando os pensamentos de Oliveira com o seu desfecho, o corpo estraçalhado sobre as pedras do Gerês e a dúvida sobre como ali chegou. Andaria em busca de lobos, esses bichos de grande nobreza, força da natureza, mas cuja presença em território português era sinal de atraso civilizacional para este homem que venerava Salazar. É uma daquelas ligações psicológicas que talvez se iluminassem num divã psicanalítico, mas Oliveira não é dado a enfrentamentos que não passem pela força bruta ou pelo cano da espingarda de caça, pelo que prefere preparar as munições e guardar os cartuchos para a hora decisiva.
Nas paisagens, espraiadas em vinhetas onde o traço de Sequeira brilha nessa capacidade de fazer das linhas uma escrita do espaço, medra essa falsa ilusão de nada acontecer, bem como a força silvestre das dúvidas. Ainda assim, a paisagem que conta não se vê, está na cabeça de Oliveira, cheia de escolhos, veredas mal iluminadas e poços onde vemos o fascismo ganhar raízes e força expansiva como um líquen venenoso. João Sequeira tira os azimutes dessa paisagem, respeitando os declives e as passadas do texto de Cardoso Martins, e mistura-a com a paisagem do Gerês, essa serra que será cenário final da alucinação do protagonista e também da resolução desta narrativa, com um toque de ironia amarga para Oliveira, tão enlevado nos seus delírios de grandeza. A sobreposição dessas duas paisagens, a física e a mental, é o toque de midas desta narrativa em banda desenhada, que puxa o conto de Rui Cardoso Martins para um outro espaço, fazendo das sequências visuais e dos planos mecanismos altamente eficazes para criar na leitura todos os alçapões que a narrativa oferece. E se parece que a oferenda é só ameaça, lembremos que a vertigem e a queda são modos de tactear, e, com sorte, de alcançar, essa compreensão do que somos. E, já agora, de evitar abismos, sobretudo os colectivos.