Espelho Meu Andreia Brites

Abril, o peixe vermelho
Marjolaine Leray
Orfeu Negro
Tradução de Maria Afonso

O humor recorre, desde sempre, a várias estratégias retóricas para se consumar. Sempre provém, todavia, de uma figuração. Seja ela uma representação metafórica e uma transferência sintética ou uma metonímia que joga com a construção sintática do discurso e do pensamento, o efeito do cómico depende de uma associação entre a comunicação e a sua própria interpretação. Equívocos, paradoxos, hipérboles, eufemismos são apenas algumas destas figuras. 

Porém, a eficaz subtileza do humor reside numa descodificação global do enunciado (seja ele textual ou visual) quase imediata e intuitiva, que não se presta num primeiro momento à duração reflexiva. 

Como desconstruir então um álbum todo ele pensado e criado numa inteligente lógica humorística sem desvirtuar essa magia?

A história de Abril, o peixe vermelho, revela-se muito divertida e surpreendente logo no início quando a ilustração que descreve a vermelhidão do protagonista tinge o aquário da cor e lhe acrescenta uma etiqueta semelhante àquelas que encontramos nas peças de roupa com indicações de lavagem. 

Os jogos de sentido seguem esta estratégia dialógica em que o texto se atém ao literal e é a ilustração que o transforma, ampliando efeitos ou enfatizando situações, como acontece na descrição dos pais de Abril. O leitor adulto pode questionar-se sobre o alcance da interpretação infantil mas a validade do álbum ultrapassa este limite, trazendo camadas de leitura a quem se faça acompanhar de mais referências contextuais e críticas. Transgride as fronteiras do politicamente correto ao aludir à morte ou ao alcoolismo mas fá-lo com perícia. A angústia existencial de Abril e o seu desejo de libertação daquele aquário redondo e claustrofóbico bastam como ponto de partida. 

À chegada, podemos nós considerar que este é um álbum engajado, uma parábola sobre a combatividade do oprimido que, num contexto adverso e perante um terrível opressor consegue, pela persistência e inteligência, transformar a ordem de poder estabelecido e alcançar a liberdade.

Pode ser. O nome Abril e a cor vermelha podem ajudar alguns. Ou simplesmente podemos identificar as tragédias da vida com as quais nos rimos, como rimos de nós próprios, para as superar. Provavelmente, haverá ou terá havido um pouco de Abril em cada leitor que se ri ou sorri. Mas muito, muito mais cáustico!

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