
Dar a volta, na morte de Jorge Palma
Nem todos os obituários têm de ser obituários e o músico Vítor Rua confirma-o neste texto sobre Jorge Palma.
À notícia da morte de Jorge Palma reagiram centenas de pessoas, muitas delas companheiras de estrada do músico, outras admiradoras, amigas, conhecidas, todas devedoras da sua voz, das suas canções, do tanto que disse cantando. Nas páginas da imprensa, em papel ou no ecrã, não faltaram os obituários e as homenagens, lembrando um percurso ímpar, momentos marcantes e gestos solidários. De entre tantos textos, vale a pena guardar este «Jorge Palma estacionou o piano em segunda fila», de Vítor Rua, publicado no Rimas e Batidas. Começa assim e lê-lo até ao fim e guardá-lo para memória futura é uma boa forma de homenagear Jorge Palma e, sobretudo, de guardarmos connosco o tanto que nos deu:
«Há um piano em segunda fila e Lisboa não consegue sair. O eléctrico toca a campainha, um taxista inclina-se sobre o volante, alguém explica que tem uma reunião importantíssima com outras pessoas que também têm reuniões importantíssimas. Palma levanta a tampa do piano. De dentro saem uma escada de metro, três ruas de Paris e um cão que sabe perfeitamente onde fica o refrão. O trânsito começa a desconfiar de que vai chegar atrasado à sua própria vida.
É aqui que me apetece pô-lo, agora que chegou a notícia da sua morte: atravessado no caminho. Com os cotovelos, o cabelo, a voz, a inconveniência toda de um corpo que esteve efectivamente neste mundo. A notícia pede-me o passado; sento-o ao piano e experimento o presente. A cidade há-de encontrar maneira de dar a volta, embora alguns condutores já tenham desligado o motor e um deles esteja a cantar sem dar por isso.»