Destaque Sara Figueiredo Costa 29 Maio 2026

Um borrão no Chiado

Um novo fanzine reúne trabalhos de autoras e autores com diferentes percursos artísticos e confirma-se como espaço para experimentar as muitas possibilidades que a linguagem da banda desenhada abre a quem a quiser utilizar.

Com origem na década de 30 do século XX, os fanzines tem esta capacidade de permitir a muita gente aceder à publicação sem precisar de contratos, estruturas editoriais de maior ou menor dimensão, gráficas profissionais, uma rede de distribuição. No espaço das linguagens gráficas e visuais, nomeadamente o da banda desenhada, os fanzines sempre foram um espaço privilegiado para a publicação e para a divulgação de trabalhos, não necessariamente de artistas desconhecidos, uma vez que muita gente que publica em livro já passou por este circuito editorial, e muitas vezes continua a passar, em paralelo. Na verdade, o fanzine é um espaço editorial tão livre e com tão poucas regras que umas vezes parece ser alternativa editorial, outras complemento, e em nenhum momento isto é conflituoso, mesmo que aconteça na mesma cronologia e no mesmo espaço geográfico.

É certo que podemos falar de nostalgia quando olhamos para um certo cenário cultural actual, em que objectos como as cassetes estão a fazer o seu regresso rodeados de um marketing que parece ter descoberto a pólvora, e em que material impresso passou a ser considerado algo exótico, mas também é verdade que há quem nunca tenha deixado interromper esse longo continuum temporal que vem de há muito e que foi mantendo viva a chama de modos de publicar que não dependem da grande indústria nem dos grandes conglomerados. E se, no caso das cassetes, podemos falar de revivalismo, ou pelo menos de um regresso do lado da produção, no caso dos fanzines as coisas nunca deixaram de se fazer deste modo: em paralelo com um mercado bem estabelecido e com redes próprias, umas vezes em modo de confronto, noutras apenas de complemento.

Em Portugal, a cena fanzinesca associada a banda desenhada foi sempre viva, ainda que à nossa escala. Houve tempos de grande intensidade, como nas décadas de 80 e 90 – muitas vezes em associação com outras cenas, como a musical – , e tempos menos interessantes, mas nunca deixámos de encontrar fanzines de banda desenhada nas feiras de edição, nos festivais, em certas lojas de música ou em alguns bares e concertos. Sobretudo, nunca deixámos de os comprar directamente aos criadores, em mão, um pequeno volume de folhas em troca de algumas (ou muitas) moedas.

Borrão é um dos títulos mais recentes a surgir neste espaço sempre desregrado que se organiza em torno do passa a palavra, das feiras de edição e, mais recentemente, das redes sociais. O primeiro número saiu em Fevereiro e, no editorial, assinado por Emília Silva e Matilde Feitor, lia-se o seguinte: «Andávamos a pensar sobre como se pareceria BD feita por pessoas que não têm essa prática e de como poderíamos levar a BD para o nosso meio nas Belas Artes.» O fanzine, portanto, tem origem no meio da Faculdade de Belas Artes de Lisboa, mas não está confinado às paredes do Convento de São Francisco, ali tão perto do Chiado. Já com três números publicados, Matilde Feitor confirmou isso mesmo à Blimunda: «A nossa introdução à revista falava sobre as Belas Artes especificamente por ser o nosso meio, onde passamos os dias, mas já de lá saiu várias vezes. Nestes três números, já participaram muitas pessoas que não são das Belas Artes, inclusive pessoas que não são da nossa geração. Nunca foi o nosso objectivo convidar apenas pessoas da faculdade, até porque isso tornaria a revista um pouco limitada.»

Sem limitações corporativas ou geracionais, o Borrão mostra-se claramente dedicado à liberdade de experimentar usando a linguagem da banda desenhada e, de algum modo, também ao desafio de colocar esta linguagem à disposição de pessoas que estarão mais habituadas a trabalhar com outras linguagens. Não é que não haja pessoas nas Belas Artes a lerem banda desenhada, como nos diz Matilde Feitor, mas «mas definitivamente não é algo muito cultivado ou divulgado entre alunos. Na minha opinião, isto é causado em parte por um preconceito para com o meio, que também vem muito dos professores (pelo menos no nosso curso). Persiste a ideia de que BD é algo infantil, ou que não tem espaço de existência na “arte contemporânea”. Aliás, muitos dos colegas que convidámos ficaram inicialmente de pé atrás, por medo de experimentar e não fazer “o que era suposto” na BD. Todos podem beneficiar da liberdade com que podem trabalhar a BD, tanto pela união texto-desenho, como pelo treino em narrativas e experimentação.»

Na última página de cada edição, que é também a contracapa, uma pequena vinheta reproduz parcialmente uma imagem pertencente a cada uma das narrativas que integram o miolo, permitindo, num relance, aceder ao que acontece nas páginas da publicação ainda antes de a folhear. Na penúltima, as mesmas vinhetas surgem acompanhadas da autoria e da página respectiva, um índice devidamente organizado que, depois, é espelhado no verso da página e reduzido às imagens, permitindo testar o peso que a presença ou ausência de texto introduz numa página e jogar com esse efeito daquilo que é simultaneamente igual e diferente na leitura.

Confirmando esse gesto permanente de testar, investigar, há trabalhos mais clássicos, digamos assim, no sentido em que recorrem a uma mise en pâge onde há vinhetas, tiras, um processo narrativo que vai avançando entre imagens e elipses, e outros muito afastados dessa estrutura. Em qualquer caso, percebe-se a vontade de experimentar que atravessa boa parte dos trabalhos incluídos nesta publicação, mesmo que se desenvolvam numa estrutura reconhecível. Há vinhetas bem definidas, como as de Robbie White, no número 3, e outras sem delimitação, como as de Pedro Costa, no número 2, havendo, entre estas duas opções, várias definições intermédias; há repetições elementares e exaustivas que, com pequeníssimas variações, são a própria narrativa, como acontece no trabalho de Rita Bárrios Ferreira, no número 2, e há trabalhos onde o texto é tratado como imagem (Francisco Cardoso, também no número 2).

Outras contribuições deste Borrão afastam-se dessa estrutura mais expectável quando se fala de banda desenhada, explorando a progressão temporal em imagens que se organizam de outras formas e que podem ser, por exemplo, manchas de texto que se vão sucedendo e que, mesmo integradas com algumas imagens, acabam por ser o elemento central da narrativa, como acontece no trabalho de Amália Bragança, no número 3.  O que atravessa estas três edições, sendo visível logo no número 1, é uma disponibilidade para experimentar e uma liberdade de explorar temas, abordagens, ângulos narrativos. E isso é notório como linha editorial, não estando um maior grau de experimentação dependente da escolha de uma estrutura mais clássica ou de uma mais informal.

Há poucas regras nos fanzines e, portanto, pouco consenso em torno das suas caractíersticas definidoras, mas talvez seja relativamente pacífico assumir que um fanzine não se imprime na gráfica, com lombada e capa dura. Este Borrão apresenta-se em modo old school, sem margem para dúvidas, com o seu formato A5 a resultar da dobragem certeira de um A4 – o mais banal dos formatos de papel, disponível em qualquer papelaria – devidamente agrafado, impresso a preto e branco numa máquina que pode ser fotocopiadora, policopiadora ou mesmo uma simples impressora. É um modo de produção fácil, acessível e que permite reimpressões sem grandes logísticas. Nestes tempos em que quase tudo é digital, talvez devêssemos ter começado por destacar que o Borrão é um objecto impresso e só existe desse modo.

Não é a primeira vez que Emília Silva e Matilde Feitor fazem fanzines e a escolha do formato e dos meios de produção deve tanto à economia e à praticidade como à escolha de uma estética e de uma linha editorial, como explicou Matilde: «Já há alguns anos que nós fazemos zines, juntas e individualmente, e o papel, a edição, é algo que logo à partida nos interessava muito às duas. Nunca nos passou pela cabeça fazer uma revista apenas digital, e pensámos que fazia falta uma iniciativa deste género que fosse algo regular, como eram na altura a World War Three e outras revistas de BD (não a comparar, claro ahah). Também gostamos do elemento de os poder distribuir em mão, ser algo para folhear e andar connosco. Os elementos técnicos são todos formas de tornar o projeto mais “low cost” – daí ser pequeno e a preto e branco.»

É possível que se encontre o Borrão à venda em algumas feiras de edição e outros espaços semelhantes, mas a maneira mais fácil de o comprar é entrar em contacto com as editoras, através do Estúdio Trovoada, onde se imprimiu o fanzine. Depois, faz-se como sempre se fez: combina-se um local e troca-se a publicação pelo valor definido, uma moeda das maiores. É verdade que também se pode pagar em modo electrónico, o que confirma que nem tudo se mantém em modo velha guarda no que toca à edição independente, o que é bom, porque permite que mais gente conheça modos de publicar que sempre aqui estiveram e que continuarão a estar.