
A mosca
Gusti
Orfeu Negro
Tradução de Guilherme Pires
É o segundo livro de Gusti editado pela Orfeu Negro. Mallko e o papá é um testemunho textual e visual da relação do autor com o filho com síndrome de down. Então, o leitor não tem como prever o que vai encontrar neste álbum. E o que encontra é muitíssimo divertido! A narrativa acompanha uma mosca na sua entusiástica ida a banhos. Rapidamente, a mosca podia ser qualquer um de nós, com a toalha de praia, o creme e a bola. A forma como verifica a temperatura da água e como desfruta do banho também promove uma identificação que nos aproxima dela. Todos estes momentos são essenciais para o efeito que um enorme contratempo terá em nós, à medida que, lentamente e ainda incrédulos, o vamos antecipando. A ilustração acompanha e retrata a protagonista num ângulo muito próximo, perceberemos porquê depois. O que é interessante nesta história é justamente o processo de identificação entre o leitor e a personagem, como acontece tantas vezes. Porém, trata-se de uma mosca, que não é animal caro à espécie humana. E mesmo assim, é fácil ao leitor esquecer-se disso. No final, depois de uma descoberta desconcertante, cada um reagirá como lhe aprouver, com mais ou menos solidariedade com o inseto. Seja como for, com alguma noção sobre a identificação entre si e a personagem.
Gusti cria esta narrativa com tudo aquilo de que o humor necessita: a confiança no contexto, as pistas que antecipam qualquer coisa que vai alterar o estado de felicidade e prazer, um crescendo de curiosidade e um clímax onde não falta um elemento escatológico, nunca nomeado. Prevalece a lógica da inferência, como bem cabe ao jogo humorístico. Vale uma ou mais gargalhadas e alguns comentários, desde muito tenra idade. Aí está um álbum ilustrado inteligente que as crianças de três anos vão provavelmente perceber e de que vão gostar.