Destaque Sara Figueiredo Costa 2 Novembro 2026

Crónica: PREC 2026 – Processo Revolucionário em Conchinha

Este texto é pessoalíssimo e cheio de subjectividades. Não tem como função informar, muito menos de forma isenta, não é uma reportagem, não segue o esquema da pirâmide informativa, não é jornalismo. Reúne algumas notas escritas ao longo de vários dias de protestos pelo direito à habitação, umas vezes a partir do epicentro desses protestos em Lisboa, outras à distância, no conforto do sofá. Em qualquer caso, é uma crónica e talvez seja um contributo para uma reflexão mais ampla sobre o que fazemos e quem somos quando assumimos que a política é o modo como nos organizamos para vivermos em conjunto.

A 10 de Outubro, as primeiras tendas da Acampada do Porto instalavam-se na Praça D. João I, perante a irritação do presidente da câmara da cidade, do Governo e da polícia – que havia de desalojar toda a gente à força de bastão cinco dias mais tarde, com o aplauso dos governantes locais e nacionais.

No dia 17 de Outubro, uma manifestação com vários milhares de pessoas desaguou na Praça D. Pedro IV, no Rossio, vinda do Cais do Sodré. A convocatória inicial havia sido feita pela CGTP – Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses, com o motivo de protestar contra o aumento do custo de vida, mas ao longo dos dias que a antecederam, vários colectivos, organizações e associações assumiram a convocatória, apelando a que as pessoas integrassem o protesto da CGTP e que, depois, permanecessem no Rossio, iniciando uma acampada pelo direito à habitação (sendo que, no Porto, a Acampada voltou a tomar a Praça D. João I).

No fim da manifestação da CGTP, e depois dos discursos dos seus dirigentes, onde não houve referências ao que se preparava para acontecer logo a seguir, começaram a surgir tendas por entre a multidão que ali se via. O ambiente era de festa, com grupos à conversa, gente que vinha a caminhar desde o Cais do Sodré e decidiu ficar, outra gente que chegou apenas para a convocatória da acampada, muita gente consciente de que o problema da habitação está no centro das nossas vidas, mas também que é uma espécie de vértice de uma forma geométrica complexa onde a grande questão é a acumulação de recursos por parte de uma minoria.

As tendas abriram-se e começaram a instalar-se, formando um pequeno aglomerado.
Estava alguma coisa em marcha e o que era claro, nesse fim de tarde do Rossio, é que já não iria parar.

O Domingo pedia descanso, mas a acampada chamava por toda a gente. Apanhei o metro, depois de passar numa mercearia do meu bairro e comprar alguma fruta, e dirigi-me ao Rossio. Ali, junto à estátua de D. Pedro IV, uma ou duas mesas improvisadas dispunham comida, água e outros bens essenciais para quem ficou a dormir no Rossio, mas também para todas as pessoas que aparecessem entretanto. E eram muitas a fazê-lo.

Ao fim da tarde, regressei ao Rossio para participar na Assembleia Popular das 19:00. Ali se deram algumas informações relevantes para a logística da acampada e, logo depois, abriram-se os microfones para quem quisesse inscrever-se e falar. Estava aqui um dos gestos básicos deste protesto, tomar a palavra, debater, propor, encontrar forma de concretizar o que é de concretizar, havendo quem o faça. E há.

No dia seguinte, voltei ao Rossio pela manhã. Achei que ia só levar alguma comida e água e que podia ficar na Acampada a trabalhar, com o computador. Afinal, o que tinha para fazer nesse dia era escrever, bem podia fazê-lo no epicentro daquilo que já não era apenas um protesto, mas igualmente a reclamação colectiva de uma outra forma de estar e viver na cidade. Achei que ia trabalhar na escrita, mas acabei a percorrer as lojas da Praça da Figueira em busca de caixas de cartão limpas (que me foram dadas num estabelecimento comercial), a arrumar pensos higiénicos, tampões, máscaras cirúrgicas e outros materiais de higiene e protecção que tinham sido ali deixados por várias pessoas, a discutir com quem estava no centro de logística da Acampada, naquele momento, a ideia de levar à Assembleia dessa noite uma proposta para que o Teatro Nacional D. Maria II, edifício estatal e, portanto, de todos nós, permitisse o acesso das pessoas acampadas às casas de banho. Não conhecia a maioria das pessoas que ali estavam, quase todas mais novas do que eu, e ninguém me disse o que eu podia ou não fazer, dizer, propor. Cheguei, perguntei o que havia para fazer, algumas pessoas partilharam informação relevante sobre o que fazia falta e pus-me a fazer o que podia e sabia. Depois, acabei por encontrar uma pessoa que conheço de outros espaços, associativos, e ainda uma outra que conheço de outros protestos. Se o Governo ou algum soldado da milícia dos comentadores televisivos lesse isto, ia dizer que assim se vê como isto é tudo malta dos protestos, da extrema esquerda, do não sei quê, e com estrangeiros pelo meio (imagine-se a audácia de pessoas que não nasceram em Portugal reclamarem por direitos em Portugal, onde vivem!). Sobre isso, estimo que entalem o dedo mindinho do pé direito nalguma porta pesada enquanto andam pela casa descalços a pensar nas alarvidades que vão dizer para a televisão, e é tudo.

Nesse dia, compromissos laborais obrigaram-me a falhar a Assembleia Popular, onde foi decidido permanecer no Rossio, com a Acampada a funcionar. Não iria lá dormir de qualquer modo e este é um bom momento para esclarecer algumas coisas mais sobre este relato tão pessoal. A minha participação directa na Acampada tem sido muito breve, esporádica e adaptada ao que o trabalho permite e, também, àquilo com que o corpo e a mente conseguem lidar. Vou lá quando consigo, tentando conseguir o maior número possível de vezes, e não fico a dormir porque tenho medo de amanhecer com a cabeça partida, ou algum pulmão perfurado por uma costela – por sua vez, partida por algum bastão – , e nisso não sou nada corajosa para aí desde que os trinta e tal anos. Por outro lado, temo que uma noite ao relento acabasse de vez com o frágil humor da minha sinusite crónica, deixando-me doente por vários dias, o que poria em causa a minha capacidade de trabalhar. E, sendo trabalhadora independente, portanto, precária, nenhuma baixa me safa de ficar sem trabalho no mês seguinte se não entregar o deste. Portanto, este não é um relato pseudo-heróico sobre os meus dias nas barricadas e tal… É uma reflexão que se me impôs e que fui fazendo entre o Rossio e a Acampada, o sofá da sala, as conversas com familiares e amigos, a leitura da imprensa e a noção de que os dias que vivemos não são banais. Tenho uma admiração sem fim pela coragem e pela resistência de quem tem ficado no Rossio e na Praça D. João I, resistindo, expondo o corpo às balas (vamos tentar que isto continue a ser uma metáfora). Não faço ideia se, no futuro, continuarei a manter este resguardo nocturno ou não, nem isso é relevante. Sobretudo, parece-me muito claro que este movimento construído em torno das Acampadas é muito mais vasto do que as tendas e as assembleias populares, envolve pessoas, momentos e acções que se espalham no espaço e nos diferentes tempos em que vamos vivendo, permite que nos envolvamos de diferentes maneiras. É verdade que, nos momentos críticos, é ali que se resiste, mas também é verdade que podemos participar nisto de diferentes formas. E devemos, parece-me.

Na madrugada seguinte, a polícia avançou ao mesmo tempo em Lisboa e no Porto. 55 pessoas foram detidas, houve vários feridos e muitas horas de emissão televisiva com os representantes da PSP a dizerem que foi tudo proporcional, o Governo a fingir que não tinha dado ordens para aquilo acontecer e o exército dos chatos televisivos a discutir, em looping, se as tendas eram uma ameaça à democracia ou não. Nunca se viu tamanha dedicação ao debate, nem quando se conheceram os números recentes sobre a pobreza em Portugal, aquele estado em que 27% das pessoas ficam depois de pagarem as despesas com a habitação. Há prioridades.

Depois da carga policial, e da propaganda sobre o perigo das tendas e os manifestantes bons e manifestantes maus que o Governo se dedicou a disseminar por aí, o Rossio e a Praça D. João I voltaram a encher-se de gente ao fim da tarde desse mesmo dia. Teria sido aí que o Governo, se desse bom uso aos neurónios, percebia que a violência lhe saiu pela culatra, mas não. O Primeiro-Ministro voltou a insistir no manifestante bom/manifestante mau, como quem dirige uma opereta de quinta categoria, e assumiu que as pessoas que encheram as praças eram estúpidas.

Dois dias depois, as tendas voltaram ao Rossio. Na noite de 21 para 22, a PSP insistiu no flagelo das tendas, que tinham de sair, tinham mesmo de sair, porque eram ilegais. Se o problema eram as tendas, as tendas saíram, mas as pessoas ficaram (apanharam-vos, senhores do Governo… é assim que se dá uso aos neurónios). Para se aquecerem, dormiram em conchinha, no chão da praça, e no dia seguinte, na Assembleia Popular, dei por mim a entrar no coro de centenas de pessoas que cantava “a conchinha é uma arma, e eu não sabia”, com a música do José Mário Branco, sempre presente. Também se gritou “polícia, alinha, anda fazer conchinha”, mas aí já não me juntei, porque não queria arriscar dar por mim enconchada nalgum latagão vestido de Robocop… Certo é que se o humor é uma das ferramentas que mais se usa por estes dias, temos movimento! Não gosto de dançar, pelo que, se não puder rir, não é a minha revolução e acho que a Emma Goldman não levaria nada a mal.

Dar sentido aos dias

Passados alguns dias de Acampada e de assembleias populares, começo a sentir-me numa espécie de PREC Vivi sempre com a tristeza de ter chegado atrasada a todos os momentos interessantes das últimas décadas, com o 25 de Abril de 1974 à cabeça, mas o ambiente e as intervenções das assembleias populares e da Acampada, bem como esta sensação partilhada com amigas e amigos de diferentes idades e contextos sobre o potencial de esperança que estes dias vão guardando, tudo isso começou a cheirar-me a PREC Terá contribuído bastante para isso o facto de não conseguir ter um dia sossegado desde que isto começou – e eu não estou lá todos os dias, como já expliquei –, de dar por mim, a um sábado à noite, depois de mais uma manifestação, a pensar que vou aproveitar o Domingo para aspirar a casa e cozinhar algumas refeições para a semana, só para descobrir, no Domingo de manhã, que houve uma nova carga policial durante a noite e que é preciso, obviamente, usar o Domingo para ir para a rua outra vez.

Dizia que as assembleias e o que delas decorre contribuem muito para que isto pareça o PREC, mas a verdade é que é muito diferente. Ainda assim, fala-se de poder popular nas televisões, ouve-se gente a dizer que tem de preparar uma moção para apresentar na assembleia, as pessoas tratam-se muitas vezes por companheiros/as, camaradas, e isto mesmo que não se conheçam de parte alguma. O facto de toda a gente poder pedir o microfone e tomar a palavra é bonito, importante, decisivo, e também produz intervenções de toda a espécie, algumas muito boas, outras nem tanto, mas é isto a vida e o que somos nós, em conjunto. É grande a probabilidade de ouvirmos uma intervenção sem grande nexo, seguida de outra que parece saída de um épico cinematográfico. Há quem se apresente como detentor da sabedoria necessária para fazer a revolução e há quem seja amigo de se escutar a si próprio, usando toda a lista de clichés da retórica revolucionária desde o século XIX, o que, por vezes, é muito divertido. Há um companheiro que fala em muitas assembleias e que assume o perfil de um educador revolucionário, com gabardine hollywoodesca e voz de emissão radiofónica dos anos 40, que refere o “fogo revolucionário que anda pela Europa” e se despede com um “viva a frente popular e viva a revolução” – e como não gritar viva, em apoio? Há momentos poéticos, que às vezes têm pérolas como “a piolhíssima agora caga leis”.  Mas o que há, sobretudo, são pessoas que decidem falar, partilhar o que as preocupa, lançar ideias sobre como podemos resolver problemas, escolher caminhos, tomar decisões. Há propostas concretas, como a do Sindicato das Moradoras, no sentido de se discutir, aqui, qual é o tecto que queremos para as rendas, propondo que seja indexado ao valor do trabalho. Há muito respeito por quem defende coisas diferentes, pelo espaço e o tempo para cada pessoa falar, pela escuta que devemos uns aos outros se quisermos, realmente, mudar alguma coisa. Os comentadores que espumam de raiva incontida sempre que falam sobre “isto das assembleias populares” podiam passar por lá, tirar umas notas, comparar o que ali se faz e o modo como se faz com a triste bambochata a que assistimos diariamente na Assembleia da República.

Tudo isto lembra muito o PREC, sobretudo porque não o vivi, mesmo que me tenha alimentado de muitas das suas histórias, apreciando, sobretudo, as mais cómicas, que em nada retiram relevância política ao que se fez e, principalmente, ao que tentou fazer-se. E andávamos nisto das comparações quando algumas das pessoas que estiveram no PREC começaram a aparecer com frequência nas manifestações e nas assembleias. Melhor ainda, num belo entardecer em Chelas, no dia em que a Assembleia Popular do Rossio mudou temporariamente de sítio para apoiar uma mulher despejada de uma casa camarária, ali no Bairro do Condado, vi com os meus próprios olhos Garcia Pereira inscrever-se e tomar a palavra. E repetiu, já não sei se no dia seguinte ou dois dias depois (como no PREC original, já não sei bem a quantas ando). O Governo de Luís Montenegro tem um Ministro da Administração Interna que não sabe quem dá ordens à polícia e uma polícia que afinfa em manifestantes pacíficos pelo menos uma vez por semana, ao sábado, talvez para assegurar o descanso dominical, mas conseguiu a proeza de juntar os velhos militantes de diversas correntes e feitios que ajudaram a fazer Abril e os novos, novíssimos, cidadãos e cidadãs que já nasceram nesta baderna a que ainda chamamos democracia, sabendo que o futuro lhes está vedado, desde logo a nível global, graças à bela porcaria que andamos a fazer há anos, como se a natureza fosse um fornecedor inesgotável de recursos e não algo de que fazemos parte, e também no seu espaço mais reduzido, chamemos-lhe país ou outra coisa qualquer. É bem possível que muitas e muitos deles já nem se sintam cidadãos, nem queiram organizar-se em torno desta ideia de pólis que parece bonita, mas que não deixa de excluir muita gente, e que não tenham qualquer interesse em manter a ilusão de uma suposta ordem que nos garantiria alguma coisa, porque sabem que o tempo das garantias já acabou. Também lá andamos nós, os que não somos novos, muito menos novíssimos, mas ainda cá não estávamos no tempo do outro PREC Teremos de encontrar o nosso lugar nisto, parece-me. Escrever conta?

As obsessões televisivas e as reacções do poder

No primeiro PREC, a televisão pública, que tinha começado por ser tomada pela Revolução, passou a ser o modo de difusão do que ia acontecendo – ou do que era possível registar do que ia acontecendo, porque, diz quem lá esteve, aconteceram muitas coisas e ao mesmo tempo e sem muitos sítios – e um dos espaços onde se debatiam as escolhas, os falhanços, as vitórias e os rumos.

Neste PREC – Processo Revolucionário em Conchinha, a televisão (toda ela, pública ou privada) foi tomada por um exército de comentadores, quase todos homens, quase todos brancos, todos (e todas, quando calha) profundamente mal dispostos e muito assustados com isto de o poder popular andar na boca de tanta gente.

Sempre que o calendário bate naquelas datas que são efemérides políticas associadas com a democracia, como o 25 de Abril ou o 5 de Outubro, há bonitos discursos de Presidentes da República, deputados, autarcas e representantes de instituições várias sobre a importância da participação democrática, o envolvimento dos cidadãos na vida política, a imperiosa necessidade de que os jovens conheçam as instituições políticas que estruturam o país e o seu governo, para poderem intervir conscientemente e para não engrossarem as fileiras da abstenção quando tiverem idade para ir colocar a cruz no boletim de voto. Às vezes, quando a efeméride é mais redondinha, como os 100 anos da República ou os 50 do 25 de Abril, esses discursos bonitos vêm acompanhados de acções mais vistosas, como idas de políticos a escolas, debates com jovens na Assembleia da República, jogos ou outros objectos que se mandam fazer aos milhares para espalhar a palavra de que a política é coisa de toda a gente.

Ora, a política é, realmente, coisa de toda a gente, e atravessa os momentos grandiosos e televisionáveis da nossa história comum, mas também os quotidianos, os momentos que não se vêem, que não são filmados, gravados nem debatidos por fileiras de comentadores chatos nos telejornais. Nestes dias, a política está nas praças de Lisboa, do Porto e de várias outras cidades onde, mesmo sem acampadas, há protestos, debates, partilhas várias. As televisões, no geral, não estão a saber lidar com as Assembleias Populares, muitas vezes falam delas como se de um bicho exótico se tratasse – já ouvi pivots dizendo que “vai começar aquilo a que eles chamam assembleia popular” – e algumas até insistem em debates sobre a legitimidade de tais reuniões. Isto faz-me suspeitar de que boa parte destas pessoas nunca pôs os pés numa Reunião Geral de Alunos, numa Assembleia de Freguesia, numa reunião associativa ou em algum momento em que pessoas se juntam, discutem e decidem coisas. O restaurante onde se vai fazer o jantar de Natal da empresa não conta… e, ainda assim, também há política nessa escolha, mas aqui falava do processo e não tanto da escolha.

Agora temos praças cheias de pessoas de diferentes idades que decidiram pôr em prática os bons conselhos que essa legião de governantes e altas figuras do Estado andou a distribuir nos últimos anos e que estão, então, a dar atenção à política, a intervir nas suas vidas, a discutir colectivamente como podemos e queremos viver. E o que faz o Governo perante essa decisão? Manda a PSP e usa os mais alucinados argumentos para correr toda a gente à bastonada. O meu preferido é o das tendas serem ilegais, sobretudo a partir da meia noite e meia. Percebo muito pouco de leis, mas tenho ideia que são como o sol, quando nascem, são para toda a gente. Ora, se as tendas em espaços públicos são ilegais, porque raio temos Lisboa e o Porto cheios de tendas onde dormem pessoas que não conseguem pagar uma renda? E algumas até têm emprego e salário, imagine-se! A última coisa que desejo é que alguém vá chatear pessoas que não têm uma casa para viver, mas fico aqui a matutar: se é ilegal ter tendas armadas no espaço público, e se o Governo manda a PSP arrasar com elas sempre que as vê, não era de esperar que percorressem toda a cidade para fazer o mesmo com as outras tendas? Por outro lado, quando olhamos para isto com algum distanciamento, não parece mesmo um mau filme cómico? Temos ministros a perorarem com ar grave sobre o perigo das tendas, o drama das tendas, o flagelo das tendas, sempre como se falassem de eucaliptais a arderem descontrolados, ou de hospitais a rebentarem pelas costuras, ou de estudantes que continuam sem professores meses depois de as aulas terem começado. São tendas, senhores! Um pedaço de tecido esticado por umas varetas. As mais recentes até se abrem sem esforço, parecem um passe de mágica, mesmo que depois seja preciso uma especialização em puzzles chineses para conseguir voltar a fechá-las. São tendas, não têm agentes químicos, não mordem, não obrigam grávidas a parirem à beira da estrada, nem gente com salário a dormir na rua. E, ainda assim, lá está a polícia, garantindo que as praças estão livres dessa praga e que as estátuas não são importunadas.

Não recomendo ver muitas horas de emissão televisiva, sobretudo para quem sofre dos nervos, ou para quem não se sente muito confortável com a constatação de ter começado a discutir em voz alta e de forma gesticulada com a televisão, mas vale a pena passar por lá. Há momentos em que é divertido, como quando vemos a Pri Valadão elucidar sobre o racismo estrutural, ao mesmo tempo que explica que não vai desistir de lutar pelos seus direitos e, sobretudo, pelos direitos colectivos. Ou quando o Tonga aparece a explicar, calma e pedagogicamente, como funciona uma assembleia popular, como se tentasse ensinar uma criança de dois anos a usar o bacio. Vêem-se terçolhos a saltar no cantinho da pálpebra superior de certos comentadores… São momentos sérios, não nos confundamos, e muito importantes, também, por vários motivos, mas não deixa de ser muito divertido adivinhar o tropel de neurónios avariados a chocarem uns com os outros enquanto perguntam “O que raio está a acontecer aqui? Porque é que estão a falar de poder popular na televisão? Aquilo que a avozinho contava, de quando fugiu para o Brasil, vai acontecer outra vez?”. Não é preciso voltar a citar mal a Emma Goldman, mas é mesmo preciso não perder o riso, a inteligência de o saber provocar e a felicidade de o partilhar.

Uma outra obsessão diária das televisões, para além da legitimidade das assembleias populares, é o montar da tenda. Ou o desmontar. E as horas, sobretudo as horas. É fácil perceber que conhecer a decisão de uma assembleia popular que ainda não aconteceu, e que vai votar a possibilidade de voltar a montar tendas no Rossio para ali pernoitar, é coisa impossível, mas não para certos repórteres, que talvez acreditem que se perguntarem a mesma coisa cem vezes, alguém lhes responderá. Ou isso ou não estão familiarizados com conceitos como “assembleia popular”, “debate”, “votação”, “democracia directa” e por aí fora. Pouco importa. A gente liga a televisão, vê a manifestação chegar ao Rossio e começa a segada: vão pernoitar aqui? Vão montar as tendas? Até que horas? E a que horas? E as tendas, são para ficar? E se a polícia mandar sair? Gabo muito a paciência de quem tem estado, à noite, no Rossio ou na Praça Dom João I e ainda consegue aturar isto. É uma técnica de tortura, diga-se. Eu usei-a algumas vezes, na faculdade, quando frequentava assembleias estudantis e outras reuniões, algumas sem regimento próprio, imagine-se (o que me permite, agora, não ficar pasmada quando ouço as palavrinhas “assembleia popular”), para aborrecer pessoas com responsabilidades em orgãos de gestão que não cumpriam os princípios desses mesmos orgãos, mas era, assumidamente, uma forma de chatear e fazer cumprir o que era suposto. Aqui, não sei bem o que é.