29 Maio 2026

Jogar ping-pong com granadas
Para Diogo Cosmo
Pelos vistos, durante anos, jogávamos ping-pong com granadas.
Não por coragem, por educação.
Havia assuntos que não podiam ser discutidos
Restava-nos arremessá-los.
Cada petardo passava por cima da rede
com a precisão de um drone ucraniano.
Nunca apontávamos ao coração.
Só à reputação. Só ao ego.
Acidentes aconteciam.
Danos da franqueza.
Havia sempre alguém ausente nas partidas
Um professor
um editor
uma poeta
uma atriz bonita
um chefe de departamento.
E os presentes atrapalhavam a vista.
Uma noite,
traíste-me.
Não por dinheiro
tens muito
Não por amor
tens muito
Não por ambição
tens muita
Traíste-me para uma pessoa
que não estava na sala.
Nem na cidade.
Talvez nem no país.
Foi uma traição pouco ecológica.
Produziu resíduos
sem gerar energia.
Os aplausos?
Nenhum
São animais tímidos
Nem sempre aparecem quando os chamamos.
Hoje continuo a encontrar estilhaços
pelas gavetas
Os médicos dizem
que não vale a pena removê-los.
O corpo acaba por se habituar.
Como se habitua
a certas amizades