
Lembrar Bino Branco
Na morte de Bino Branco, um dos integrantes da banda cabo-verdiana Ferro Gaita, um texto para conhecer o percurso deste grupo e a sua importância na divulgação do funaná e da cultura de Cabo Verde.
Carlos Alberto Pereira Lopes, mais conhecido como Bino Branco, morreu nos Estados Unidos da América, longe da sua terra natal, no passado dia 29 de Agosto. A distância geográfica, devida a tratamentos de saúde, não impediu o reconhecimento generalizado pelo seu contributo para a música e a cultura de Cabo Verde e a multidão que encheu o cemitério da Várzea, na Cidade da Praia, no dia do funeral teve réplicas noutras ilhas cabo-verdianas e um pouco por todo o mundo, reconhecendo-se o imenso contributo de Bino Branco para a cultura cabo-verdiana e a sua divulgação internacional.
No site Rimas e Batidas, um texto de Xico Sousa traça o perfil biográfico de Bino Branco, percorre as bandas e projectos musicais em que se envolveu e confirma a importância do músico e a sua contribuição para a cultura de Cabo Verde em geral e para o Funaná em particular:
«Depois de uma breve experiência com o grupo Djassy, em 1996 Bino (voz e ferrinho) juntou-se a Iduíno (voz, gaita e arranjos), e Paulino (voz e baixo) e formaram os Ferro Gaita na Praia. O nome Ferro Gaita, aliás, é mais revelador do que parece. Ferro e Gaita são os únicos instrumentos essenciais do Funaná, com os quais se desenvolveu o género e sem os quais o Funaná não existiria. “Ferro Gaita” é uma denominação que, por descrever os elementos básicos de um género musical que é o tutano da identidade da ilha de Santiago, é sinónimo de terra, verdade, memória, tradição, continuidade, cultura. Não no sentido reaccionário de exclusão e afirmação de legitimidade, mas como responsabilidade de construção de um futuro, futuro esse que, em força das circunstâncias, teria de ser renovado, apurado. A capa de Fundu Baxu, o disco de estreia de 1997, esclarece: Um fundo verde natural, e os três membros da banda dispostos em triângulo, mostrando os seus instrumentos, em indumentária tradicional. Em sentido perfeitamente contrário ao panorama da música pop cabo-verdiana de então, havia pouco espaço para abstracções na disposição gráfica da capa do disco: imperava um pragmatismo contra-corrente possível apenas para quem não precisava de promessas exóticas. A riqueza do disco vinha de dentro da ilha. O papel dos Ferro Gaita era ajudar os artistas da terra a olhar para o que já tinham, mas que não conseguiam ver à luz das circunstâncias. Esta que seria, aos olhos de jornalistas, comentadores, antropólogos e críticos culturais das grandes metrópoles europeias, uma capa de disco campestre e folclórica, era para os Ferro Gaita um confronto necessário e visionário pelo avanço natural do maior símbolo cultural da ilha de Santiago: o Funaná.»