Saramaguiana
por Pablo Auladell e Blimunda 22 Janeiro 2026
© Pablo Auladell, Mulher do Médico

Ilustrar a cegueira

«Será cruel, descarnado, nem o estilo lá estará para lhe suavizar as arestas. No Ensaio [sobre a Cegueira] não se lacrimejam as mágoas íntimas de personagens inventadas, o que ali se estará gritando é esta interminável e absurda dor do mundo», escreveu José Saramago em 1995, nos seus diários, a propósito do livro que estava a ponto de terminar. O ilustrador espanhol Pablo Auladell [Alicante, 1972] tomou estas palavras como guia para desenhar algumas cenas e personagens do mais famoso romance do Nobel português. O resultado é dado agora a conhecer com a publicação da edição especial de Ensaio sobre a Cegueira que a Porto Editora preparou para assinalar os 30 anos do romance.

Vencedor do Premio Nacional del Cómic de Espanha, em 2016, Auladell é autor de dezenas de livros ilustrados, novelas gráficas e animações. O convite para ilustrar o romance de Saramago partiu do editor Alejandro G. Schnetzer. «Sempre vi o Pablo como um poeta do frágil, a sua obra é uma reflexão sobre a luz e a passagem do tempo. É um artista que trabalha sobre grandes temas da filosofia», conta Schnetzer. «Desde o primeiro encontro que tivemos pensei que, quando viéssemos a fazer algo juntos, seria para contar uma história poderosa, digna de memória. E aqui está ela».

Leia a seguir a entrevista que Auladell concedeu à Blimunda.

Esta edição especial do Ensaio parte de um projeto idealizado pelo editor Alejandro Schnetzer. Quando recebeu o convite, o que pensou? Foi fácil aceitá-lo? Já tinha lido o livro?

Primeiro veio a satisfação de voltar a saber do Alejandro, pessoa que estimo muito e que não via há muito tempo. Depois, pensei que era um momento inoportuno, porque naquele momento estava com dificuldade de avançar nos projetos que tinha assumido por razões familiares. Temia que o Alejandro me chamasse me para propor algo imediato, que eu não poderia aceitar. Por sorte, ainda que fosse um projeto que não poderia demorar muito, deu-me margem suficiente para aceitá-lo e poder fazer um bom trabalho. Já tinha lido O Evangelho segundo Jesus Cristo (meu preferido do escritor) e Todos os Nomes. Do Ensaio eu só conhecia o argumento, não imaginava que tinha esse tom tão, digamos, apocalíptico.

Qual foi o critério que usou para ilustras as cenas? Que dificuldades encontrou?

A primeira coisa que levei em conta era que deveria ser um trabalho que contemplasse o gosto e a expectativa de várias editoras, por tratar-se de um projeto previsto para sair em vários países. Depois, pensei no formato e no facto de que algumas edições contarão com ilustrações a preto e branco, o que me fez descartar o uso de técnicas em que a cor fosse predominante. Por fim, decidi-me por ilustrações que destacassem algumas passagens do romance, optando entre fazer balanços de uns capítulos ora aberturas para outros. São ilustrações narrativas e algo cinematográficas, diferentes de trabalhos anteriores, mas que me pareciam oportunas para a estética do romance, o seu tempo e as características da edição. Para além disso tudo, as imagens tinham que ter uma intenção, uma carga de profundidade que as fizessem pertinentes, que não fossem só ornamentos. Nesse sentido foi muito útil ler as notas sobre o livro que aparecem nos Cadernos de Lanzarote. Ali encontrei ótimas pistas, uma carta branca para mostrar o descarnado e o violento sem rodeios e sobre o tratamento que deveria dar aos cegos, seres vazios de luz, quase silhuetas («Prefiro, desta vez, que o livro seja povoado por sombras de sombra», escreve o autor).

© Pablo Auladell

Que técnica usou para fazer os desenhos? Foram retocados em computador?

Trabalhei com grafite em pó e grafite prensado sobre um papel que recebeu previamente uma preparação com cera. É uma técnica que venho a aperfeiçoar há anos e que me permite trabalhar com o grafite – certamente a minha ferramenta preferida para trabalhar – de uma maneira mais maleável, quase esculpindo. Posso desenhar e redesenhar, construir e destruir. Ao longo dos anos comprovei que essa era a minha maneira de desenhar, fazendo e refazendo constantemente a partir do que se vai apagando, fundindo, recompondo. Creio que esta técnica é especialmente apropriada para este projeto, já que os sulcos de grafite, esses rasgos leitosos que se abrem, estabelecem de alguma forma um paralelismo com o efeito da cegueira branca descrito no romance.
No computador não retoquei nada, só ajustei os níveis para deixar o trabalho preparado para a impressão. Só houve uma cena, a da protagonista na chuva, em que acrescentei uma capa de textura que preparei separadamente.

José Saramago não dá detalhes físicos das personagens, descreve-as apenas pela referência a um acessório (óculos, venda) ou nem isso, apenas como “o primeiro cego”, “o médico” etc. Isso facilita ou dificulta o processo de retratá-los?

Supõe uma pequena traição, eu diria, porque ao desenhá-los acabo por romper em alguma medida o jogo proposto por Saramago. Mas era impossível não enfrentar esse desafio num trabalho com estas características. O que tentei foi desenhar gente normal e corrente, nada de idealizações.

Especificamente sobre “A mulher do Médico”, como chegaste a esta imagem tão poderosa que acabou por ser escolhida  para capa do livro?

O Alejandro ajudou-me, pediu que eu tivesse como modelo um esboço do rosto de uma rapariga que ele tinha visto num dos meus cadernos e que lhe parecia muito adequada. Trabalhei nesse esboço, transformei a rapariga numa mulher de uns 40anos, e mantive a luz que havia no olhar, que creio que foi o que chamou a atenção do Alejandro.

Há alguma passagem do romance que te tenha chamado especial atenção? Que tenhas gostado particularmente de ilustrar?

Sem dúvida, a passagem em que os cegos violentos e sem escrúpulo tomam o centro de confinamento. E a violação das mulheres, foi o que mais me comoveu. Penso que alguns dos melhores desenhos que fiz estão nessa passagem do romance.