Destaque Sara Figueiredo Costa 30 Março 2026
© Elói Scarva

Histórias do Hotel Central, no coração de Macau

No coração de Macau, um edifício verde-água coroado por um enorme letreiro luminoso com caracteres vermelhos guarda muitas histórias da cidade.

Será sina dos edifícios antigos, naturalmente, sobretudo quando são local de passagem e usufruto de inúmeras pessoas – e em Macau não faltam edifícios cheios de episódios memoráveis –  mas o Hotel Central ocupa um lugar peculiar num certo imaginário para o qual a literatura e o cinema sempre foram combustível.

A cidade mudou muito desde que, em 1928, se construiu aquele que era, na época, o edifício mais alto de Macau, o que confirma a sua imponência. O jogo havia sido legalizado no território em 1847, pelo governador João Ferreira do Amaral, e desde então o negócio foi prosperando. Em 1930, três anos depois da sua abertura, o Hotel Central muda de dono e de nome e, um ano depois, instala-se ali um centro de jogo de fan-tan devidamente licenciado, inaugurando o período em que o negócio dos hotéis prosperava em associação estreita com as mesas onde a sorte e o azar se disfarçavam sob a forma de entretenimento. As mesas instaladas no Hotel Central rapidamente se tornaram uma das atracções principais da casa. Ao longo das décadas, na fase da prosperidade, haveriam de juntar-se os bailes, os conjuntos musicais, as festas temáticas, mas o jogo foi sempre gatilho para boa parte das pessoas que cruzavam estas portas.

A fachada verde subindo sobre os edifícios do largo do Senado, o topo com os caracteres vermelhos que indicam o nome do estabelecimento, a porta a dar para a San Ma Lo, avenida central que os portugueses baptizaram com o nome de Almeida Ribeiro, mas que toda a gente conhece pelo nome chinês, esse é o quadro visual criado pela volumetria do Hotel Central que, em certos ângulos de visão, ainda domina a paisagem do centro de Macau. Durante muitos anos, e depois dessas primeiras décadas de fulgor, o Hotel Central perdeu a elegância que Ian Fleming descreveu com detalhe e espanto no capítulo de Thrilling Cities que dedicou a Macau, mas agora recuperou-a e, em certos aspectos, talvez a tenha superado.

Antes do livro do criador de James Bond, importa contextualizar a presença deste edifício em alguma da literatura de espionagem, guerra e manigâncias diplomáticas que se escreveu a partir deste recanto asiático, tantas vezes alimentando ideias de exotismo e aventura a partir de uma série de preconceitos que davam largas à imaginação até de pessoas que, nunca tendo pisado o território, escreviam sobre ele como se o conhecessem de cor. Macau, ainda que menos do que Hong Kong, foi muitas vezes cenário de passagens vibrantes em vários romances do género, e também de vários filmes, quase sempre assumindo esses romances como ponto de partida, e era frequentemente o lugar para onde algumas personagens fugiam – de algum mafioso, de outro espião ou das suas próprias angústias. O Hotel Central, primeiro, e depois outros hotéis onde o jogo estava incluído no menu de entretenimento, com o passar dos anos, foram cenário de algumas dessas fugas, ou apenas de um ou outro passeio mais ou menos romântico que atravessava o território numa dessas narrativas literárias ou cinematográficas.

© Elói Scarva / Festival Literário de Macau

Um fim de tarde no terraço

No âmbito do Festival Literário de Macau, que este ano cumpriu a sua 15ª edição, o historiador Paul French e a jornalista Anne Marie Evans reuniram-se para um fim de tarde de leituras no terraço do Hotel Central, um acontecimento que encheu de público o topo do edifício. Depois dos anos de decadência, o hotel reabriu em 2024 totalmente renovado, mantendo o verde que era a sua imagem de marca e incluindo, numa das entradas, uma exposição que reúne documentação muito variada sobre a sua história e sobre o desenvolvimento da cidade.

No terraço do Hotel Central, então, leram-se excertos de quatro livros onde este edifício assume um papel, maior ou menor, conforme a narrativa. Em Soldier of Fortune, de Ernest Gann, acompanhamos a saga de uma mulher que tenta salvar o marido, um jornalista raptado por malfeitores da China comunista. Jane Hoyt passa por Macau, nesse atribulado processo de salvamento que tem os olhos sempre postos no outro lado da fronteira, e acabará enganada por um português que finge ter uma escola de línguas quando, afinal, é o gerente de um bordel. Essa passagem inclui uma descrição pormenorizada do Hotel Central e dos seus diferentes pisos, encimados por uma enorme boîte onde um grupo de músicos chineses se dedicaria à interpretação de temas do jazz norte-americano. O livro, publicado em 1954, deu origem a um filme com o mesmo nome, estreado logo no ano seguinte, com realização de Edward Dmytryk e interpretação de, entre outros, Clark Gable e Susan Hayward. Como notou Paul French, este é um dos muitos livros.

O segundo título escolhido por Paul French para esta incursão literária no Hotel Central foi Love is a Many-Splendored Thing, de Han Suyin, romance de pendor autobiográfico publicado em 1952. Publicado em português como A Colina da Saudade (tradução de Maria José Marinho para a Portugália), este livro conta a história de um relacionamento clandestino entre uma mulher, a protagonista, e um jornalista de Hong Kong, casado com outra mulher. As reacções da sociedade de Hong Kong perante o adultério impedem a assunção do relacionamento e abrem a porta a uma narrativa clássica de encontros escondidos e juras de amor que, em princípio, suspeitamos que nunca serão cumpridas. Num desses encontros clandestinos, o casal dirige-se a Macau e instala-se no Havana Hotel, nome fictício para o Hotel Central, como explicou Paul French, conhecedor profundo destes meandros literários e das suas histórias paralelas. Han Suyin descreve, então, o Hotel Central, destacando a existência, no último andar, de uma sala de jogo por onde passariam os empregados, naturalmente, mas também “concubinas, piratas e polícias”, destacou o historiador antes de passar, com Anne Marie Evans, à leitura de alguns excertos do livro, também ele adaptado ao grande ecrã, num filme de 1955, realizado por Henry King.

The World of Suzie Wong é um dos livros que se inclui em qualquer lista de literatura sobre Hong Kong, ou cuja narrativa decorra naquele território, vizinho de Macau. Escrito por Richard Mason e publicado em 1957, este é um livro que reúne uma série de lugares-comuns associados ao Oriente e ao seu potencial de mudança de qualquer vida. Richard Lomax, o protagonista, é um inglês que, depois da II Guerra, onde cumpriu o seu serviço militar, acaba a trabalhar na Malásia, num campo agrícola, onde decide dar um novo rumo à sua vida. Dirige-se, então, a Hong Kong com o firme propósito de se dedicar às artes visuais, para as quais as suas competências são claramente limitadas… Instalado num hotel na zona de Wan Chai, Lomax perceberá, com o tempo, que a unidade hoteleira é, na verdade, um bordel, e que a mulher por quem se apaixona, Suzie Wong, ganha a vida trabalhando como prostituta nesse lugar. Refira-se que também este hotel onde Lomax se instala é inspirado num hotel real, o Luk Kwok Hotel, lugar que guarda várias histórias, à semelhança do Hotel Central.

Estão reunidos todos os ingredientes para uma tragédia amorosa atravessada pelo exotismo, a que se junta uma viagem do jovem casal a Macau, com o objectivo de se casarem em segredo (objectivo que Lomax alimenta, mas que, claramente, não é uma vontade expressa por Suzie Wong, o que acrescenta à leitura deste romance um profundo traço machista, reforçado pelo preconceito associado a uma ideia de exotismo que, cruzando-se com um outro preconceito, este associado ao trabalho sexual, permitiu criar uma personagem a quem em demasiados momentos do texto não se reconhece vontade própria). No excerto lido na sessão, destacou-se a presença nada discreta de mesas de jogo, ópio e prostituição no Hotel Central, para além de se descrever Macau como o lugar onde tudo seria possível, assim houvesse dinheiro para subornar os oficiais certos. E, uma vez mais, The World of Suzie Wong também mereceu adaptação cinematográfica, num trabalho realizado por Richard Quine e estreado em 1960.

Chegamos, então, a Thrilling Cities, o livro que reúne as reportagens que Ian Flemming escreveu para o The Sunday Times entre o final dos anos 50 e o início dos 60 do século passado. Depois de uma primeira série de viagens, que resultaram em várias reportagens publicadas no jornal, o dono do The Sunday Times, Roy Thombson, gostou tanto do que leu que encomendou a Flemming uma nova ronda de incursões às cidades mais vibrantes do mundo. Pouco depois, essas reportagens viriam a transitar das efémeras páginas dos jornais para uma edição em livro, que acrescentava muito material que não chegou a caber nas versões publicadas no jornal, por uma questão de contigência de espaço. No total, Ian Flemming passou por Hong Kong, Macau, Tokyo, Honolulu, Los Angeles, Las Vegas, Chicago, Nova Iorque, Hamburgo, Berlim, Viena, Génova, Nápoles e Monte Carlo. E importa dizer que, apesar do tanto que mudou em todos estes locais, Thrilling Cities continua a ser alvo de novas edições.

A descrição que Ian Flemming faz do Hotel Central neste livro é um dos textos mais entusiasmantes que pode ler-se sobre o jogo e o entretenimento em Macau em décadas passadas. Sabe-se, e Paul French sublinhou esse aspecto quando falou do livro, que Flemming era dado ao exagero e à efabulação. Na verdade, talvez em bom rigor os seus textos reunidos neste livro não devessem ser apodados de reportagens, uma vez que vários aspectos de certas descrições e encontros acabaram por revelar-se pouco consentâneos com os factos. Macau não foi excepção, mas  a descrição deste «arranha-céus dedicado aos vícios humanos», como Flemming chamou ao Hotel Central (revelando que a noção de arranha-céus haveria de alongar-se muitíssimo nas décadas seguintes…), não perdeu o seu carácter, a um tempo capaz de se mostrar detalhada e precisa, permitindo-nos visualizar o edifício por dentro mesmo que nunca o tenhamos visitado, e imaginativa ao ponto de parecer que foi Flemming que criou o hotel e não os seus arquitectos, engenheiros e construtores. Aquela subida no elevador vidrado, notando como em cada andar a parada do jogo sobre, reservando-se os andares superiores para os jogadores de alto gabarito, continua a ser um relato perfeito de uma pirâmide social já de si muito reservada ao pedaço mais alto.

Com Paul French e Anne Marie Evans, o terraço do Hotel Central revelou-se muito mais do que um espaço onde é possível beber um copo, mesmo que não se esteja alojado no hotel, e observar as vistas deslumbrantes sobre Macau, das águas do Porto Interior aos territórios mais a norte, passando o olhar em movimento de 360º por todo o território peninsular. Talvez, em dias de pouca névoa, se vislumbrem também a Taipa e Coloane, duas ilhas diferenciadas quando Flemming visitou o território, agora uma ilha única, “colada” pela sucessão de casinos e hotéis-casino da zona do Cotai. É bem possível que Ian Flemming não tivesse imaginado tamanha mudança no território, nem o papel que o Hotel Central, associado ao jogo e ao entretenimento, assumiria como um dos modelos dessa mudança.