
Discurso Prémio Formentor: «Pedra, Planta, Animal e Escritor»
No dia 1 de novembro, Gonçalo M. Tavares recebeu em Mallorca (Espanha) o Prémio Formentor de las Letras 2026, um dos mais prestigiados prémios literários, entregue em edições anteriores a autores/as como Annie Ernaux, Cees Nooteboom e László Krasznahorkai, e muitas vezes visto como antecâmara para o Nobel. Na cerimónia de entrega do prémio, o escritor português leu um discurso intitulado «Pedra, Planta, Animal e Escritor», que a Blimunda tem a honra de publicar em primeira mão em português.
Estamos fortemente inclinados para a morte, como uma pedra bípede que já foi atirada lá de cima e, enquanto não cai no chão, faz o que o destino permite; por vezes escreve, outras vezes cala-se.
Mas imagino isto: escrever enquanto se cai.
Escrever é uma modalidade da queda. Uma forma de cair sem ficar calado. Uma forma de ver cair os outros sem ficar calado.
Viemos da floresta, do meio dos animais, e como Walter Benjamin dizia “não há como esperar coisas novas em qualquer outro caminho que não seja o caminho de casa”. É preciso voltar à casa dos animais com a nossa história que já vai longa em explosões e algumas bondades, voltar à floresta; é preciso voltar à casa dos animais com o nosso alfabeto.
É evidente que o fascismo não aparece vindo da prosa mansa ou da baixa voltagem da elétrica linguagem. Mas o fascismo alimenta-se da fala que é ou rápida demais ou quieta como um tigre a quem lhe tiraram a raiva. Parte da linguagem é movida a raiva, outra a uma certa fome – como sim, se fosse um urso, um tigre, coisas orgânicas a quatro patas e muita agilidade. Não se escreve sobre uma mesa, mas sobre uma inquietação. Por vezes é isto: 500 páginas para procurar o nome que nos acalma, o vocábulo abracadabra que à nossa raiva diz: agora descansa.
Mas não há página que alcance a palavra abracadabra do século; cada século tem as suas manhas, esconde as suas palavras essenciais. Escrever é procurar, não encontrar. Infelizmente, felizmente.
A literatura não pertence aos muitos modos do comércio – do vender e comprar. A criação é uma forma de deixar vestígios atrás (migalhas em forma de letras) para não nos perdermos na perigosa floresta e podermos regressar a casa. Mas quando regressamos a casa, a casa está em chamas. E aí percebemos que nunca uma palavra acalmou o fogo: precisamos dos elementos principais: a água, por exemplo, quando há fogo a mais; o fogo quando há frio a mais; a terra quando estamos vaidosos em balão frágil sete metros acima do chão; o ar quando nos querem soterrar com notícias a galope de um motor sem cérebro que quer fazer dos humanos puros animais recetores de notícias. Mas não somos animais para estarmos sedentários no sofá à espera que o mundo diga como muda. Somos outra coisa.
O escritor é uma animal debruçado sobre uma mesa a dissecar um animal que está debruçado sobre uma mesa a dissecar um animal que está debruçado sobre uma mesa. E assim por diante. Por vezes, um escritor levanta-se e anda em redor da cidade ou das notícias como um planeta secundário em órbita obsessiva. Mas isso não o sossega.
Seria forte que a escrita queimasse os olhos de quem lê como o fogo queima o papel. Ou a própria escrita fizesse no papel o que o fogo faz quando do papel se aproxima. Uma escrita que se incendiasse a si própria ou uma escrita que queimasse os olhos de quem lê. Imaginar queimaduras de primeiro grau e segundo grau e terceiro grau no simples leitor que não se aproxima do fogo nem de qualquer acidente, mas sim de um simples livro forte.
Um livro que fizesse cegos. Que produzisse cegos como uma fábrica de cegueira em produção contínua. Olhaste para o fogo tempo demais.
Mas podemos também pensar que o olho humano vai vendo melhor a cada livro lúcido que lê; melhora a estrutura pensante do olho pela melhoria da estrutura nómada do cérebro. Todo o aumento de lucidez terminará em visão mais apta para distinguir um cisco, mental ou moral, no vasto mundo. Mas ver melhor não melhora o mundo.
Um leitor fica sem mãos e sem pés, caminha amputado pelos caminhos que os traços determinam no subtil pé após pé dos olhos. Ler é coisa de malucos, de senhores saídos do hospício que do traço fazem imagens na cabeça. Mas nenhum é louco porque quando muitos são loucos nenhum é louco.
A leitura é forma de cair em cheio na hipnose. Os hipnotizados pela imagem, os hipnotizados pela escrita, os hipnotizados pelo amor, pelo companheirismo. Há tantos.
A escrita como traço em modo de feitiço. O leitor sem mãos e sem pés, fica também sem olhos pois estes são raptados pela linguagem. Somos demasiados com esta loucura, mas felizmente não queremos fazer um exército, queremos fazer um deserto.
Em parte, precisamos de voltar ao deserto, sim. A esse modo de estar só no meio do que é igual, no meio da aparente paisagem aborrecida e repetida. Precisamos de transformar o dia em deserto para dentro dele ficarmos, não 40, mas 400 ou 4.000 dias, ou 40.000 dias – para que do deserto regressemos com livros fortes. No vasto deserto, um humano, depois de muito caminhar, regressa e com ele traz um livro – eis uma imagem possível. É um maluco, se dirá dele. E é justo que o digam. É mesmo um maluco.
A história humana é isto: uma coisa que queima. Não consola: queima, queima, queima.
Escrever não se escreve por cima da paisagem bela, embora a beleza seja coisa útil para levar para o canto da sala onde se escreve. Num canto, o belo; no outro, o uivo do lobo que está com fome e nos vê, a nós, como o mais belo alimento. O lobo, sim, ou o abutre que paciente, noutro canto, já vê em nós a bela carniça de que fará banquete. Temos o tecto do quarto onde escrevemos cheio de corvos e abutres que, caladinhos e quietos como estão, parecem afinal ser apenas uma cor grande e negra. Mas não é o teto que foi pintado de preto; são animais que esperam pela nossa morte e estão quietos, e estão pacientes. Não olhes para cima que te assustas. Não olhes para baixo que te assustas. Olha em frente: é o melhor dos sustos.
As notícias são claras: o mundo está em pânico, mas por vezes vai passear à lua e depois vem. É preciso saltar por cima das notícias como um saltador em altura que quer chegar ao ponto do céu que não tem obstáculos. Mas por vezes é bom saltar para dentro da atualidade como um salto em comprimento que tenta ir ao fundo do que está a acontecer no mundo; que tenta atravessar o que está a acontecer no mundo como se as notícias fossem um muro que não deixa ver, e a única função da escrita fosse a função feita por um berbequim potente: abrir um furo de visibilidade e lucidez no muro, furo lúcido que permita ver para o outro lado.
E imagino isto: quem escreve consegue abrir um pequeno buraco nesta barreira infernal de acontecimentos do século, e quando consegue finalmente colocar o seu olhinho para espreitar e ver o que está do outro lado, eis que a sua visão choca de frente com outro olho. Um olho está a ver outro olho no meio do buraco de um muro. E assim ficamos cegos, tantas vezes. Quem quer ser lúcido tapa a visão do outro que quer também ser lúcido. Eis outra forma de cegueira, talvez a mais triste.
Em 2026 está difícil respirar. As notícias circulam alguns metros acima do chão e a quantidade de oxigénio diminui. As notícias vêm com monóxido de carbono; são coisa para fazer os humanos tossir, sufocar; pedir ajuda diante das notícias malignas – ficamos todos transformados numa espécie animal que pede socorro. E nada mais perigoso que uma multidão imensa assustada: quem virá terminar com o susto dos meninos-adultos, com esses milhões de pessoas? Assustados, os humanos ficam meninos dóceis, aptos para seguir um qualquer comboio que os leve em linha reta para o inferno.
“O ato de amor e o ato de poesia são incompatíveis com a leitura dos jornais em voz alta”, escreveu Breton. Só na luta se tornam compatíveis, eu diria. Dois inimigos são compatíveis no ringue do boxe, e aí será feita a luta. Aí é feita a luta.
Penso agora nisto: um livro que produz oxigénio, que emite oxigénio. Um livro que pertence ao reino das plantas: produz oxigénio, limpa o ar; ou um livro que pertence ao reino mineral: é objeto-montanha, tantos vão morrer e ele vai ficar. E sim, pertence também ao reino animal; é indomesticável, bruto por vezes. Não é nem mosca que incomoda ligeiramente, nem cão amoroso; é tigre em modo de espera. Tigre colocado em modo de pausa quando se interrompe a leitura. O livro pertence ao reino vegetal, mineral e animal, eis uma hipótese – e também a esse alto reino humano das imaginações. Um livro forte dispara para todos os Reinos, é amigo de todos os reinos; é aquele que acompanha, é aquele que luta.
Mas, claro, a produção de imaginação não é o mesmo que a produção de oxigénio. O oxigénio permite viver, é uma substância funcional; uma gasolina qualquer de que o humano depende para não cair da cabeça até aos pés. A imaginação, a invenção, as ficções, tudo são apenas variações para tornar o ar mais respirável. Emitimos imaginação como substância e ela para o ar vai e ela no ar fica. A atmosfera tem, então, vários materiais químicos e tem, também nela, a imaginação, material altamente humano. A imaginação é inútil, sim. Não serve para apertar um parafuso, mas serve para não pensar em parafusos. É uma coisa sem destino fixo, a imaginação, e ainda bem.
A linguagem tem de ser salva do assassinato sem pausas que é sobre ela exercida nos infinitos discursos que propagam esse vírus que torna coxa, a linguagem, cega de um olho, a linguagem, senhora de apenas meia dúzia de caminhos, a linguagem. Toda a pobreza da linguagem e da imaginação acabará em maldade colocada em movimento. Ou acreditamos nisto ou não. Eu acredito: a pobreza da linguagem produz fascismos de pequena dimensão, mas de grande alcance.
E sim: há uma relação da escrita com a morte, claro. Também com a vida, sim, claro. Mas com a morte, sim, bem potente.
Elias Canetti conta a história dos soldados que, numa sociedade antiga, antes de partirem para a guerra, pegavam, cada um, numa pedra e colocavam-na num monte. Esse monte de pequenas pedras, uma por cada guerreiro, ali ficava, à espera, enquanto os soldados partiam para a batalha. No regresso, no final da guerra, cada um dos sobreviventes voltava a esse monte de pedras e tirava uma, a sua. As pedras que ficavam eram as dos mortos, que não as podiam levantar. Essas pedras que ficavam, esse monte, era um monumento aos mortos, o monumento mais antigo. Aquele monte de pedras era um monte de mortos.
Sinto que escrever é, em parte, escrever para esse monte de mortos que estão no chão, para esse monumento natural.
Cada um tem o seu monumento de mortos privado. Pessoas que não regressaram para levantar a sua pedra. E muitas vezes não se trata de regressar da guerra, nem sequer da morte de um pai ou mãe, mas sim de coisas bem mais pequenas. De não regressar de um amor que acabou, de uma ilusão que foi estilhaçada à pedrada, de um colapso mental ou afetivo. Há muitas variações da morte e nem sempre se morre apenas no fim; por vezes morre-se a meio – que é a pior das mortes.
Antes de ser eu a não chegar a tempo de regressar com a minha pedra, antes de sermos nós a não conseguirmos regressar a tempo com a nossa pedra, temos de ser gratos. Somos moribundos. E a gratidão é uma responsabilidade dos mortais.
Gratidão e delicadeza tornam-nos animais dignos, semelhantes aos bons elefantes. Não é muito, mas também não é pouco.
É por isso que queria terminar agradecendo ao Júri do Prémio Formentor, ao seu presidente, Basilio Baltasar, e a todos os jurados, a honra de terem escolhido a minha obra para estar ao lado das obras de escritores absolutamente admiráveis. Bastaria ler a lista dos escritores que receberam o prémio Formentor para, sem qualquer outra palavra, todos ficarmos em respeito, em pé, ou inquietos e saltitantes, como diante de uma qualquer sonata tocante ou de uma dança meio louca e sem limites. Respeito e inquietude, eis o que provocam estes nomes de grandes escritores. São obras extraordinárias e escritores absolutamente radicais e intransigentes com a sua obra. Nestes nomes potentes, dos anteriores laureados, não há vendedores, não há negociantes. Ninguém negoceia ou negociou com o público, ou com os leitores, o que quer que seja. Vão, ou foram, em frente pelo seu bosque privado, diretos aos moinhos de vento imaginários que cada um tem na sua cabeça. Se aparecerem leitores – e aparecem, sim, felizmente, mas esses leitores aparecerão porque são atraídos por estes lúcidos e alucinados cavaleiros, que continuam a preferir o cavalo ao último dos motores.
Estou muito honrado, sim, por receber este Prémio Formentor de las Letras. Um prémio com uma filosofia forte, densa, com uma linha firme que nos conduz no meio destes dias que aparecem em modo labirinto. Em dias cada vez mais incertos, um caminho claro.
Continuarei a regressar dos dias para recolher a minha pedra; tentarei que a minha mão regresse cada vez mais lúcida para recolher a minha pedra. Quando não regressar, que a minha pedra fique perto das pedras que pertencem aos artistas e escritores que admiro e perto dos meus companheiros e companheiras de vida. Um monte de pedras lúcidas, um monte de pedras que tentaram.
Queria terminar, pois, como comecei.
Estamos fortemente inclinados para a morte, como uma pedra bípede que já foi atirada lá de cima e, enquanto não cai no chão, faz o que o destino permite; por vezes escreve, outras vezes cala-se.
Mas imagino isto: escrever enquanto se cai.
Não se escreve enquanto se sobe, escreve-se enquanto se cai.
Muito obrigado.