Crítica Sara Figueiredo Costa

Dois discursos para uma obra maior

Cinzareia
Carlos Ferreiro e Fernando Cabral Martins
Barco Bêbado

O novo livro da prolífica editora Barco Bêbado é uma homenagem a Carlos de Oliveira, assinalando o centenário do seu nascimento. Compõem-no um conjunto de imagens a preto e branco desenhadas por Carlos Ferreiro e um ensaio de Fernando Cabral Martins sobre o autor de Uma Abelha na Chuva, intitulado «O rigoroso cálculo da luz», ambos arrumados ao longo das páginas sem separação formal nem fronteiras para além das que decorrem da forma de cada discurso.

Cinzareia não é um texto ilustrado por imagens, ou um conjunto de imagens que precisam do texto para se explicarem, mas antes dois discursos que, estruturalmente distintos, se desenvolvem em paralelo em torno de um mesmo tema, de um mesmo corpus, a obra de Carlos de Oliveira. Por vezes, convergem em certos pontos, mas talvez esse movimento se deva mais ao exercício da leitura do que à natureza e ao conteúdo dos discursos deste Cinzareia.

A literatura de Carlos de Oliveira é reflectida e analisada no ensaio de Fernando Cabral Martins, que lhe percorre a cronologia, constatando um notório visionarismo, não no sentido de antecipar o que o futuro haveria de aceitar, mas no de ser pouco dependente do tempo em que se cria, devendo mais à noção do tempo que não cessa de passar.

«A obra de Carlos de Oliveira coloca de forma essencial a questão da referência, da relação directa com o mundo concreto. Nomeadamente, e conforme o vai mostrando em teoria e em acto, enquanto redescrição – ou transformação – do mundo.» Passadas as polémicas sobre a filiação do autor no neo-realismo, o suposto corte que sucedeu a essa filiação e a necessidade comprovadamente frustrada de o arrumar num movimento e num período, a obra do autor de Finisterra mostra-se em permanente relação com o tempo no seu sentido mais lato, ainda que sempre independente da férrea ideia de um período temporal fechado e etiquetado: «(…) o escritor novo dos anos 60 não é uma metamorfose de si, é a continuação do que sempre foi, o que mudou foi o tempo à sua volta», resume Cabral Martins.

Em paralelo, os desenhos de Carlos Ferreiro exercitam o olhar sobre o mundo através da ampliação, da distorção, da atenção aos mínimos detalhes dos objectos naturais que integram cada composição visual.

Essa atenção parece, por vezes, exercer o mesmo mecanismo de uma macro-lente fotográfica que se foca numa porção de matéria e nela mergulha, umas vezes procurando a aproximação, outras criando a distorção que abrirá a porta para novos olhares.

A dada altura, imagens e texto avançam para um discurso comum. Escreve Cabral Martins: «Ora, o modo de conhecimento da poesia consiste em mostrar os fios que tecem as imagens.» São esses fios que vamos destrinçando nas composições de Carlos Ferreiro, os troncos de árvore cujas manchas parecem criar outras formas, o jogo de luz e sombras num delicado negativo a preto e branco, a matéria vegetal desfigurando-se de tal modo que permite ver, simultaneamente, a sua natureza e aquilo que pode ultrapassá-la, realidade – ou o que imaginamos como tal – e ilusão. O avanço para esse discurso comum pode não ser coordenado – nada nesta edição refere o processo de criação do texto e das imagens, não havendo como aferir se decorreram em modo dialógico ou se encontraram esse modo na paginação, independentemente de uma intenção prévia – e é muito possível que essa coordenação não seja intencional.

Talvez seja irrelevante, na medida em que é nos caminhos que se vão abrindo à medida que a leitura progride que está o sumo deste livro e não nos seus eventuais pontos prévios.

De certo modo, como acontece com a obra de Carlos de Oliveira, que tornou pouco relevantes tantas exegeses prévias que faziam depender a sua escrita do estabelecimento de uma relação, harmónica ou conflituosa, conforme a leitura, com o neo-realismo. Como escreve Fernando Cabral Martins a propósito da relação da escrita de Carlos de Oliveira com o cinema: «Cada olhar é o primeiro olhar.»