Espelho Meu Andreia Brites

Desde 1880
Pietro Gottuso
Kalandraka

Quando a fotografia chegou para revolucionar a memória e fixar o instante, houve quem temesse que aquela chapa roubasse as almas fotografadas. Hoje, uma fotografia pode bem revelar emoções, mistérios, silêncios aos olhos treinados dos que a observam. E, incontestavelmente, o retrato do espaço ou da figura cristaliza-a num momento, num passado biográfico, histórico.

É o que se passa com este álbum sem texto que, através da ilustração, regista a fachada de uma livraria desde 1880 (sabemo-lo pelo título) à atualidade. Tudo se passa na rua. Da livraria conhecemos a tipografia do nome, a porta e a montra, nada mais. À noite, tal como na imagem da capa, vislumbram-se estantes com livros no interior. 

Nada se sabe sobre o movimento, sobre quem a frequenta, sobre os livros que vende. Sabemos que persiste, que resiste à viragem do século XIX para o XX, às duas guerras mundiais, ao aparecimento da televisão e dos computadores. Assistimos às mudanças estéticas no vestuário dos transeuntes, à evolução dos automóveis, à passagem do café para galeria de arte, depois para loja de eletrodomésticos, espaço com internet e finalmente o regresso ao café. Há nesta criteriosa escolha alguns detalhes irónicos, como o do lettering do café atual replicar o da livraria agora desaparecida.

Os ciclos das vidas, humanas e materiais, caminham neste livro com suprema discrição. Sabe-se pouco e uma leitura apressada não desvenda os detalhes que, ao serem comparados entre várias páginas duplas, alimentam os vários sentidos da passagem do tempo. O que a ilustração faz é apenas abrir caminho, dar pistas para narrativas e juízos subjetivos. A plasticidade da cor parece acompanhar os momentos do dia, com os azuis mais opacos da noite, os rosas suaves da manhã e do crepúsculo e os ocres vibrantes do meio do dia. No entanto, a primeira imagem da livraria surge de noite, podemos presumir que depois da sua inauguração e a última durante o dia, eventualmente à tarde. A simbologia do dia não está associada diretamente ao nascimento, crescimento e ocaso da livraria mas sim ao passar do tempo. Também a família do dono da livraria se vai sucedendo entre o envelhecimento e o nascimento ao longo de quatro gerações. 

No final, dois elementos surpreendentes contaminam a verosimilhança da narrativa e deslocam-na no sentido simbólico e emocional: já não há lugar para uma livraria no presente? 

Desde 1880 e A Casa, de Roberto Innocenti, têm em comum o topos do tempo e a mudança que o acompanha mas enquanto o segundo se dedica a escalpelizar cada quadro com inúmeros detalhes, este oferece apenas um vestígio de cada momento, como se até esse registo se devesse assumir como incompleto e efémero. Ainda, Innocenti fecha a história daquela casa com esperança e Pietro Gottuso opta pelo seu inverso: a capitulação da resistência.

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