Editorial 5 Novembro 2026

O inalienável direito ao descontentamento 

Chamados às urnas, a maioria dos habitantes de uma capital sem nome decide não escolher nenhum candidato. Após cerca de 70% dos eleitores votarem em branco, as eleições são repetidas e o número de votos em branco aumenta (ultrapassa os 80%). Além de um terramoto política, o descontentamento da população acabar por gerar também um questionamento sobre se aquilo a que chamamos democracia merece mesmo esse nome.

Pacificamente, a cidadania expressa a sua opinião. Violentamente, as autoridades reprimem a população.

Este é, de forma resumida, o argumento de «Ensaio sobre a Lucidez», romance de José Saramago publicado em 2004. «É, ao mesmo tempo, uma fábula, uma sátira e uma tragédia. Quis que a fábula fosse uma sátira, mas não pude evitar que fosse também uma tragédia. Como a vida», disse o autor sobre o livro.

Nas últimas semanas, nas duas maiores cidades do país, em luta por uma causa justa e urgente – o direito à habitação –, jovens e menos jovens têm saído à rua para manifestações pacíficas, algumas delas alvo de violenta repressão pelas autoridades, com o triste e inaceitável balanço de quase duas centenas de feridos.

A Fundação José Saramago é uma das signatárias da Carta Aberta «Cultura pelo direito à habitação», recentemente divulgada, que defende o direito à habitação, consagrado na Constituição da República Portuguesa, e que repudia a violência com que as legítimas e pacíficas manifestações têm sido reprimidas no país, colocando também na ordem do dia a defesa de outro direito inalienável, o de nos manifestarmos livremente.

A Carta, que conta já com mais de 4000 assinaturas, pode ser subscrita aqui:

→ Carta Aberta