
Eu zango-me!
Sandra V. Feder
Tabele Jomepour Bell
Fábula
Tradução de Susana Cardoso Ferreira
Este é um exemplo de como um tema não tem de ser instrumentalizado ao serviço de uma didática ou uma moral explícita. Nos últimos anos, têm sido editados muitos livros que abordam as emoções, com uma tónica no desenvolvimento positivo da criança, integrando sentimentos e manifestações negativas num processo de aprendizagem e conhecimento. Porém, muitos desses livros fazem-no sem a devida qualidade literária e estética. Eu zango-me! não sofre desse mal. A explicitação de situações que levam a protagonista a sentir-se mal são sempre acompanhadas das suas reações, verbais ou não verbais, em momentos de interação com os pares ou com a família. É a menina quem verbaliza o que sente: “Às vezes zango-me quando estou cansada.// _Quero ir para casa. (E zango-me.)” E mais à frente, a propósito da mesma situação: “E, às vezes, as palavras parecem demasiado difíceis.” A situação é comum e facilmente reconhecível pela ilustração: a menina está no banco de trás do carro e a mãe no lugar do condutor, com sacos de compras ao lado. Depois, na ilustração do segundo momento, a mãe está a tirar o cinto à menina, cuja expressão continua a manifestar a raiva que a própria associa ao cansaço e à incapacidade de encontrar palavras que a apaziguem ou resolvam o conflito.


Em primeiro lugar, a estrutura narrativa apresenta as situações que provocam a zanga da menina, depois regressa a cada uma delas para dar a conhecer a reação possível da protagonista e dos outros, cuja ação terá provocado a zanga. Assim, evidencia-se uma panóplia de momentos em que o leitor se pode facilmente identificar com a protagonista e até produzir os seus próprios juízos sobre a sua reação ou a melhor forma de resolver o conflito. Por vezes a menina terá razão, outras não, por vezes é mais fácil, outras mais difícil, encontrar a resposta certa. No final, há uma mensagem reconfortante, pelas ações dos pais. Esse ninho também lhe permite concluir o seu processo emocional, explicando como sente a raiva e como esta depois passa.
A expressividade da personagem, os seus gestos e movimentos corporais, dão ênfase ao que sente. A ausência de contornos, o uso de contrastes e a diversidade de padrões contribuem para ambientes quentes e mais intensos.
É um álbum terno, equilibrado na relação entre texto e imagem, que se complementam, coerente e sem cedências.